O Ibovespa chegou aos 189 mil pontos e o dólar recuou para R$ 5,08 nesta terça-feira (8), após pesquisas Quaest e BTG/Nexus indicarem disputa acirrada no segundo turno (etapa decisiva de eleição majoritária) entre o presidente Lula e o senador Flávio Bolsonaro. Segundo a fonte, o movimento alcançou Bolsa, câmbio e mercado de juros, com as taxas do Tesouro Direto (plataforma do governo para venda de títulos públicos a pessoas físicas) em queda.

A leitura do Ativo Virtual é que o episódio marca a troca de um mercado defensivo, que no mês passado temia a volatilidade típica do período pré-eleitoral, por um mercado que tenta precificar probabilidades políticas a cada sondagem. O desdobramento prático para quem acompanha o Brasil é uma sensibilidade maior de cotações e fluxos a pesquisas, sem que o pano de fundo externo, ainda pressionado por petróleo e rendimentos americanos, tenha deixado de pesar.

Por que a corrida presidencial passou a dar preço nos ativos

A fonte relata que a cautela inicial deu lugar a otimismo quando levantamentos de intenção de voto apontaram equilíbrio maior. A pesquisa Quaest mostrou empate no segundo turno, enquanto o levantamento BTG/Nexus, divulgado nesta terça, captou o primeiro efeito da crise envolvendo o Supremo Tribunal Federal (STF) e apontou Flávio numericamente à frente de Lula na mesma simulação.

O chamado trade eleitoral (posicionamento tático que busca capturar a variação de preços ligada ao resultado da eleição) teria ficado evidente nos juros. Segundo a fonte, as taxas recuaram mesmo com um ambiente internacional adverso, marcado por alta nos rendimentos do Tesouro americano (títulos de dívida dos Estados Unidos) após o petróleo Brent (referência internacional de preço do barril) avançar rumo a US$ 100.

a mudança nas probabilidades eleitorais, caso a oposição siga ganhando competitividade nas sondagens, poderia gerar uma reprecificação relevante dos ativos brasileiros, na avaliação atribuída pela fonte à gestora RPS Capital

Fluxo volta a entrar e mostra sensibilidade a pesquisa

A RPS Capital, de acordo com a fonte, entrou em setembro com maior exposição a ativos locais por meio de opções (contratos que dão o direito de comprar ou vender um ativo por um preço combinado), combinadas com ações de perfil defensivo e alguma presença em setores cíclicos (segmentos mais ligados ao ritmo da economia), como incorporadoras voltadas à baixa renda. A casa teria afirmado em carta a clientes que, depois de um período prolongado em que o investidor estrangeiro reduziu a exposição ao país, pequenas alterações na percepção sobre crescimento, juros e política podem provocar movimentos expressivos de fluxo.

Alguns números já traduzem essa reação. Segundo a fonte, o fluxo estrangeiro somou R$ 2,8 bilhões em compras líquidas na semana passada, o que levou o saldo de entradas no ano novamente para mais de R$ 20 bilhões. Os fundos de ações mantiveram resgates, com saída líquida de R$ 100 milhões, enquanto os fundos multimercados (carteiras que combinam ações, juros, câmbio e outras classes) registraram aporte líquido de R$ 300 milhões.

Tipo de fluxo na semanaValor apurado
Compras líquidas de estrangeiros na BolsaR$ 2,8 bilhões
Entrada estrangeira acumulada no anomais de R$ 20 bilhões
Fundos de açõessaída líquida de R$ 100 milhões
Fundos multimercadosaporte líquido de R$ 300 milhões

A leitura é que o retorno pontual do capital externo funciona como termômetro da tese eleitoral, e não como prova de uma tendência consolidada. Historicamente, fluxos ligados a eventos políticos tendem a responder rápido a pesquisas e tendem a oscilar na mesma velocidade quando surgem novas informações sobre crescimento, inflação e política monetária.

Corte mais profundo da Selic ancora revisão para a Bolsa

Além da disputa política, a fonte cita a expectativa de acomodação da inflação, o que poderia abrir espaço para uma redução mais acelerada da Selic (taxa básica de juros da economia brasileira). Esse pano de fundo ajudaria tanto a renda fixa, por meio da queda nas taxas, quanto a Bolsa, por meio da melhora nas avaliações das companhias.

Nesse ponto, o Bank of America elevou a recomendação para ações brasileiras de neutro para overweight (classificação que indica exposição acima da média de referência), citando a possibilidade de a taxa básica recuar até 11,25% em 2027, segundo a tese do Bank of America. O time de estratégia liderado por David Beker avaliou, conforme a fonte, que o efeito de uma política monetária mais flexível levaria as avaliações a patamares menos deprimidos, compensando riscos de revisão para baixo nos lucros, desaceleração da demanda e, em parte, a própria incerteza eleitoral.

O estrategista lembrou que o Ibovespa (principal índice de ações da B3, a bolsa brasileira), excluindo commodities (matérias-primas como petróleo, minério e produtos agrícolas), negocia com desconto de 10% em relação à média histórica, enquanto as ações mais sensíveis aos juros negociam com descontos ainda maiores. Para a Quantitas Asset Management, o imbróglio no STF envolvendo a relação do ministro Alexandre de Moraes com Daniel Vorcaro, além do caso ligado ao filho do presidente, conhecido como Lulinha, favorece mais a candidatura de Flávio. Considerando a reação das sondagens, a casa trabalha com pelo menos 50% de chance de vitória para Flávio Bolsonaro, com viés de alta.

A Legacy Capital avaliou, segundo a fonte, que mesmo com o ambiente externo mais incerto, os fatores domésticos justificam alguma presença do país em sua carteira. Gestoras como Ibiuna e Verde teriam feito essa exposição sobretudo por meio de opções de EWZ (fundo negociado no exterior que replica uma cesta de ações brasileiras), descritas como mais baratas de operar do que a compra direta de papéis ou do índice na B3. A lógica relatada é de assimetria: se a aposta em um governo de direita se confirmar, o ganho potencial seria elevado, ao passo que a perda seria mais contida em caso de reeleição de Lula.

Dólar a R$ 5,08 e estrutura com opções revela aposta gradual

No câmbio, o JPMorgan apontou a dinâmica fiscal como a principal fonte de preocupação e afirmou, de acordo com a fonte, que os planos nessa área vão orientar a reação do mercado aos resultados eleitorais, com o estágio do ciclo global do dólar como fator adicional relevante. A interpretação para o investidor pessoa física é direta: a trajetória do real tende a depender menos de uma pesquisa isolada e mais da combinação entre eleição, sinalização fiscal e força do dólar no mundo.

Diante desse quadro, o banco avaliou que estruturas alavancadas em opções são mais atraentes do que operações direcionais convencionais e montou uma ratio put spread 1x2 de três meses em dólar/real, com preços de exercício em R$ 5 e R$ 4,80. A operação envolve a compra de uma put (opção de venda, que dá o direito de vender dólar a um valor combinado) de R$ 5 e a venda de duas puts de R$ 4,80. Nesse desenho, o prêmio recebido nas vendas ajuda a financiar a compra e reduz o custo da montagem. O posicionamento reflete aposta em valorização moderada do real e perde eficácia se a moeda brasileira se fortalecer muito além de R$ 4,80.


No mercado de títulos, o banco não identificou distorção a ser explorada. As analistas de mercados emergentes Tania Jacob, Gisela Brant, Santiago Calcano e Anezka Christovova avaliaram, conforme a fonte, que os mercados de juros precificam com precisão os riscos eleitorais e o espaço para volatilidade relevante adiante. Para quem monitora a renda fixa, a mensagem é que o alívio recente nas taxas não significa ausência de oscilações até a definição do quadro político e fiscal.