O diretor da Bioagência, Tarcilo Rodrigues, levou ao painel da 9ª Conferência Nova Cana, em 28 de setembro, uma crítica direta à política de preços da Petrobras (PETR4; PETR3). Pelos números que apresentou, o valor cobrado pela gasolina da estatal fica mais de R$ 1 por litro abaixo da paridade internacional — descolamento que, na sua leitura, inibe investimentos e embaralha o planejamento de quem produz etanol.
85% da gasolina nacional passa por refinarias sob controle federal
O dado que sustenta a crítica é estrutural. 85% de toda a gasolina consumida no Brasil passa por refinarias controladas principalmente pelo governo federal. Isso coloca dois modelos econômicos em disputa pela preferência do consumidor na bomba: de um lado, uma oferta de gasolina majoritariamente estatal; de outro, uma indústria de etanol formada por agentes privados.
A Bioagência, fundada em 2001 e sediada em São Paulo, atua na comercialização de commodities agrícolas com foco no setor sucroalcooleiro e presta apoio comercial e estratégico a usinas e unidades produtoras associadas em diferentes regiões do país.
Rodrigues também sustentou que a influência sobre a formação dos preços da Petrobras não se limita a um campo político específico. Segundo ele, essa interferência atravessa governos de orientações distintas, o que encurta o horizonte de previsibilidade de quem precisa competir com esse combustível. A leitura para quem acompanha o setor é que o etanol disputa espaço em uma arena onde uma das partes não define seu preço apenas por oferta e demanda — assimetria que tende a se refletir no prêmio de risco exigido em projetos de biocombustível.
Petróleo acima de US$ 100, etanol abaixo do custo
Ao descrever as dificuldades do setor, o diretor da Bioagência colocou duas realidades lado a lado. Em um período em que o petróleo superava US$ 100 o barril, o etanol era comercializado abaixo do seu custo de produção. O encarecimento do óleo, aliás, também eleva os custos do setor sucroalcooleiro, pressionando itens como fertilizantes e diesel.
Na visão do executivo, enfrentar preços ruins é parte natural da atividade de quem lida com commodities. A dificuldade extra aparece quando o concorrente pratica valores que ignoram as referências internacionais — e isso reduz o espaço de manobra do etanol.
O mercado de 62 milhões de metros cúbicos
Mesmo em um cenário de estagnação no consumo de combustíveis do ciclo Otto — grupo que reúne gasolina, etanol e outras fontes usadas em motores de ignição por faísca —, Rodrigues enxerga espaço para avanço. Pelos números que apresentou, esse mercado movimenta, em gasolina equivalente, cerca de 62 milhões de metros cúbicos. Desse total, 31 milhões se referem à gasolina A, o combustível puro que sai das refinarias antes da mistura obrigatória de etanol anidro. Parte desse volume ainda precisa ser importada.
A substituição dessa fatia abriria, na estimativa do executivo, espaço para algo em torno de 45 milhões de metros cúbicos de etanol hidratado, o combustível vendido diretamente na bomba. O aproveitamento desse potencial, porém, continua refém da competitividade diante da gasolina.
| Indicador citado no evento | Valor |
|---|---|
| Defasagem da gasolina Petrobras vs. referência internacional | acima de R$ 1 por litro |
| Gasolina nacional produzida em refinarias com governo como principal acionista | 85% |
| Mercado de combustíveis do ciclo Otto | 62 milhões de m³ em gasolina equivalente |
| Gasolina A dentro desse total | 31 milhões de m³ |
| Potencial de substituição por etanol hidratado | 45 milhões de m³ |
| Petróleo no período citado | acima de US$ 100 o barril |
Regras em definição contaminam o planejamento
Rodrigues também mirou a ausência de sinal claro sobre se medidas de apoio ao setor seguirão valendo — casos de redução tributária e subvenção ao etanol. Para ele, dúvidas sobre manutenção ou alteração desses instrumentos contaminam o horizonte de planejamento das empresas.
O executivo avaliou que a moldura jurídica que sustenta a expansão do biocombustível está, em boa medida, montada. Citou a emenda constitucional e o programa Combustível do Futuro, além de apontar a equalização dos tributos estaduais como rota para reforçar a competitividade. Na logística, defendeu que o escoamento do etanol até praças mais afastadas das usinas fique mais barato, citando o caso do Rio Grande do Sul. Ainda assim, reiterou que o obstáculo central segue sendo a concorrência com a gasolina.
O que o quadro muda para quem investe
Para o investidor que acompanha o setor sucroalcooleiro e as companhias de energia listadas na B3, o diagnóstico apresentado no evento ajuda a organizar o risco. A competitividade do etanol não depende só da safra ou do preço do açúcar: ela é sensível à política de preços da Petrobras, historicamente sujeita a algum grau de interferência do governo federal.
Do outro lado, a estatal carrega um dilema conhecido. Preços domésticos abaixo da paridade internacional tendem a segurar a inflação e aliviar o consumidor na bomba, mas costumam comprimir a geração de caixa da companhia e desestimular aportes no refino. O efeito colateral se espalha pela cadeia: quanto maior a defasagem, maior o incentivo econômico ao etanol, mas também maior a incerteza sobre qual regra valerá no próximo ciclo.
O arcabouço regulatório em construção pode reduzir parte dessa volatilidade, na medida em que dá previsibilidade a produtores e usinas. A velocidade com que essas regras saem do papel segue sendo a variável decisiva — e é o que merece atenção de quem tem exposição ao tema.
