Um saque de US$ 6,4 bilhões em criptomoedas, o maior já visto no mercado de ativos digitais, esvaziou carteiras ligadas à Binance na quinta-feira, 29 de outubro, e colocou a exchange no centro de um embate público entre seu cofundador, Changpeng Zhao, o CZ, e Elon Musk. A discussão, travada no X, virou vitrine involuntária da estrutura financeira da corretora, que agora precisa demonstrar como absorve o rombo sem comprometer suas reservas.
A resposta da Binance ao deboche de Musk
Em publicação no X, CZ afirmou respeitar o bilionário, mas considerou que aquele não era momento para humor, pedindo que ele interrompesse as brincadeiras. Na mesma thread, o cofundador apresentou o que trata como prova de solidez: a Binance possui papéis da SpaceX, identificados pelo ticker SPCX, avaliados em mais de US$ 1 bilhão — posição derivada de um aporte de US$ 500 milhões realizado na aquisição do Twitter.
Musk havia reagido à repercussão do ataque com uma careta, gesto que outro usuário da rede associou a uma antiga publicação de Sam Bankman-Fried, então CEO da FTX, na qual o executivo assegurava que sua corretora tinha caixa suficiente para cobrir prejuízos. A FTX quebrou poucas semanas depois. O bilionário não explicou o que a expressão pretendia comunicar.
Yi He, co-CEO da Binance, também entrou na conversa, dirigindo-se a CZ em tom irônico diante da hipótese de a empresa precisar liquidar as ações da SpaceX, e lembrou que a receita anual da companhia cobre os prejuízos. Na sequência, CZ esclareceu que jamais defendeu a venda dos papéis: a menção servia apenas para mostrar a Musk quais recursos a exchange tem disponíveis.
O tamanho do rombo
| Item | Valor |
|---|---|
| Saque total estimado | US$ 6,4 bilhões |
| Saída inicial em Ethereum, Bitcoin e Tron | US$ 5,57 bilhões |
| Transferência única em USDT para endereço recém-criado | US$ 1,6 bilhão |
| Congelamento inicial (Tether e Circle) | US$ 1,8 bilhão |
| Congelamento acumulado | US$ 2,39 bilhões |
| Ativos sob custódia da Binance | US$ 144 bilhões |
| Perda potencial estimada | cerca de US$ 1 bilhão |
| Reserva anunciada pela exchange | US$ 6,34 bilhões |
A conta que circulou nas redes apontava prejuízo de aproximadamente US$ 1 bilhão, já descontada boa parte dos fundos bloqueados. CZ admitiu que a perda pode ser um pouco maior, mas sustentou que a corretora tem folga para absorvê-la. A empresa afirma ter separado mais de US$ 6,34 bilhões em recursos próprios, dos quais US$ 5 bilhões já estavam nos mesmos tokens saqueados; o restante vem sendo adquirido no mercado à vista e em operações de balcão (OTC, negociações privadas fora do livro de ofertas), caminho que demora mais quando o ativo tem liquidez curta.
Congelar é possível, mas não para todo token
Tether e Circle, emissoras das stablecoins USDT e USDC — tokens atrelados ao dólar —, bloquearam cerca de US$ 1,8 bilhão na primeira resposta e chegaram a US$ 2,39 bilhões no total. O Ethereum funciona de outra forma: não existe emissor central capaz de zerar saldos, o que torna bem mais difícil impedir a movimentação dos fundos roubados assim que eles são convertidos.
Coreia do Norte e o caminho via finanças descentralizadas
Parte dos recursos passou por exchanges descentralizadas como Uniswap e pelo protocolo de empréstimo Aave, que permitem negociar ou tomar crédito sem um intermediário tradicional aprovando cada operação. O rastreamento identificou carteiras que receberam dezenas de milhares de ETH nessas transações, incluindo 19.762 ETH tomados emprestados contra cerca de US$ 60 milhões em USDT.
Relatório divulgado na sexta-feira pelas analíticas de blockchain TRM Labs e Chainalysis atribuiu o ataque ao TraderTraitor, grupo norte-coreano que já havia sido responsabilizado pelo hack de US$ 1,5 bilhão da Bybit em fevereiro de 2025. A Chainalysis estimou o roubo da Binance em aproximadamente US$ 6,4 bilhões.
O que muda para quem investe em cripto
Três leituras se destacam. A primeira é que a capacidade de congelamento passou a ser um critério de risco: stablecoins com emissor identificável oferecem uma camada de proteção que o Ethereum não tem, e isso tende a pesar na escolha de onde manter liquidez de curto prazo. A segunda é operacional — a recompra de tokens no mercado e em balcão para repor as reservas pode pressionar preços justamente nos ativos de menor liquidez, o que costuma aparecer primeiro nos spreads das corretoras.
A terceira é de contraparte. O episódio recoloca no centro do debate a qualidade das reservas divulgadas por exchanges, a segregação entre caixa da empresa e custódia de clientes e o peso de ativos privados, como a participação na SpaceX, em um balanço que o mercado não consegue auditar com a mesma frequência. Para o investidor brasileiro com posição em cripto, vale acompanhar os relatórios de prova de reservas e a evolução do congelamento total, que ainda pode crescer conforme as emissoras forem identificando novos endereços ligados aos atacantes.
