As taxas do Tesouro Direto abriram com movimentação dividida nesta sexta-feira (28), marcadas pela alta dos títulos prefixados e leve recuo dos atrelados à inflação. O movimento é reflexo direto do discurso do presidente do Federal Reserve (Fed, o banco central dos EUA), Kevin Warsh, no simpósio de Jackson Hole, que trouxe um tom hawkish (postura favorável à manutenção ou elevação dos juros) e alterou as expectativas globais para a política monetária.
O impacto externo e a curva americana
Em seu primeiro discurso desde que assumiu o comando da instituição em maio, Warsh alertou que a inflação não está desacelerando de forma significativa e reafirmou o objetivo de 2% como uma meta firme. Segundo a fonte, embora os dados de PCE (Índice de Preços de Despesas de Consumo Pessoal) e CPI (Índice de Preços ao Consumidor) do verão tenham superado as expectativas, as tendências subjacentes não melhoraram. As condições financeiras atuais não são restritivas e os juros seguem como a principal ferramenta da instituição.
A reação imediata nos EUA concentrou-se na curva curta: o rendimento do Treasury de dois anos saltou até 8 pontos-base (centésimos de porcentagem), atingindo 4,314%, maior nível desde julho. Na ponta longa, o papel de 30 anos cedeu 1 ponto-base para 5,179%, enquanto o de dez anos avançou 2 pontos-base para 4,692%.
O mercado já recalibra as apostas. De acordo com a ferramenta CME FedWatch, que mede as probabilidades implícitas nas negociações de futuros, a chance de um aumento de 25 pontos-base nos EUA já em setembro subiu para 43,5%, ante os 35,7% registrados antes da fala de Warsh. No fim de julho, essa probabilidade superava 70%. Andressa Durão, economista do ASA, avalia que o discurso foi mais completo do que o esperado, dando peso maior ao mandato da inflação em detrimento do emprego e classificando a economia americana como resiliente.
A reação doméstica no Tesouro Direto
No mercado local, a influência externa ditou o ritmo dos prefixados, enquanto os títulos de inflação recuaram diante do humor ligeiramente melhor no trecho longo da curva americana.
| Título | Taxa Anterior | Taxa Atual | Variação |
|---|---|---|---|
| Tesouro Prefixado 2029 | 14,10% | 14,16% | +6 pontos-base |
| Tesouro Prefixado 2032 | 14,49% | 14,55% | +6 pontos-base |
| Prefixado com Juros Semestrais 2037 | 14,51% | 14,54% | +3 pontos-base |
| IPCA+ com Juros Semestrais 2037 | 7,69% | 7,66% | -3 pontos-base |
| IPCA+ 2032 | 8,00% | 7,98% | -2 pontos-base |
| IPCA+ com Juros Semestrais 2045 | 7,46% | 7,45% | -1 ponto-base |
| IPCA+ 2040 | 7,46% | 7,46% | Estável |
| IPCA+ 2050 | 7,27% | 7,27% | Estável |
| IPCA+ com Juros Semestrais 2060 | 7,32% | 7,32% | Estável |
O dilema do diferencial de juros
Para o investidor pessoa física, o cruzamento dessas informações exige atenção redobrada. Historicamente, a atração de capital estrangeiro para a renda fixa brasileira tende a depender do prêmio de risco e do diferencial de juros em relação aos Estados Unidos. Quando a curva americana sobe — refletindo a perspectiva de juros mais altos por mais tempo no exterior —, o custo de oportunidade para alocar recursos no Brasil aumenta, o que historicamente costuma pressionar o câmbio e exigir prêmios maiores nos títulos prefixados domésticos.
A leitura é que o mercado brasileiro tenta precificar dois movimentos antagônicos: a inflação interna em desacceleração, evidenciada pelo IGP-M (Índice Geral de Preços - Mercado) e pelos preços ao produtor, que abre espaço para a atuação do Banco Central do Brasil, e o choque externo, que limita a queda da curva longa e pressiona a moeda.
O IGP-M caiu 0,22% em agosto, após recuo de 1,16% em julho, ficando próximo da expectativa de queda de 0,25%. Em 12 meses, o índice acumula alta de 2,16%. O IBGE também informou que os preços ao produtor recuaram 0,83% em julho, com o acumulado em 12 meses registrando alta de 1,94%.
Com a Selic em 14% ao ano, o diferencial de juros vinha atraindo dólares, mas a possibilidade de alta nos EUA e a perspectiva de novos cortes no Brasil alteram o cenário. O dólar à vista voltou a superar os R$ 5,20 ao longo da manhã. As opções de Copom negociadas na B3 indicavam, na última quarta-feira, 88,5% de chance de corte de 25 pontos-base da Selic em setembro, contra 10,9% de probabilidade de manutenção. O mercado aguarda ainda o dado do Caged, com as aberturas formais de vagas de trabalho em julho, previsto para esta sexta-feira, às 14h30.
