Um notebook de engenheiro possivelmente comprometido, 50 autorizações assinadas com antecedência e uma janela de 20 minutos para esvaziar endereços espalhados por dez blockchains. É o desenho que a TRM Labs e a própria Binance começaram a reconstruir sobre o maior roubo já registrado no mercado de criptomoedas: US$ 6,36 bilhões retirados de carteiras da maior corretora do setor na quinta-feira (29).
A cifra supera em mais de quatro vezes o saque de aproximadamente US$ 1,5 bilhão sofrido pela Bybit em fevereiro de 2025, até então o episódio mais grave do tipo. E o alvo não foi uma carteira isolada: foram os sistemas que autorizam saques em escala industrial.
Vinte minutos, dez redes e um só destino
A cronologia montada pela TRM Labs coloca o início da sangria às 17h05, no horário de Brasília. Nesse instante, cinco carteiras da Binance hospedadas na XRP Ledger começaram a despejar aproximadamente 233,46 milhões de XRP em um único endereço sob controle dos invasores. Minutos depois, o mesmo padrão apareceu em endereços ligados às redes Solana e Optimism.
Por volta das 17h20, foi a vez do Bitcoin: 18.270 BTC, então avaliados em cerca de US$ 1,47 bilhão, deixaram um endereço da corretora e passaram por fracionamento imediato, com fatias de 1.000 e de 100 BTC. Picar o valor é técnica conhecida para embaralhar o rastro em análises de blockchain, já que cada pedaço vira uma trilha própria. Quase simultaneamente, uma carteira na rede Tron enviou 612,7 milhões de USDT e 46,4 milhões de TRX.
A TRM Labs contabilizou movimentações fraudulentas em dez blockchains: Ethereum, Bitcoin, Tron, Solana, XRP Ledger, Arbitrum, Avalanche, Optimism, Base e Polygon. Do total desviado, US$ 3,79 bilhões estavam na rede Ethereum, a fatia mais complexa e a que melhor explica a sofisticação da operação.
O contador que decidiu o ataque
O vetor mais engenhoso surgiu na Ethereum, por meio de um recurso batizado de EIP-7702 e introduzido na atualização Pectra, em maio de 2025. Ele permite que uma carteira comum delegue a execução de código de contrato inteligente em seu próprio nome, com a programação rodando de forma automática na blockchain quando as condições previstas são cumpridas. Trata-se de um recurso legítimo, criado para ampliar funcionalidades, mas que se torna perigoso quando alguém obtém assinaturas que não deveria ter.
Segundo a TRM Labs, os criminosos chegaram com 50 autorizações já assinadas por uma carteira da Binance, todas direcionando o controle de determinadas operações para um contrato malicioso sob comando do invasor. A quantidade não era acaso: cada assinatura correspondia a um nonce diferente, o contador sequencial de transações de uma carteira, que sobe a cada envio. Como o endereço da corretora processava saques sem parar, esse contador andava rápido. Ao cobrir 50 posições possíveis, o atacante elevou a chance de que ao menos uma estivesse válida no instante do disparo.
A aposta se pagou. Uma das autorizações foi aceita e o contrato malicioso passou a operar a carteira. Três minutos e 24 segundos depois, uma transação retirou 167.464 ETH e mais 63 tokens, entre eles cerca de US$ 1,615 bilhão em USDT. O código seguiu ativo e capturou recursos que chegaram depois ao mesmo endereço. A carteira comprometida também carregava permissões ligadas a outra conta da Binance, o que abriu caminho para o desvio de 823 milhões de USDC.
A hipótese que preocupa mais do que o valor
O mecanismo da Ethereum, porém, não explica tudo. Carteiras da Binance em outras redes fizeram transferências com assinaturas criptográficas válidas, sem usar o mesmo recurso. Para a TRM Labs, o quadro indica que os invasores provavelmente comprometeram a infraestrutura que a corretora usa para autorizar movimentações em suas hot wallets — carteiras conectadas à internet, que precisam estar online para atender saques e, por isso, ficam mais expostas do que as carteiras frias (cold wallets), guardadas fora de rede.
A leitura é compatível com a informação preliminar da Binance de que não houve vazamento de chaves privadas, o código criptográfico que confere poder de movimentar um endereço. A diferença é sutil e relevante: em vez de roubar a chave de uma carteira, os criminosos teriam convencido os sistemas da própria corretora a assinar o que eles queriam. Como essas autorizações foram obtidas segue sem resposta pública.
O que a empresa já admite
A primeira pista partiu da própria Binance, na sexta-feira (30). A apuração inicial apontou para o notebook de um engenheiro de DevOps — profissional que cuida de infraestrutura e operação de sistemas — possivelmente comprometido. Esse acesso teria aberto caminho até um contêiner de serviço da empresa, de onde saíram transações de saque não autorizadas. Depois, a corretora afirmou ter identificado outros pontos de comprometimento além do computador inicialmente suspeito, sinal de que a operação foi mais ramificada do que a primeira leitura sugeria.
O co-CEO Richard Teng afirmou que os criminosos não se limitaram às permissões de um único engenheiro e que o ataque não se resumiu a um clique. A Binance declarou ainda que sua apuração não atribuiu responsabilidade pelo incidente a nenhum funcionário.
| Frente do ataque | Volume registrado |
|---|---|
| XRP Ledger (5 carteiras) | 233,46 milhões de XRP |
| Bitcoin | 18.270 BTC (~US$ 1,47 bilhão) |
| Tron | 612,7 milhões de USDT e 46,4 milhões de TRX |
| Ethereum | 167.464 ETH, 63 tokens e ~US$ 1,615 bilhão em USDT |
| Permissões cruzadas | 823 milhões de USDC |
| Total desviado | US$ 6,36 bilhões |
| Bloqueado (TRM / Binance) | ~US$ 2,7 bilhões / ~US$ 3 bilhões |
A corrida contra o congelamento
Com o dinheiro fora, começou a segunda etapa: movimentar os ativos antes que emissores e mecanismos de segurança das redes conseguissem travá-los. A disputa foi decisiva para as stablecoins, moedas digitais atreladas a ativos de referência, como o dólar, que em vários casos permitem ao emissor bloquear saldos em endereços específicos — algo impensável no Bitcoin.
Tether, Circle, Ripple e World Liberty Financial acionaram bloqueios assim que as movimentações suspeitas apareceram. A TRM Labs contabilizou cerca de US$ 2,7 bilhões congelados nas primeiras horas, incluindo medidas do conselho de segurança da Arbitrum. A Binance informou depois que o total bloqueado chegou a aproximadamente US$ 3 bilhões.
Os invasores reagiram convertendo stablecoins em Ethereum, ativo sem mecanismo de congelamento controlado por emissor. Cerca de 325 milhões de USDT viraram aproximadamente 122.300 ETH em operações com protocolos descentralizados e formadores de mercado, a preços bem piores do que os de mercado — um pedágio pago pela pressa. Em outra frente, 60 milhões de USDT foram depositados no protocolo de empréstimos Aave e usados como garantia para obter cerca de 19.760 ETH; a Aave adotou medidas emergenciais para barrar novas operações com recursos ligados ao roubo.
O rastro que leva à Coreia do Norte
A TRM Labs atribuiu a operação ao grupo TraderTraitor, associado ao governo norte-coreano, com alto grau de confiança. A empresa apontou semelhanças com ataques anteriores, entre elas a preparação antecipada de transações e o uso de serviços criados para dificultar rastreamento. O planejamento começou pelo menos 36 horas antes do roubo: na manhã de quarta-feira (28), uma carteira dos invasores recebeu três pequenas transferências vindas do Tornado Cash, um mixer que mistura criptomoedas de vários usuários para dificultar a identificação da origem. No dia seguinte, códigos foram testados em diferentes carteiras, incluindo um ensaio com a versão final cerca de quatro horas antes de ela ser instalada em um endereço da Binance.
A Elliptic, outra empresa de rastreamento, também encontrou evidências que apontam para criminosos ligados à Coreia do Norte, incluindo movimentações associadas a um ataque anterior contra a Bitget. O FBI já havia responsabilizado o mesmo grupo pelo roubo de aproximadamente US$ 1,5 bilhão à Bybit em fevereiro de 2025. A Binance, até aqui, não confirmou oficialmente a autoria.
O que a corretora promete a quem tem saldo lá
A Binance sustenta que clientes não terão prejuízo e que cobrirá as perdas com o SAFU — Secure Asset Fund for Users, fundo de emergência alimentado pela própria corretora — e com recursos corporativos. Como contenção, suspendeu saques temporariamente, revogou autorizações de endereços afetados e passou a atuar com empresas de análise de blockchain e autoridades policiais na tentativa de recuperar ativos. Na sexta-feira, os depósitos já estavam normalizados; os saques seguiam suspensos.
A empresa prometeu um relatório técnico completo ao fim da investigação e uma versão atualizada de sua prova de reservas, mecanismo pelo qual a corretora tenta demonstrar, com dados criptográficos, que os ativos dos clientes existem de fato.
O que isso significa para o investidor brasileiro
O episódio derruba uma crença comum: a de que chave privada intacta equivale a fundos protegidos. Se a hipótese da TRM Labs se confirmar, os criminosos não precisaram das chaves — bastou que os sistemas da corretora emitissem autorizações válidas. Na prática, quem mantém ativos em exchange não depende da segurança da rede, mas da qualidade operacional da empresa que guarda o saldo.
A diversificação por blockchain também se mostrou um consolo pequeno. Dez redes foram atingidas em cerca de vinte minutos justamente porque o ponto único de falha estava no autorizador, não nas redes. E o congelamento de aproximadamente US$ 3 bilhões em stablecoins revela a outra face dessas moedas: existe uma contraparte central capaz de travar saldos, o que ajuda em caso de roubo e cria risco em caso de bloqueio indevido para quem as usa como caixa.
Para quem opera com frequência, o efeito imediato mais palpável é a suspensão de saques, que trava arbitragens, rebalanceamentos e resgates. Já a exposição via produtos listados na B3, como ETFs e fundos de cripto, não elimina o risco de custódia: desloca-o para o custodiante do veículo, cujo regulamento vale a pena conhecer em detalhe.
Daqui para frente, três documentos ajudam a medir a qualidade de uma corretora: a prova de reservas atualizada, a política de limites para hot wallets e o histórico de incidentes e de tempo de restabelecimento de saques. Nenhum deles elimina o risco; todos tornam a decisão menos opaca.
A pergunta que segue aberta
O ponto ainda sem resposta é como um comprometimento de sistemas internos virou autorização válida para retirar bilhões de dólares de carteiras espalhadas por redes diferentes. A resposta deve esclarecer não apenas o maior roubo já visto no mercado de criptomoedas, mas também as vulnerabilidades dos modelos de custódia adotados pelas maiores exchanges do mundo — um tema que interessa a qualquer investidor com exposição ao setor, direta ou via fundos.
