Principais pontos

  • No semestre, o avanço nesses processos chegou a 18,3% entre as micros e 11,2% nas pequenas, contra 8% da taxa geral.
  • Com o Novo Desenrola, o Pronampe passou por revisão de regras neste ano: prazos maiores de carência e de pagamento, limite ampliado e mais recursos via FGO.
  • Ao buscar apoio, a dona da pizzaria descobriu ainda uma multa aplicada pela Receita Federal depois de cair na malha fina.
  • A meta da dona da pizzaria é montar uma reserva de R$ 60 mil para deixar o negócio saudável.

O número de micro e pequenas empresas (MPEs) sob proteção da Justiça em processos para reestruturar suas operações chegou a 2.821 em junho, um salto de 41,4% na comparação com o mesmo mês de 2025 — quase o dobro do ritmo registrado pelo conjunto das empresas de maior porte do país, que avançou 21,2% no período, segundo o levantamento Monitor RGF-BizDoc. A maior parte dos processos está no comércio.

O dado extrapola o balcão do pequeno empreendedor. A recuperação judicial é o mecanismo pelo qual a empresa obtém prazo e condições para reorganizar dívidas sob supervisão da Justiça, com suspensão temporária de cobranças. Quando ela alcança o pequeno negócio, o que se vê é a ponta mais sensível de uma cadeia que envolve fornecedores, crédito bancário, emprego e consumo.

A assimetria que a média geral esconde

No semestre, o avanço nesses processos chegou a 18,3% entre as micros e 11,2% nas pequenas, contra 8% da taxa geral. A distância entre os números é o dado mais revelador do levantamento: as empresas de maior porte ainda renegociam dívidas com tesouraria própria e acesso a outras fontes de funding, enquanto as MPEs dependem do crédito bancário — justamente o canal que encareceu.

Porte da empresaAvanço dos processos no semestre
Microempresas18,3%
Pequenas empresas11,2%
Todas as empresas8%

O pano de fundo é conhecido: juros elevados por muito tempo encareceram o crédito e morderam o caixa, e o recuo no consumo, diante do alto endividamento das famílias, tirou receita da outra ponta. No comércio, onde se concentra a maior parte dos processos, as duas forças atuam ao mesmo tempo.

Sem patrimônio para dar em garantia, o plano nasce frágil

Frente às médias e grandes, o pequeno negócio carrega dois agravantes. O primeiro é a gestão: familiar e pouco profissionalizada, menos capacitada para prever, evitar e contornar crises. O segundo aparece no comércio, onde falta patrimônio próprio para dar em garantia em acordos com credores.

Claudio Damasceno, sócio da RGF Associados/BizDoc, alerta que nesses segmentos as chances de o processo terminar em falência são mais altas. Pesam o componente emocional — o negócio do pai que contrata o filho, o fornecedor que é amigo —, a falta de especialização em crise, o patrimônio menor e a marca menos forte.

Sem ativos relevantes para dar em garantia e sem marca forte para negociar, o plano de reestruturação nasce frágil diante dos credores.

Daí a orientação de evitar o processo: estancar o problema antes que ele vire litígio preserva valor, porque dentro da recuperação judicial o pequeno negócio tem menos instrumentos de saída do que uma companhia maior.

Pronampe: a linha que nasceu com a Selic a 2% e hoje convive com 14%

Uma das principais dores de cabeça das MPEs é o custo do crédito. Criado pelo governo federal em 2020 para socorrer esses negócios na pandemia, o Pronampe usa recursos do Fundo Garantidor de Operações (FGO) em caso de calote do empreendedor — um fundo que lastreia a garantia e reduz o risco do banco que empresta.

A linha nasceu com a Selic — a taxa básica de juros que serve de referência para o crédito no país — a 2% ao ano. Como o indicador corrige o saldo devedor e sobre ele ainda incidem 6%, o contrato acompanhou a escalada dos juros: com a Selic a 14% ao ano, a mesma operação consome hoje uma fatia bem maior do caixa.

Com o Novo Desenrola, o Pronampe passou por revisão de regras neste ano: prazos maiores de carência e de pagamento, limite ampliado e mais recursos via FGO. O desenho tenta compensar, com prazo e garantia, um custo de dinheiro que segue alto — algo decisivo para quem financia capital de giro, o recurso que banca estoques e as contas do dia a dia.

Três negócios, três tentativas de reestruturar antes do pior

Pizzaria: a virada começou pela separação das contas

Maria Margarida Santos, dona de uma pizzaria há quase seis anos, precisou de reestruturação depois de contratar um empréstimo para comprar equipamentos e se endividar. Pensou em fechar as portas quando não conseguia pagar os funcionários e perdeu fornecedores.

Ao buscar apoio, a dona da pizzaria descobriu ainda uma multa aplicada pela Receita Federal depois de cair na malha fina — quando a declaração apresenta inconsistências e passa por análise manual do Fisco. Segundo ela, a empresa está há um ano em reestruturação, já renegociou dívidas e aguarda renegociar o débito com a Receita. A meta da dona da pizzaria é montar uma reserva de R$ 60 mil para deixar o negócio saudável. Ela passou a separar as contas, corrigiu os preços e relata lucro na casa dos 22%.

MAMplast: processos e indicadores vieram antes da pandemia

O empresário Alcyr Quintino percebeu, em 2019, que a MAMplast Recicláveis, então com 21 anos de mercado, caminhava para o vermelho. A reestruturação dividiu a empresa em departamentos e criou processos e indicadores de gestão. Veio a pandemia: a companhia recorreu a crédito para se manter e continuou operando.

O cenário dos últimos anos ficou mais desafiador. O empresário afirma que o planejamento ajuda a se adaptar às adversidades: a situação está pior, mas ele está mais estruturado — e credita a isso o fato de seguir vivo, mesmo depois de saber que mais dois clientes fecharam as portas.

Grupo Florencio: mapa das dívidas e apoio do Sebrae

O Grupo Florencio, de Saúde e Segurança do Trabalho, perdeu seu principal cliente. As sócias Laureni e Laura Florencio, mãe e filha, mapearam as dívidas e procuraram o Sebrae para estruturar o negócio, também com o objetivo de ganhar visibilidade e atrair novos clientes.

O faturamento havia caído de R$ 15 mil para R$ 3 mil mensais depois da perda do principal cliente e hoje soma R$ 40 mil. Para Laura, a maior dificuldade do pequeno empreendedor é se mostrar ao cliente e lidar com pessoas — o que exige reinvenção constante.

Os sinais que aparecem antes do aperto

Empresas emitem sinais de turbulência antes de a crise se agravar, e tratar os sintomas cedo é o que evita o pior. As orientações reunidas com Rodrigo Soares, presidente do Sebrae; a especialista em gestão financeira Simone Santolin; e Claudio Damasceno, da RGF Associados/BizDoc, apontam nove frentes:

  • Negócios à parte: separe as contas pessoais da contabilidade da empresa, defina um pró-labore — a remuneração fixa do sócio pelo trabalho na gestão — compatível com o resultado, controle as retiradas e não trate dinheiro emprestado como lucro disponível.
  • Diagnóstico financeiro: levante o que a empresa tem a receber e a pagar, as dívidas, as taxas de juros, os prazos e os estoques.
  • Planejamento: projete o fluxo de caixa dos próximos meses, identifique os gargalos e monte um plano que pode incluir renegociar prazos e dívidas, rever despesas, analisar estoques e revisar preços.
  • Fontes de receita: não dependa de uma única fonte de receita nem de um único tipo de crédito; cooperativas, investidores anjos, fundos de investimento e plataformas de crowdfunding são alternativas.
  • Ajuda profissional: avalie com especialistas a viabilidade da operação e as alternativas extrajudicial e judicial, considerando custos, contratos e garantias; sem perspectiva realista de sustentação, inclua o encerramento organizado das atividades na análise.
  • Atenção ao caixa: separe a dificuldade momentânea do problema estrutural e projete entradas e pagamentos por semana, considerando atrasos.
  • Custo do crédito: mapeie juros, tarifas, garantias e parcelas de cada linha e compare o custo total de um empréstimo na troca de dívida.
  • Capital de giro: usar crédito para giro ou refinanciamento pode fazer sentido; repetir a operação para cobrir prejuízos sem corrigir a causa agrava o problema.
  • Atenção à margem: calcule o que sobra de cada venda após custos e despesas variáveis e, se preciso, revise preços, descontos e portfólio, cortando desperdícios sem comprometer qualidade ou vendas.

O que a alta dos processos de MPEs muda para quem investe

Micro e pequenas empresas formam a base do emprego, do consumo e da cadeia de fornecedores brasileira. A deterioração do caixa desses negócios tende a aparecer, com defasagem, na qualidade das carteiras de crédito voltadas a pequenas empresas, no ritmo de vendas do comércio e na demanda ao longo da cadeia.

Parte do crédito concedido a esse público carrega garantia pública via FGO, o que desloca para o fundo uma parcela do prejuízo em caso de calote. O desenho reduz o risco do banco, mas não elimina a fragilidade do tomador — que é justamente o que o levantamento mede.

Do lado de quem empreende, a leitura é que o capital de giro segue caro com a Selic a 14% ao ano e que o comércio, sem ativos para dar em garantia, é o segmento mais exposto à combinação de consumo fraco e famílias endividadas. Historicamente, o pequeno negócio que entra na recuperação judicial tem menos instrumentos para reverter o quadro — motivo pelo qual o especialista ouvido na apuração afirma que o ideal é não precisar do processo.