Petrobras define o tom, mas o dia tem outro protagonista

O Ibovespa abriu o pregão desta terça-feira (29) em baixa, com o recuo do petróleo pressionando Petrobras (PETR3;PETR4) e, por tabela, o índice. Por volta das 10h19 (horário de Brasília), o IBOV marcava 182.300,06 pontos, perda de 0,38%, na contramão do comportamento visto no exterior.

O retrato que se forma é o de um índice capturado por um único setor, enquanto os números de maior alcance estrutural — emprego, contas públicas e eleição — ficam em segundo plano na leitura apressada do dia. Para quem acompanha a bolsa como um todo, e não apenas o vaivém intradiário do petróleo, o que interessa está fora do pregão.

AtivoNívelVariação
Ibovespa182.300,06 pts-0,38%
Dólar à vistaR$ 5,2116-0,28%
DXY101.361 pts+0,16%
Brent (nov)US$ 103,26-1,94%
WTI (nov)US$ 94,29-2,31%

Petróleo recua quase 2%, mas segue acima dos US$ 100

A pressão sobre a estatal não nasce do noticiário doméstico. No mercado de Londres, o Brent com vencimento em novembro cedia 1,94%, a US$ 103,26 o barril, na Intercontinental Exchange (ICE). Já na Nymex, o WTI de mesmo vencimento recuava 2,31%, a US$ 94,29 o barril.

O detalhe que importa é que o barril continua acima da marca de três dígitos. Historicamente, papéis de petroleiras tendem a responder à correção de curtíssimo prazo mesmo quando o nível absoluto da commodity permanece elevado — e é isso que ajuda a explicar por que a Petrobras arrasta o índice para baixo em um pregão sem anúncio corporativo relevante.

Nos bastidores do conflito, Estados Unidos e Irã mantêm conversas separadas com mediadores, parte de um esforço renovado para encerrar as hostilidades, com a mediação regional tentando empurrar as partes para um cessar-fogo. Ainda assim, o risco de interrupção na infraestrutura e no escoamento de energia do Oriente Médio continua presente, por causa da tensão entre a Arábia Saudita e os houthis.

Desemprego em 5,3%: o patamar mais baixo desde 2012

Enquanto o índice cedia, o IBGE publicou a Pesquisa Nacional por Amostra de Domicílios Contínua (Pnad Contínua) referente ao trimestre encerrado em agosto. A taxa de desocupação ficou em 5,3%, o menor nível já registrado pela pesquisa, cuja série começa em 2012.

O número representa recuo de 0,3 ponto percentual na comparação com o trimestre terminado em maio (5,6%) e também de 0,3 ponto ante o mesmo intervalo de 2025, que havia marcado 5,6%.

Mercado de trabalho aquecido tende a sustentar o consumo das famílias, vetor que costuma aparecer com peso nas projeções de atividade doméstica. A contrapartida é que um mercado de trabalho no seu ponto mais apertado da história recente também costuma entrar nas discussões sobre a trajetória dos juros.

Contas públicas: déficit veio menor que o temido

O resultado primário de agosto fechou negativo em R$ 13,585 bilhões, conforme o Tesouro Nacional. Déficit primário é o saldo entre receitas e despesas do governo antes do pagamento de juros da dívida. Em julho, o mês anterior havia registrado saldo positivo de R$ 10,769 bilhões.

A cifra veio melhor do que o esperado. Economistas consultados pela agência Reuters projetavam resultado negativo de R$ 14,400 bilhões para o período. O dado consolida as contas do Tesouro, do Banco Central e da Previdência Social.

Eleição: empate técnico que segue travado

O levantamento AtlasIntel/Bloomberg sobre a corrida presidencial de 2026, divulgado nesta terça, mantém o segundo turno indefinido. O presidente Luiz Inácio Lula da Silva (PT) aparece com 47,6% das intenções de voto, ante 47,7% do senador Flávio Bolsonaro (PL).

Como a margem de erro é de 1 ponto percentual, os dois seguem em empate técnico. Na comparação com a rodada de 23 de setembro, o petista recuou 0,1 ponto, enquanto o candidato do PL avançou 0,3 ponto sobre os 47,4% anteriores. A vantagem numérica, que era de 0,3 ponto em favor de Lula, agora é de 0,1 ponto para Flávio Bolsonaro.

Para a bolsa, sondagens desse tipo entram no radar menos pelo placar em si e mais pelo grau de continuidade — ou de ruptura — que sinalizam para a política econômica dos próximos anos. É esse pano de fundo, e não a oscilação semanal, que costuma ser precificado ao longo do tempo.

Dólar na contramão e a agenda externa do dia

O dólar à vista era negociado a R$ 5,2116, com baixa de 0,28%, movimento contrário ao da moeda no exterior. O DXY, índice que mede o dólar contra uma cesta de seis divisas fortes, subia 0,16%, aos 101.361 pontos.

O foco externo se concentra em dois eventos. Às 11h (horário de Brasília), sai o Jolts, levantamento de vagas abertas do setor privado americano. Na sexta-feira (2), é a vez do payroll, o relatório oficial de emprego dos Estados Unidos — dado que costuma balizar as apostas sobre os próximos passos do Federal Reserve (Fed), o banco central do país. O mercado trabalha, hoje, com a expectativa de dois aumentos de 25 pontos-base nos juros americanos.

Três sinais convivem neste pregão: o petróleo corrigindo, o desemprego no menor nível da série e uma conta fiscal menos deficitária que o temido. Isoladamente, nenhum deles redefine o cenário; em conjunto, ajudam a explicar por que o ponteiro do IBOV às 10h diz pouco sobre o que realmente move a carteira do investidor pessoa física ao longo do trimestre.