Uma porta aberta para qualquer desenvolvedor

O Google colocou em beta público a Connected Apps Platform, estrutura que permite a empresas e desenvolvedores publicarem seus próprios aplicativos dentro do Gemini e do buscador. Mais de 50 serviços já operam plugados ao Gemini, e esse catálogo começa a desembarcar também nos resultados de busca ao longo das próximas semanas.

O recurso de apps conectados existe desde o início do ano nos dois produtos. A novidade é o modelo de entrada: em vez de parcerias fechadas, qualquer negócio passa a poder submeter seu aplicativo, acompanhar métricas de uso e manter o controle da própria identidade visual dentro do ambiente do Google.

Na prática, o usuário autoriza a conexão com serviços de terceiros e passa a pedir tarefas dentro do assistente — montar um flyer no Canva, por exemplo, ou montar uma playlist no YouTube Music. É a diferença entre o assistente apenas responder e o assistente executar.

Como um desenvolvedor entra na fila

A integração técnica passa por um servidor MCP (Model Context Protocol, padrão aberto que define como um modelo de IA acessa dados e executa funções em sistemas externos) hospedado em nuvem, ou pelo MCP do Android via APIs AppFunctions. O registro, os testes e o envio do aplicativo acontecem no Google Connected Console.

Quem publica decide o destino do app: apenas a Busca, apenas o aplicativo Gemini, ou os dois. Depois do lançamento, o painel entrega tráfego, latência e taxa de erro, além de permitir que a empresa mantenha logo verificado e contas autenticadas.

A liberação é geográfica e restrita. O preview vale somente para desenvolvedores nos Estados Unidos, mediante inscrição em lista de espera. A companhia não informou quando a plataforma ficará disponível de forma mais ampla.

O mapa das integrações

ProdutoBase instaladaSituação
GeminiMais de 50 apps, incluindo Adobe, Experian, Localiza, Peloton, Workplace, Photos, YouTube Music e Google HomeJá em operação
Google SearchInstacart, Canva, YouTube Music e Yahoo Fantasy FootballBase menor, com expansão nas próximas semanas

O Calm é o parceiro mais recente citado nesse movimento: o aplicativo de meditação estreia tanto no Gemini quanto na Busca. A lista de apps do Gemini é bem mais robusta do que a do buscador, o que ajuda a explicar a prioridade de levar o catálogo para a Busca nas próximas semanas.

A briga pela camada de intenção

O movimento do Google ocorre no momento em que o setor discute para onde vai o tráfego da internet. ChatGPT e o Muse, da Meta, testam modelos próprios de integração com serviços de terceiros, com graus diferentes de abertura. A premissa comum é que o consumidor deixe de abrir aplicativos individuais e passe a acionar seus serviços favoritos pelo provedor de IA que já usa no dia a dia.

Se essa mudança de hábito se confirmar, a visibilidade dentro do assistente passa a valer o que a posição em uma página de resultados valeu nas últimas duas décadas. É o paralelo com a otimização para buscadores, disciplina que criou uma indústria inteira dedicada a aparecer bem ranqueada. Publicar um app conectado pode ser o primeiro degrau de exposição na web agêntica — ambiente em que agentes de IA, e não a pessoa, navegam e executam tarefas em nome do usuário.

Para o investidor, o ponto de atenção é duplo. Do lado da Alphabet, controladora do Google (GOOGL; GOOG), a plataforma reforça o papel do Gemini como ponto de distribuição e amplia a superfície por onde transações podem acontecer — mas não há detalhes divulgados sobre cobrança, comissionamento ou qualquer modelo de receita associado ao programa. Do lado da B3, a presença da brasileira Localiza (RENT3) entre os parceiros já listados mostra que empresas domésticas começam a ocupar espaço nessa vitrine, ainda que o acesso ao beta esteja limitado a desenvolvedores americanos.

O risco do outro lado da mesa é o de sempre em plataformas: quem depende de um único canal de distribuição fica exposto a mudanças de regra, de prioridade e de custo definidas por terceiros.

O que ainda falta saber

Além da ausência de data para o lançamento global, o Google não detalhou critérios de aprovação dos aplicativos, eventuais custos para desenvolvedores nem como o desempenho dentro do Gemini será ranqueado ou priorizado. A integração com a Busca, hoje concentrada em poucos nomes, também é o teste mais visível do projeto: é nela que o usuário compara, na prática, o velho link azul com a resposta que já executa a tarefa.