O Ibovespa fechou a quarta-feira (23) em queda de 0,86%, aos 185.814,09 pontos, numa sessão que alternou perdas e ganhos: abertura negativa de 0,73%, aos 186.051 pontos, virada para o campo positivo na primeira hora de negócios e máxima de 188.772 pontos, equivalente a 0,72% de alta, sem sustentação até o fechamento.
A explicação do resultado final passa menos pelo noticiário político e mais por dois custos que voltaram a subir na mesma sessão. O dólar comercial fechou com valorização de 1,28%, a R$ 5,167, e a curva de juros futuros abriu em praticamente todos os vencimentos, acompanhando o rendimento do Treasury de dez anos de volta acima de 5%.
Para quem investe na Bolsa brasileira, o pregão funciona como um retrato do que está no preço hoje: prêmio de risco fiscal cobrado no câmbio e na curva doméstica, de um lado, e prêmio geopolítico embutido no petróleo, de outro. Petrobras capturou o segundo movimento. Bancos e Vale absorveram o primeiro.
| Indicador | Fechamento |
|---|---|
| Ibovespa | 185.814,09 pontos (-0,86%) |
| Abertura | 186.051 pontos (-0,73%) |
| Máxima do dia | 188.772 pontos (+0,72%) |
| Dólar comercial | R$ 5,167 (+1,28%) |
| Treasury de 10 anos | acima de 5% |
| Brent | acima de US$ 100 por barril |
Petrobras avança, bancos devolvem o ganho do meio da tarde
Entre os papéis de maior peso do índice, a petrolífera foi quase uma exceção positiva. As ações ordinárias e preferenciais (PETR3; PETR4) subiram amparadas na recuperação dos preços do barril e em avaliações favoráveis de analistas: o UBS BB, em relatório, elevou o preço-alvo do papel e manteve a recomendação de compra. PETR4 terminou o dia com ganho de 2,59%.
A Vale (VALE3) ficou entre as maiores pressões, com baixa de 1,85%, apesar da valorização do minério de ferro no exterior. Realização de lucros e um ambiente global mais avesso a risco explicam o movimento.
O peso maior veio dos bancos. Bradesco (BBDC4), Itaú Unibanco (ITUB4) e Banco do Brasil (BBAS3) cederam cerca de 2% cada um, e Santander (SANB11) recuou perto de 1%. O dado chama atenção porque o setor vinha sustentando parte da recuperação recente do mercado, na esteira da aposta em um cenário eleitoral mais ameno — apoio que perdeu força nesta sessão.
Dentro do Ibovespa, um papel de peso consegue dar o tom no meio do dia, mas não define o fechamento. Como o índice é uma média ponderada, a queda simultânea de vários setores tende a anular o esforço de poucos.
O prêmio fiscal cobrado no dólar e na curva de juros
O levantamento AtlasIntel/Bloomberg apontou vantagem numérica do presidente Lula sobre o senador Flávio Bolsonaro num eventual segundo turno, diferença que segue dentro da margem de erro. Parte do mercado trabalha com a hipótese de que esse desfecho reduziria a chance de um ajuste fiscal mais profundo a partir de 2027, o que tende a manter elevado o prêmio exigido para carregar risco brasileiro.
Por trás dessa avaliação estão uma corrida eleitoral sem favorito claro e a falta de sinalização sobre o equilíbrio das contas públicas. Esse tipo de risco costuma aparecer primeiro no câmbio e na curva de juros — e só depois chegar ao preço das ações.
Barril mais caro e juro americano mais alto pressionam as expectativas de inflação e encurtam o espaço para um afrouxamento monetário mais forte. É por esse canal que o exterior entra na conta do investidor local, mesmo em um dia de agenda doméstica carregada.
Marcos Bassani, especialista em investimentos e sócio-fundador da Boa Brasil Capital, sustenta que o nome do vencedor importa menos do que a trajetória da dívida: “É a trajetória da dívida. Enquanto não houver um sinal claro de compromisso com as contas públicas, acredito que o investidor vai continuar exigindo juros mais altos para financiar o país e vai buscar proteção no dólar”
O que virou o jogo no meio da tarde
O ambiente externo mudou de direção ao longo do dia e contaminou o humor doméstico. As bolsas americanas fecharam em baixa, sob pressão dupla do encarecimento do barril e da elevação dos rendimentos nos Estados Unidos — o que reacendeu dúvidas sobre o efeito de condições financeiras mais apertadas na maior economia do mundo.
No mercado de commodities, o barril do Brent voltou ao patamar acima de US$ 100, encerrando cinco sessões consecutivas de baixa. O gatilho foi geopolítico: um ataque a uma embarcação na região do Estreito de Ormuz e o discurso de linha mais dura do presidente iraniano Masoud Pezeshkian na Assembleia Geral da ONU. Do lado diplomático, o mercado acompanhava o desfecho da conversa entre Donald Trump e Xi Jinping.
Marcos Praça, diretor de análises da ZERO Markets Brasil, avalia que o petróleo mais caro e o avanço dos rendimentos dos Treasuries acabaram se sobrepondo aos fatores positivos observados no início da sessão.
Sidney Lima, da Ouro Preto Investimentos, aponta que a pesquisa eleitoral trouxe cautela na largada, mas que a recuperação em seguida mostrou o peso de outros vetores: “A pesquisa eleitoral trouxe cautela inicialmente, mas a recuperação da Bolsa mostra que fluxo, commodities e fatores técnicos também estão falando alto”
O que observar até as urnas
Faltam poucas sessões para o primeiro turno, e o mercado deve seguir sensível às sondagens eleitorais até lá. A leitura que circula entre gestores é que a apuração das urnas deve pesar mais do que sondagens novas — o que desloca o centro de gravidade das próximas sessões da pesquisa para o resultado.
O fluxo estrangeiro continua na lista de vetores acompanhados de perto, ao lado do petróleo, dos juros globais e da agenda externa. Nenhum deles está sob controle de quem investe, o que ajuda a explicar a oscilação dos preços dentro de uma mesma sessão.
O pregão de quarta deixou um recado para quem acompanha o índice: a alta de um papel isolado não muda o prêmio de risco exigido do país. Dólar, curva de juros e preço do petróleo continuam ditando o ritmo, e o Ibovespa tende a seguir oscilando entre sessões de otimismo e de cautela enquanto as apostas para 2027 vão sendo recalibradas.
