A Crusoe, desenvolvedora de data centers com sede em Denver e avaliada em US$ 30,9 bilhões, confirmou nesta sexta-feira a venda de um projeto inacabado no sudeste do Wyoming para o Google. O Google prevê investir US$ 17 bilhões para concluir o campus, mas não revelou quanto desembolsou pelo ativo.
Por que o Google tomou as rédeas do projeto
O Google já havia tentado fechar com a Crusoe um contrato como cliente desse mesmo empreendimento, sem sucesso. Agora assume o desenvolvimento depois de, segundo informações divulgadas, demonstrar preocupação com o custo e o cronograma de obra sob a gestão da companhia de Denver.
O projeto foi anunciado no ano passado em parceria com a Tallgrass, empresa de infraestrutura apoiada pela Blackstone, com a meta de chegar a 10 gigawatts de potência, unidade que equivale a um bilhão de watts.
Os números da operação
| Indicador | Valor |
|---|---|
| Avaliação da Crusoe | US$ 30,9 bilhões |
| Investimento anunciado pelo Google | US$ 17 bilhões |
| Capacidade planejada do projeto no Wyoming | 10 gigawatts |
| Rodada de captação da Crusoe em setembro | US$ 3,9 bilhões |
| Contrato de nuvem da Jane Street | US$ 13 bilhões em cinco anos |
| Campus separado para a Microsoft em Abilene | 900 megawatts, primeiro prédio previsto para meados de 2027 |
A venda havia sido antecipada por outro veículo de imprensa em junho. Mesmo assim, o revés no estado não impediu a Crusoe de levantar US$ 3,9 bilhões em setembro.
Como a Crusoe ganha dinheiro e quem são seus clientes
A receita vem de três frentes: alugar espaço a clientes que levam os próprios chips de IA, alugar as GPUs (unidades de processamento gráfico) da própria empresa e vender capacidade computacional para rodar modelos de IA. Essa última atividade é chamada de inferência, isto é, o uso de um modelo já treinado para responder às consultas dos usuários.
Os projetos mais robustos atendem nomes de peso do setor. Em Abilene, no Texas, o campus avança por fases para a Oracle e para a OpenAI, enquanto um complexo separado de 900 megawatts, vizinho ao primeiro, será usado pela Microsoft. A Meta também figura entre os clientes.
A companhia nasceu das mãos de Chase Lochmiller, atual CEO, e Cully Cavness, como um negócio de mineração de criptomoedas movido a gás natural que, de outra forma, seria queimado. Em setembro, com a rodada de captação, entraram três conselheiros, entre eles JB Straubel, fundador da Redwood Materials e membro do conselho da Tesla, que já havia investido na Crusoe em 2021. A empresa também foi a primeira cliente do negócio de armazenamento de energia de Straubel.
Leitura para o investidor
O episódio do Wyoming expõe o principal gargalo da infraestrutura de IA em grande escala: equipamentos, acesso a energia e oposição de comunidades locais podem atrasar obras e encarecer orçamentos. Para desenvolvedores independentes, que dependem de capital externo e de contratos com clientes, um projeto de gigawatts que sai do controle se transforma em risco de difícil absorção.
Há duas leituras possíveis. De um lado, a Crusoe segue com avaliação elevada e conseguiu captar recursos após o revés, o que sinaliza apetite do mercado pela carteira da empresa. De outro, a perda do ativo e a não conquista do Google como cliente naquele projeto indicam que a execução pesa tanto quanto a tese de crescimento. A relação, contudo, não foi encerrada: a Crusoe segue desenvolvendo para o Google outro data center, perto de Amarillo, no Texas.
O caso reforça que o retorno de campus de IA depende de cronograma, custo e energia, variáveis que nem sempre aparecem nos anúncios de capacidade. Entre os pontos a acompanhar estão o valor da transação, ainda não divulgado, e o andamento das obras nos demais campi.
