EWZ a US$ 42,73: o primeiro turno lido em dólar

A reação mais intensa ao resultado das urnas de domingo (4) aparece longe da B3. O EWZ — código em Nova York do iShares MSCI Brazil, fundo negociado em bolsa que replica uma cesta de ações brasileiras e funciona como principal porta de entrada do investidor estrangeiro no país — opera com ganho de 11,89%, a US$ 42,73. É esse o número que traduz o humor do capital externo com o primeiro turno.

O placar que sustenta o movimento: Flávio Bolsonaro (PL) terminou a apuração à frente de Luiz Inácio Lula da Silva (PT), com 47,03% dos votos válidos contra 45,16%. O segundo turno entre os dois foi confirmado, e o senador é filho do ex-presidente Jair Bolsonaro.

Nas duas casas do Congresso, candidatos ligados à direita e à extrema-direita saíram fortalecidos — o traço mais visível do pleito e o que passou a ser precificado desde a abertura dos negócios desta segunda-feira (5).

O que a definição de 25 de outubro coloca na mesa

A disputa presidencial ficou para 25 de outubro, e é nessa janela de três semanas que o mercado vai trabalhar. A leitura predominante é que uma vitória do senador consolidaria um bloco conservador mais inclinado a pautas acompanhadas de perto por quem investe no Brasil — o ajuste das contas públicas e uma possível nova rodada de mudanças na previdência entre elas. Nada disso é automático: depende da composição que sair das urnas e da capacidade de articulação no Legislativo.

A montagem das alianças para o segundo turno entra no radar nos próximos dias. Pleitos com placar apertado historicamente costumam produzir oscilações mais largas nos ativos locais, com o prêmio de risco embutido nos preços subindo e descendo conforme as sinalizações de política econômica.

Para o investidor pessoa física, o efeito prático se distribui em três frentes: o preço dos ativos brasileiros medidos em dólar, o comportamento do câmbio e o grau de volatilidade que a bolsa passa a carregar. Um mesmo mercado pode contar histórias diferentes quando lido em pontos e quando lido em dólar, e essa diferença costuma ficar mais evidente justamente em janelas de evento político.

Antes do pleito: Ibovespa a 192.114,55 pontos e dólar a R$ 5,2165

No pregão de sexta-feira (2), véspera da votação, o Ibovespa avançou 2,63% e encerrou aos 192.114,55 pontos, no maior patamar desde abril. Na semana, o índice acumulou valorização de 4,7%. A sessão foi marcada por volatilidade e por melhora do humor externo, após dados de emprego mais fracos nos Estados Unidos.

No câmbio, o dólar à vista fechou cotado a R$ 5,2165, com recuo de 0,07% no dia. No acumulado de cinco sessões, a moeda americana subiu 0,67% frente ao real.

O contraste entre um EWZ que avança dois dígitos e um câmbio praticamente estável na última sessão ajuda a separar, no curto prazo, o que é reprecificação de ações do que é movimento de moeda — distinção que pesa para quem mede o retorno da carteira em real.

Ásia em alta, Europa dividida e futuros de Nova York no vermelho

PraçaÍndiceVariação
TóquioNikkei+2,45%
Hong KongHang Seng+0,28%
Xangai—+0,31%
LondresFTSE 100+0,22%
FrankfurtDAX-0,18%
ParisCAC 40-1,11%
Nova York (futuro)Nasdaq-0,17%
Nova York (futuro)S&P 500-0,13%
Nova York (futuro)Dow Jones-0,10%

O feriado do Dia Nacional mantém as bolsas chinesas fechadas — Xangai aparece com variação positiva, mas sem negociação — e reduz a liquidez global, o que tende a amplificar o tamanho dos movimentos nos pregões que abrem.

Nas commodities, o Brent recua 0,34%, a US$ 101,90 o barril, e o WTI cede 1,00%, a US$ 90,20. O ouro sobe 0,80%, a US$ 4.195,70 por onça-troy. Nas criptomoedas, o Bitcoin ganha 1,3%, a US$ 85.886,44, e o Ethereum avança 0,5%, a US$ 2.717,13.

A agenda que divide espaço com a política

O calendário desta segunda é relativamente esvaziado, mas traz referências que costumam mexer com juros e câmbio. Às 8h25 sai o Boletim Focus, com as projeções do mercado para inflação, atividade e Selic. Às 10h vêm os PMIs de serviços e composto do Brasil — indicadores que medem o ritmo da atividade a partir de pesquisas com empresas — e, às 10h45, a leitura equivalente da S&P Global para os Estados Unidos. Às 11h é a vez do ISM de serviços americano.

Na agenda institucional, o presidente do Banco Central, Gabriel Galípolo, tem despachos internos às 9h, audiência às 14h com Dilma Rousseff, presidente do New Development Bank (NDB), e reunião às 16h com o secretário especial da Receita Federal, Robinson Sakiyama Barreirinhas, e equipe. O presidente Luiz Inácio Lula da Silva não tem compromissos previstos, e Dario Durigan cumpre audiência às 17h com Marcos Pinto.

O que observar até 25 de outubro

Três frentes devem concentrar a atenção nas próximas semanas: a costura de alianças para o segundo turno, os sinais concretos sobre a agenda fiscal e o comportamento dos mercados externos, ainda sensíveis aos dados de atividade dos Estados Unidos e às expectativas de juros por lá.

O movimento desta segunda é reação a uma informação nova, e reações eleitorais tendem a perder intensidade à medida que o calendário avança e os fatos voltam a ser econômicos. O que costuma sobrar é o prêmio de risco que o investidor aceita carregar para manter ativos brasileiros — e esse prêmio se ajusta a cada sinalização sobre a política econômica que vier do próximo governo.