A Binance expôs nesta terça-feira (3), em relatório preliminar, a mecânica do maior roubo já registrado no mercado de criptoativos: US$ 6,34 bilhões drenados de suas carteiras em 29 de outubro. Parte relevante do buraco já foi fechada — US$ 2,85 bilhões em ativos foram congelados ou interceptados e 98% dos tokens afetados voltaram ao estoque com dinheiro próprio da corretora. O caminho até o desvio, porém, começou meses antes, com um download contaminado, uma falsa vaga de emprego e o uso indevido de uma ferramenta interna de inteligência artificial da própria empresa.

O tamanho do prejuízo

A companhia apresentou os valores como balanço parcial, sujeito a ajustes conforme a apuração avança e conforme os preços dos ativos oscilam. A recuperação de parte do montante teve apoio de forças policiais e de empresas especializadas em rastrear criptomoedas. A Binance garante que nenhum cliente vai arcar com as perdas e que separou reservas acima do necessário para cobrir tudo. Em comunicado, pediu desculpas pelo episódio.

ItemSituação informada
Ativos desviadosUS$ 6,34 bilhões
Congelados ou interceptadosUS$ 2,85 bilhões
Tokens já repostos98%
Pendente de reposição (baixa liquidez)2%
Início dos desvios20h05 UTC de 29 de outubro (17h05 de Brasília)
Contenção concluída00h10 UTC de 30 de outubro
Tentativas suspeitas barradas em 202657

Junho: o download que abriu a porta

O ponto de partida remonta a junho. Um engenheiro do time que responde pela infraestrutura das carteiras procurava, na internet, um utilitário de programação com recursos de inteligência artificial. Terminou baixando uma cópia adulterada do Homebrew — gerenciador de pacotes, ou seja, o programa que instala e atualiza outras ferramentas no computador do desenvolvedor. A equipe de segurança percebeu o movimento, substituiu a máquina e trocou as credenciais do funcionário. O estrago, no entanto, já estava feito em outra frente: os invasores haviam mapeado a função daquele profissional e identificado os demais integrantes do time de carteiras, informação que seria usada nas semanas seguintes.

Setembro: a entrevista de emprego que nunca existiu

Em setembro, os criminosos mudaram de alvo e de método. Por meio de uma plataforma legítima de recrutamento, um dos hackers se apresentou como diretor de projetos de uma empresa fictícia e abordou outro engenheiro de software com uma proposta de trabalho. O processo seletivo foi montado para parecer real: primeiro, uma entrevista por vídeo com alguém que dizia ser da área de recursos humanos e que exibiu um perfil em rede social, com fotos e vídeos pessoais, para ganhar confiança. Depois, uma segunda conversa, com quem se dizia CEO da companhia imaginária. No fim, veio a instrução — baixar um exercício de programação no computador de trabalho.

O arquivo carregava um programa malicioso, disparado durante a preparação do ambiente de desenvolvimento. Segundo o relatório, o malware usou técnicas sofisticadas para driblar as proteções, entre elas a troca de um componente legítimo de programação por uma versão alterada, capaz de executar comandos e de conversar com servidores sob controle dos invasores. A ofensiva se apoiou numa vulnerabilidade zero-day, tipo de falha ainda desconhecida pelos próprios fabricantes de software, e por isso passou ilesa pelas ferramentas de segurança da máquina. O grupo ainda tomou cuidado para apagar rastros e atrapalhar a apuração posterior.

20 de outubro: a IA interna como trampolim

Com um computador sob controle, os criminosos deram o passo seguinte em 20 de outubro. A ferramenta interna de inteligência artificial da Binance serviu de apoio para alcançar as máquinas de outros dois engenheiros ligados diretamente à infraestrutura das carteiras. Nessa movimentação, descobriram que um deles mantinha no equipamento uma credencial com poder para implantar contêineres de software — blocos isolados que empacotam e rodam aplicações — dentro dos sistemas da corretora. Essa autorização se tornaria essencial na etapa final.

29 de outubro: quatro horas para conter o saque

Em 29 de outubro, entre 17h15 e 19h56, no horário descrito no relatório, os invasores acessaram o computador de um engenheiro e, com as credenciais roubadas do colega, subiram um contêiner e executaram um script malicioso. A partir daí alcançaram os sistemas que autorizam transações das carteiras. Os primeiros recursos saíram às 20h05 UTC — 17h05 de Brasília, conforme a empresa informou à imprensa —, sem passar pelo fluxo normal de saques dos clientes.

O grupo ainda lançou mão do EIP-7702, padrão do Ethereum que permite a uma carteira comum executar determinadas funções de contrato inteligente. Na descrição de Jimmy Su, diretor de segurança da Binance, o mecanismo foi usado para criar permissões maliciosas de execução sobre uma carteira quente, isto é, aquela que permanece conectada à internet.

Como a corretora protege as carteiras com computação multipartidária (MPC), modelo em que a chave é dividida entre várias partes e nenhuma delas detém o controle completo, nenhuma chave isolada bastava para desfazer as permissões na hora. A contenção só terminou às 00h10 UTC de 30 de outubro, cerca de quatro horas depois do início das transferências.

O que a Binance promete mudar

Além de reconstruir os sistemas de carteiras afetados, a Binance diz ter trocado os computadores infectados, cancelado as credenciais usadas pelos invasores e reformulado a ferramenta de IA que serviu de ponte. A companhia afirma ainda ter ampliado a detecção de comportamentos suspeitos por inteligência artificial, reforçado os controles das carteiras e refeito verificações nos dispositivos dos funcionários. Estão previstas a contratação de empresas independentes de segurança cibernética para auditar as conclusões da apuração, a criação de um fundo de pesquisa em segurança e parcerias com companhias de IA e organizações do setor de cripto.

A empresa sustenta que, ao longo de 2026, identificou e impediu 57 tentativas de ataques cibernéticos com suspeita de vínculo com a Coreia do Norte, boa parte delas apoiada em falsas oportunidades de emprego e em ferramentas de desenvolvimento contaminadas. O FBI atribui a invasão a hackers associados ao regime norte-coreano; o governo do país nega participação. Richard Teng, co-CEO da Binance, classificou o caso como uma campanha planejada durante meses, e não como efeito de uma falha isolada de segurança.

As operações voltam ao ar aos poucos. Nesta terça-feira, a corretora reabriu saques de dezenas de ativos em redes como Ethereum, Solana, XRP, Sui, Arbitrum, Optimism, Tron e Base. A companhia afirma que os depósitos por hora voltaram a superar os saques, sinal que interpreta como estabilização do fluxo de clientes. Parte dos detalhes técnicos segue sob sigilo, para não servir de manual a novas invasões.

O que isso significa para quem investe

Para quem opera em exchange, o episódio desloca o foco do debate. Não se trata de uma falha de código explorada por acaso, mas de uma operação que mirou pessoas: um engenheiro que baixou uma ferramenta, outro que aceitou participar de um processo seletivo. Controles como MPC, auditorias e detecção por IA reduzem danos, mas dependem de quem está na ponta — e o relatório mostra que o estrago atravessou várias camadas antes de chegar às carteiras.

Três pontos merecem atenção. O primeiro é a concentração: quanto maior a fatia dos ativos em uma única plataforma, maior a exposição a um evento desse tipo, ainda que a corretora tenha prometido cobrir as perdas com recursos próprios. O segundo é a assimetria de informação: 98% dos tokens foram repostos, mas os 2% restantes envolvem ativos de baixa liquidez, justamente os mais difíceis de repor e de precificar. O terceiro é o desenho do Ethereum: o EIP-7702 é um recurso legítimo da rede, acionado dentro das regras, e amplia a superfície de ataque de qualquer carteira quente que opere com permissões delegadas.

A investigação segue aberta e a revisão externa ainda não foi concluída. Até que as auditorias independentes saiam, o histórico de 57 tentativas barradas e a existência de permissões delegadas em carteiras quentes são os dados a acompanhar.