Principais pontos

  • O Ibovespa rompeu sua sequência de sete pregões de alta nesta sexta-feira, 28, recuando 0,60% aos 174.084 pontos
  • a chance de alta em setembro era de 35,4% na véspera e saltou para 55,7%
  • A Azimut está conservadora, alocada em renda fixa, aguardando o segundo turno

O choque de precificação no Fed

O Ibovespa rompeu sua sequência de sete pregões de alta nesta sexta-feira, 28, recuando 0,60% aos 174.084 pontos. O movimento interrompeu o repique diário — que vinha desde quinta-feira, 27 — e reflete a reação imediata ao discurso de Kevin Warsh, presidente do Federal Reserve (Fed, o banco central norte-americano). Por volta das 12h45, a pressão vendedora já consolidava a mínima intradiária de 174.030 pontos (-0,63%), após uma tentativa de sustentar a máxima de 176.420 pontos (+0,73%) perto da abertura.

Ao apontar uma economia dos Estados Unidos em expansão e uma convergência da inflação para a meta ainda muito fraca, a autoridade monetária afastou o otimismo com ativos de risco globais. A leitura de mercado é que o aperto monetário não terminou. Marcelo Fonseca, economista da CVPAR, avalia que o presidente do Fed sinalizou, mesmo sem declarar explicitamente, a intenção de elevar a taxa básica. Para o especialista, houve reafirmação do compromisso com o controle de preços, acompanhado do reconhecimento de que a inflação americana apresentou avanço pífio desde a reunião de julho.

Esse tom restritivo alterou drasticamente as probabilidades calculadas pelo CME FedWatch, ferramenta que monitora as expectativas dos investidores para a política monetária americana. Antes do discurso, a chance de um aumento de juros na reunião de setembro era de 35,4%. Após as declarações, a chance de alta em setembro era de 35,4% na véspera e saltou para 55,7%. Adicionalmente, as apostas de alta de juros na próxima reunião do Fed subiram para 59%, enquanto 38,5% dos participantes já veem como possível mais um aperto para o intervalo entre 4% e 4,25% ainda neste ano.

Para o investidor brasileiro, essa mudança na curva de juros americana impõe um custo de oportunidade maior para a renda variável local. Com o dólar tendendo a se fortalecer frente a moedas de mercados emergentes quando os Treasuries pagam mais, o fluxo estrangeiro para a B3 enfrenta um obstáculo adicional.

O impacto local e a postura defensiva

A pressão externa foi sentida imediatamente na B3, interrompendo um movimento que Eduardo Carlier, codiretor de investimentos da Azimut Brasil, contextualiza como uma correção de humor. O gestor lembra que agosto teve "dois meses em um". O Ibovespa enfrentou um período inicial de forte aversão, acumulando queda mensal de quase 7%, seguido por um alívio que reduziu as perdas para perto de 1%.

Segundo Carlier, os vetores de curto prazo para esse repique recente foram a descompressão dos preços do petróleo e pesquisas eleitorais apontando um segundo turno mais acirrado. A disputa acirrada tende a exigir mais cautela fiscal por parte dos candidatos, o que o mercado costuma interpretar como um ponto positivo para a sustentabilidade da dívida pública.

Diante da incerteza, a estratégia institucional muda. A Azimut Brasil está com menor exposição a ações e ativos de risco. A Azimut está conservadora, alocada em renda fixa, aguardando o segundo turno. A eleição presidencial e seus desdobramentos fiscais seguem como o grande ponto de atenção para o investidor local nos próximos meses, exigindo proteção contra a volatilidade externa e interna.