Principais pontos

  • Empresas latino-americanas com as melhores práticas de governança corporativa renderam 224% mais do que aquelas com estruturas mais frágeis nos últimos 15 anos
  • Companhias do quartil superior negociam a cerca de 10,7 vezes o lucro, enquanto as do quartil inferior operam a aproximadamente 12,4 vezes o lucro
  • O free float (parcela das ações disponível para negociação em bolsa) médio global é de 82%, mas na América Latina alcança apenas 56%
  • Aproximadamente um terço das empresas recebeu a menor nota possível nesse quesito

Governança corporativa: o prêmio de 224% que o preço ainda não reflete

Empresas latino-americanas com as melhores práticas de governança corporativa renderam 224% mais do que aquelas com estruturas mais frágeis nos últimos 15 anos, segundo estudo do Morgan Stanley que analisou 183 companhias da região. Na medição ponderada por valor de mercado, essa é a diferença acumulada desde 2010; em pesos iguais, o spread permanece expressivo, em 145%.

O ponto menos evidente do levantamento está na relação entre governança e valuation. Companhias do quartil superior negociam a cerca de 10,7 vezes o lucro, enquanto as do quartil inferior operam a aproximadamente 12,4 vezes o lucro. As empresas com as melhores práticas carregam os múltiplos mais baixos da amostra, um contraste que reposiciona a governança como critério de seleção — e não apenas como filtro de proteção contra abusos de controladores.

O que a diferença de 224%, 145% e 159% revela

Os três números apontam na mesma direção: o diferencial de retorno não é efeito isolado de um único mercado ou de um intervalo curto. A leitura do Ativo Virtual é que a governança funciona como variável de desempenho de longo prazo, ainda que a região mantenha gargalos estruturais capazes de limitar o alcance desse prêmio.

Brasil é a principal referência regional

Entre os países analisados, o Brasil aparece como a principal referência em governança corporativa na América Latina. As companhias brasileiras registraram as melhores pontuações da região tanto no critério ponderado por valor de mercado quanto no de pesos iguais.

O relatório atribui parte desse desempenho à evolução regulatória do mercado local e ao papel do Novo Mercado da B3, segmento que elevou os padrões de proteção aos acionistas minoritários e de transparência corporativa. No chamado sinal de governança, as empresas brasileiras mais bem avaliadas superaram as de pior classificação em cerca de 159% desde 2009 — o maior benefício relativo da região.

Para os estrategistas do banco, o Brasil segue como o mercado latino-americano mais avançado em governança, ainda que reformas mais amplas tenham perdido intensidade nos últimos anos.

O gargalo migrou do voto para o controle

O principal desafio da governança na região deixou de estar nas estruturas de ações com direitos políticos distintos. O problema central, segundo o Morgan Stanley, é a elevada concentração do controle societário.

O critério de controle acionário foi o pior avaliado em toda a América Latina. Aproximadamente um terço das empresas recebeu a menor nota possível nesse quesito. Na outra ponta, cerca de 72% das companhias obtiveram a nota máxima no item uma ação, um voto, o que indica que o uso de múltiplas classes acionárias é menos problemático do que o domínio exercido por famílias controladoras, governos ou grupos estratégicos.

O banco chama atenção ainda para o reduzido volume de ações em circulação. O free float (parcela das ações disponível para negociação em bolsa) médio global é de 82%, mas na América Latina alcança apenas 56%, o que reduz a influência dos acionistas minoritários e amplia os riscos associados ao controle concentrado.

IndicadorValor
Empresas com nota máxima em uma ação, um voto72%
Empresas com nota mínima em controle acionário1/3
Free float médio na América Latina56%
Free float médio global82%
Múltiplo preço/lucro do quartil superior de governança10,7x
Múltiplo preço/lucro do quartil inferior de governança12,4x

Governança também aparece no crescimento

Além da performance das ações, o estudo encontrou relação positiva entre governança e crescimento operacional: as empresas mais bem avaliadas apresentaram crescimento de receita superior ao das companhias com piores classificações ao longo do período analisado.

Na avaliação do Morgan Stanley, melhores práticas não apenas reduzem riscos, mas também podem contribuir para aumento de crescimento, menor custo de capital e geração superior de valor para os acionistas ao longo do tempo.

Os nomes que puxam a régua brasileira

Entre as companhias com melhores pontuações de governança, o Brasil tem presença forte. O banco destaca B3 (B3SA3), Localiza (RENT3), Vibra Energia (VBBR3), Companhia Paranaense de Energia (CPLE3), Lojas Renner (LREN3), Totvs (TOTS3), Equatorial Energia (EQTL3), RD Saúde (RADL3), Assaí (ASAI3) e Ultrapar (UGPA3).

Entre as preferências para a carteira latino-americana, os estrategistas citam especificamente B3, Vale, Mercado Livre e Grupo Financiero Banorte.