O desconto de 7% que o rali não apagou

O primeiro pregão após o primeiro turno das eleições de 2026 entregou ao Ibovespa uma valorização de 12,7% medida em dólar, na segunda-feira (6). O salto respondeu à percepção de que o senador Flávio Bolsonaro (PL-RJ) se tornou favorito na disputa presidencial, depois de superar o presidente Luiz Inácio Lula da Silva (PT) por cerca de 2 pontos percentuais. O BTG Pactual refez as contas do mercado depois do movimento e concluiu que ainda sobra espaço de valorização.

O cálculo do banco isola a petrolífera Petrobras (PETR4) e a mineradora Vale (VALE3) — companhias cujos resultados respondem mais ao preço internacional das commodities do que ao humor político doméstico. Nesse recorte, as ações brasileiras aparecem negociadas a 11,1 vezes o lucro estimado para os próximos doze meses, patamar que fica cerca de 7% abaixo da média histórica.

Em um cenário de aceleração, a casa calcula que o índice poderia subir até 30%. A hipótese considera o Ibovespa caminhando para um desvio-padrão acima da média — medida que indica o quanto os preços costumam se afastar do próprio padrão histórico —, algo que o banco trata como bastante provável diante do recuo dos juros longos.

33 milhões de eleitores e o gatilho das pesquisas

A leitura do BTG não é de alta em linha reta. O relatório projeta ganhos mais graduais nas próximas semanas, justamente porque a definição da Presidência ainda não está decidida. Lula mantém competitividade e pode buscar votos entre os 33 milhões de eleitores que se abstiveram no primeiro turno — contingente que nenhum levantamento captura com precisão.

Nesse quadro, as pesquisas de intenção de voto do segundo turno assumem o papel de principal gatilho de curto prazo para o Ibovespa, conforme a avaliação do banco. A casa sinaliza que, caso o senador apareça com 4 a 5 pontos percentuais de frente nos levantamentos, a bolsa tende a manter o desempenho positivo.

Para quem acompanha a bolsa brasileira, isso desloca o centro das atenções dos balanços trimestrais para as pesquisas — informação que muda de semana em semana e costuma provocar oscilações bruscas de preço.

Gabinete, pacote fiscal e o que o voto não resolve

O resultado das urnas, isolado, não sustenta a valorização no médio prazo. O BTG condiciona uma reprecificação — o reajuste dos preços dos ativos a um novo cenário — mais duradoura das ações brasileiras a dois elementos que ainda não existem: o perfil de quem comandará os ministérios e a capacidade de o governo entregar um ajuste nas contas. O mercado também observa quem ocupará as pastas e espera por medidas efetivas de contenção das despesas.

Esse é o ponto que separa um rali eleitoral de uma mudança de patamar. Historicamente, sem sinalização crível de controle das contas públicas, os prêmios de risco embutidos nos ativos brasileiros costumam voltar a subir, e parte do ganho se dissipa.

De 12% para 10%: o caminho da Selic no relatório

Os juros reais de longo prazo caíram perto de 100 pontos-base — o equivalente a 1 ponto percentual — depois do primeiro turno, segundo o BTG. A instituição avalia que o movimento pode ganhar intensidade caso o mercado passe a enxergar compromisso maior com o equilíbrio fiscal, o que abriria espaço para o Banco Central cortar a Selic em ritmo mais rápido.

O Boletim Focus projeta 12% para a taxa ao fim de 2027. O BTG trabalha com a possibilidade de a Selic migrar para a faixa de 10% a 11%, desde que as expectativas de inflação permaneçam comportadas. Para os estrategistas da casa, a combinação de crédito mais barato e atividade econômica mais aquecida costuma se traduzir em lucro maior para as empresas, o que estenderia o ciclo de alta das ações.

Sete números do relatório do BTG

IndicadorValor citado
Alta do Ibovespa no dia seguinte ao 1º turno (em dólar)12,7%
Múltiplo preço/lucro projetado, sem Petrobras e Vale11,1 vezes
Desconto sobre a média históricacerca de 7%
Ganho em cenário de 1 desvio-padrão acima da médiaaté 30%
Queda dos juros reais longos após o 1º turnocerca de 100 pontos-base
Selic projetada no Boletim Focus para o fim de 202712%
Faixa de Selic considerada pelo BTG10% a 11%

O quadro combina um múltiplo abaixo do padrão histórico com dois gatilhos de curto prazo — as pesquisas eleitorais e a sinalização fiscal do próximo governo. Nenhum dos dois está resolvido. Isso permite que o Ibovespa siga a trajetória descrita pelo banco e, ao mesmo tempo, devolva parte do rali a cada levantamento que contrarie o cenário base. Movimentos embalados por expectativa política costumam ser mais voláteis do que os sustentados por lucro.