Principais pontos
- O dado que ancora a aposta: os operadores de swaps precificam 87% de probabilidade de alta dos juros, o primeiro movimento em três anos.
- Dos 16 episódios de queda do S&P 500 no período — 12 mercados de baixa com recuos de 20% ou mais, além de quatro quedas entre 18% e 20% —, seis seguiram um ciclo de alta de juros que desembocou diretamente na recessão.
- As ações americanas oscilam desde o recorde de meados de agosto, com os investidores atentos à inflação e ao petróleo negociado acima de US$ 100 o barril.
- O rendimento do Treasury de 10 anos opera pouco abaixo de 5%, patamar frequentemente lido como risco para a renda variável.
Wall Street renova otimismo às vésperas do Fed
Os principais estrategistas de Wall Street renovaram suas previsões otimistas para o mercado de ações americano, apostando que o rali sobrevive ao aperto monetário que o Federal Reserve deve iniciar na quarta-feira. O dado que ancora a aposta: os operadores de swaps precificam 87% de probabilidade de alta dos juros, o primeiro movimento em três anos. Mesmo assim, o S&P 500 opera a menos de 2% do seu recorde.
O tom otimista parte de três casas de peso. Ben Snider, estrategista-chefe de ações americanas do Goldman Sachs, afirmou que o mercado já embute mais de três aumentos de juros para o próximo ano e que os lucros corporativos e os balanços patrimoniais seguem robustos. Seus pares do JPMorgan e do Morgan Stanley compartilham a leitura, ainda que com ressalvas.
O gatilho que o mercado realmente teme
A leitura do Ativo Virtual é que o inimigo do mercado em alta não é o primeiro aumento de juros, e sim o formato do ciclo. Uma análise da Bloomberg mostra que, desde 1945, são necessários um ciclo completo de aperto e, muitas vezes, a recessão que o acompanha para derrubar as ações — não um movimento isolado.
Dos 16 episódios de queda do S&P 500 no período — 12 mercados de baixa com recuos de 20% ou mais, além de quatro quedas entre 18% e 20% —, seis seguiram um ciclo de alta de juros que desembocou diretamente na recessão. Apenas duas dessas grandes quedas não tiveram nenhum desses gatilhos como precedente. É esse contraste que sustenta a tese dos estrategistas.
A resiliência nos números
O cenário, porém, não é isento de pressão. As ações americanas oscilam desde o recorde de meados de agosto, com os investidores atentos à inflação e ao petróleo negociado acima de US$ 100 o barril. O rendimento do Treasury de 10 anos opera pouco abaixo de 5%, patamar frequentemente lido como risco para a renda variável.
| Indicador | Leitura |
|---|---|
| Probabilidade de alta do Fed (swaps) | 87% |
| Futuros do Nasdaq 100 (queda na segunda) | 1,6% |
| S&P 500 vs. pico histórico | menos de 2% |
| Treasury de 10 anos | pouco abaixo de 5% |
| Petróleo (por barril) | acima de US$ 100 |
A reunião do Fed ocorre menos de uma semana depois de um indicador da inflação subjacente — o Índice de Preços ao Consumidor do Departamento do Trabalho — registrar, na sexta-feira, seu maior aumento em quatro meses.
O que observa quem acompanha o mercado
Michael Wilson, do Morgan Stanley, admitiu o risco de uma correção, definida como queda de 10% frente ao pico recente, caso o choque inflacionário se mostre mais forte do que o esperado. O petróleo retomou a alta em meio a tensões geopolíticas no Oriente Médio. Ainda assim, ele argumenta que as ações podem tolerar juros mais rígidos quando o avanço é puxado por um crescimento nominal mais forte.
A equipe do JPMorgan liderada por Mislav Matejka reforçou que, desde que os aumentos do Fed sejam moderados e ocorram num contexto de lucros fortes, sem desancorar a inflação, a renda variável tende a resistir. Seus colegas acrescentaram que a movimentação de curto prazo nos mercados de petróleo tende a ditar a tomada de risco, o que ajuda a explicar a oscilação recente dos índices. Os estrategistas ainda lembraram que tendências sazonais costumam pesar sobre as ações em setembro, mas alertaram contra extrapolar a volatilidade por muito tempo.
Para o investidor brasileiro, o ponto de atenção é o canal de transmissão: juros americanos mais altos e um Treasury perto de 5% costumam mexer com o apetite global por risco, o que historicamente influencia a atração por ativos emergentes. A consequência prática está menos no primeiro anúncio do Fed e mais na trajetória que vier depois dele.
