Os conselhos de administração da Tesla e da SpaceX instalaram comitês especiais para estudar a fusão das duas companhias. Se a operação avançar, foguetes, carros elétricos, robôs humanoides, a rede social X e o chatbot Grok passarão a responder a um único CNPJ, com valor de mercado estimado em US$ 3,5 trilhões. Elon Musk revelou a movimentação na teleconferência de resultados do terceiro trimestre da SpaceX, realizada na terça-feira, e fez questão de ressalvar que o processo ainda engatinha.

Uma empresa, cinco frentes e um único controlador

A dimensão do que está sobre a mesa explica por que o tema mexeu com os mercados. Musk descreveu o perímetro da operação como a soma de software de superinteligência, projeto próprio de chips, a fábrica Terafab, robótica, transporte de massa para a órbita por meio da constelação Starmind e conectividade. Em miúdos: modelos de inteligência artificial, semicondutores desenhados em casa, uma planta gigantesca para fabricá-los, robôs e satélites que funcionam como data centers no espaço.

Numa empresa combinada, um único acionista concentraria a maioria dos votos. Musk teria sob o mesmo guarda-chuva o chatbot que disputa a liderança do setor, a rede social que o abastece de dados, os satélites que fazem a conexão, a fábrica que produz os chips e os veículos e robôs que a IA deve comandar.

Nenhum contrato foi assinado. Musk afastou a leitura de que a fusão seja favas contadas, classificando essa interpretação como exagero.

O retrato financeiro que dá lastro à proposta

A SpaceX divulgou na terça-feira números que ajudam a sustentar a tese — e o resultado veio com folga acima do consenso.

IndicadorValorContexto
Receita no 3º trimestreUS$ 14,58 bilhõesacima dos US$ 12,72 bilhões esperados pelos analistas
Lucro trimestralprimeiro resultado positivo desde o IPOpuxado pela locação de capacidade de IA para Anthropic e Google
Valor atribuído à empresa combinadaUS$ 3,5 trilhõesestimativa citada por Musk
TerafabUS$ 16,8 bilhõesfábrica de chips no Texas
Avaliação da xAI na absorção pela SpaceXUS$ 250 bilhõesnegócio fechado em fevereiro

A sequência de reorganizações societárias começou antes. Em março de 2025, a xAI incorporou a X, o antigo Twitter. A Tesla aportou cerca de US$ 2 bilhões na xAI e, semanas mais tarde, em fevereiro, a SpaceX absorveu a empresa de inteligência artificial pelo valor de US$ 250 bilhões. Em junho, a SpaceX abriu o capital na maior oferta pública inicial da história — a fusão em estudo seria a terceira consolidação do grupo em pouco mais de um ano.

Starmind e o gargalo de energia em terra

O projeto mais ambicioso do portfólio é o Starmind, plano da SpaceX para instalar capacidade de processamento de IA na órbita terrestre. A companhia pediu aos reguladores americanos autorização para operar até 1 milhão de satélites capazes de rodar modelos com incidência solar quase contínua. A expectativa de Musk é que os primeiros lançamentos ocorram no fim de 2027, atingindo escala significativa em 2028.

O argumento é físico e político ao mesmo tempo. A Terra estaria ficando sem área e sem eletricidade para alimentar a expansão da IA, enquanto a resistência local se amplia. Levantamento da Annenberg aponta que 61% dos americanos rejeitam novos data centers na vizinhança, e cerca de US$ 130 bilhões em projetos foram bloqueados ou postergados somente no primeiro trimestre de 2026.

Os documentos do IPO da SpaceX, porém, trazem o contrapeso: a computação orbital depende de tecnologias ainda não comprovadas e pode não alcançar viabilidade comercial. Do lado da Tesla, a contribuição mais concreta é a Terafab, fábrica de chips de US$ 16,8 bilhões que as duas companhias erguem no Texas para abastecer os robôs Optimus, os robotáxis Cybercab e os data centers espaciais.

Do fundo do mar à órbita lunar

Musk não foi o pioneiro em afastar servidores da superfície. Em 2018, a Microsoft submergiu 855 servidores na costa da Escócia dentro do Projeto Natick. Ao longo de dois anos, apenas seis falharam — taxa de 0,7%, contra 5,9% de um grupo equivalente mantido em terra. Mesmo com o desempenho favorável, a companhia encerrou o programa, e Noelle Walsh, chefe de operações de nuvem da Microsoft, descartou construir data centers submarinos em qualquer lugar do mundo.

A China seguiu caminho semelhante com um centro de dados submerso movido a energia eólica a cerca de dez quilômetros de Xangai que, segundo a construtora HiCloud, consome pelo menos 30% menos eletricidade do que instalações terrestres comparáveis. A startup Lonestar planeja enviar uma unidade compacta de armazenamento na direção da Lua já no início de 2025.

O que muda na carteira do investidor pessoa física

Quem carrega um fundo de índice atrelado ao S&P 500 tem exposição indireta à Tesla, mas nenhuma à SpaceX. Num acordo integralmente pago em ações, os papéis da montadora seriam provavelmente convertidos em unidades da companhia combinada — mudança de perfil que o cotista não escolheu.

A governança é o ponto sensível. Musk detém perto de 20% da Tesla; na SpaceX, o controle vem de uma classe de papéis com direito a voto diferenciado, ou seja, ações que valem mais votos por unidade do que a ação comum. O Barclays calcula que ele chegaria a 56% dos votos na empresa combinada.

A barreira estatutária é alta: o negócio precisa do aval de 50% de todas as ações da Tesla em circulação, e não apenas das já emitidas — exigência que Musk classificou como difícil de alcançar. O Barclays avaliou, na semana passada, que o anúncio poderia sair antes da assembleia anual da Tesla, marcada para 3 de dezembro.

O mercado já precifica parte do cenário. As ações da SpaceX subiram 10%, o melhor pregão desde junho; as da Tesla recuaram após a apresentação. Gene Munster, gestor da Deepwater Asset Management e investidor da montadora, atribui 95% de probabilidade a um desfecho em até dois anos.

Há ainda o flanco geopolítico. A SpaceX figura entre as principais contratadas das Forças Armadas americanas, de agências de inteligência e da NASA, enquanto a Tesla tem na fábrica de Xangai uma peça central da produção. Essa combinação tende a atrair a lupa de Washington e de Pequim sob o argumento de segurança nacional.