O Ibovespa (principal índice de ações da B3, a bolsa de valores brasileira) operava em queda de 0,81% na manhã desta sexta-feira, 11, com mínima de 186.741,76 pontos por volta das 11h26, mesmo com a valorização das bolsas de Nova York e da Europa e com a deflação maior que o projetado no Brasil, segundo a fonte.
A leitura é que o alívio doméstico com preços perdeu força diante da combinação de inflação persistente nos Estados Unidos, recuo de petróleo e minério de ferro e cautela com a agenda política, que inclui nova pesquisa eleitoral Datafolha (levantamento de intenção de voto) prevista para hoje e decisões do Supremo Tribunal Federal (STF). O movimento pode indicar maior sensibilidade do índice brasileiro a risco externo de juros e a prêmio político interno do que a dados correntes de preços.
Por que o alívio do IPCA não sustentou o pregão
O Índice Nacional de Preços ao Consumidor Amplo (IPCA, indicador oficial da inflação brasileira calculado pelo Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE)) recuou 0,32% em agosto, depois de avançar 0,07% em julho. Em 12 meses, a variação acumulada ficou em 4,22%, informa a fonte com base nos dados do IBGE.
O resultado veio melhor para o bolso do consumidor do que a mediana da pesquisa Projeções Broadcast, que apontava recuo de 0,29% no mês e alta de 4,26% em 12 meses. O dado central da sessão foi 0,32% de deflação em agosto, com número abaixo do esperado tanto na margem mensal quanto na janela anual.
A difusão do IPCA (parcela de itens com alta de preços dentro da cesta medida, métrica acompanhada para avaliar se a inflação está espalhada) atingiu 54,38% em agosto, ante 46,30% em julho, conforme o banco BV citado pela fonte. Ou seja, apesar da queda do índice cheio, mais da metade dos subitens ainda subiu de preço.
Na avaliação atribuída a Gustavo Sung, economista-chefe da Suno Research, o IPCA mais fraco deu sustentação inicial ao mercado, enquanto o índice de preços norte-americano manteve a preocupação com aperto monetário fora do país.
Segundo a fonte, os juros futuros (contratos negociados no mercado que refletem a aposta dos investidores para a taxa básica nos próximos meses) chegaram a recuar após o IPCA, sem impedir a virada do índice à vista para o terreno negativo.
Juros em direções opostas: Selic para baixo, Fed para cima
Tanto o dado brasileiro quanto o índice de preços ao consumidor (CPI, na sigla em inglês, equivalente norte-americano do IPCA) reforçaram apostas de corte de 0,25 ponto porcentual na taxa Selic (taxa básica de juros da economia brasileira) e de elevação dos juros pelo Federal Reserve (Fed, o banco central dos Estados Unidos), na quarta-feira da próxima semana, de acordo com a fonte.
Para Marcelo Bassani, economista e fundador da Boa Brasil Capital, a queda do IPCA pavimenta o caminho para redução da Selic de 14% para 13,75% na próxima reunião. A projeção reproduzida pela fonte pressupõe exatamente o passo de 0,25 ponto.
Nos Estados Unidos, o CPI subiu 0,4% em agosto sobre julho e 3,4% na comparação com o mesmo mês do ano anterior, dentro do previsto na margem apurada pela fonte. A leitura atribuída a Vinicius Flores, gestor de investimentos e sócio da Stratton Capital, é que os números sustentam a chance de alta de juros pelo Fed na semana seguinte, por não mostrarem arrefecimento consistente da inflação norte-americana.
A diferença de direção entre os dois bancos centrais ajuda a entender o comportamento dividido dos mercados: alívio na curva local de juros e, ao mesmo tempo, pressão sobre ativos de risco ligada à perspectiva de dinheiro mais caro em dólar.
Eleição e STF: o prêmio político que entrou na cotação
No campo eleitoral, pesquisa Futura/100% Cidades divulgada nesta sexta-feira coloca o presidente Luiz Inácio Lula da Silva na frente no primeiro turno, com 39,2% das intenções de voto, seguido por Flávio Bolsonaro (PL) com 33,6%. Na sequência aparecem Augusto Cury (Avante) com 6,4%, Ronaldo Caiado (PSD) com 4,4%, Renan Santos (Missão) com 4,3%, Pablo Marçal (PRTB) com 2,3% e Romeu Zema (Novo) com 0,7%.
| Candidato | Partido | Intenção (%) |
|---|---|---|
| Luiz Inácio Lula da Silva | PT | 39,2 |
| Flávio Bolsonaro | PL | 33,6 |
| Augusto Cury | Avante | 6,4 |
| Ronaldo Caiado | PSD | 4,4 |
| Renan Santos | Missão | 4,3 |
| Pablo Marçal | PRTB | 2,3 |
| Romeu Zema | Novo | 0,7 |
O mercado também acompanha a expectativa pela pesquisa Datafolha marcada para hoje e o levantamento Atlas/Bloomberg, que confirmou crescimento do senador do PL, porém em ritmo inferior ao imaginado, na descrição de um especialista em renda variável (segmento de ações e fundos de ações) ouvido pela fonte.
Na frente institucional, a pedido do presidente do STF, Edson Fachin, o ministro André Mendonça retirou o sigilo do inquérito sobre supostas fraudes envolvendo o Banco Master, ligado a Daniel Vorcaro, além de outros 14 processos, mantendo sob reserva apenas documentos cuja publicidade pudesse comprometer diligências. Os autos foram remetidos aos demais ministros. O STF ainda tornou públicos dois contratos do Master com o escritório de Viviane Barci de Moraes, esposa do ministro Alexandre de Moraes.
Na visão de operadores citada pela fonte, o risco político permanece monitorado pela possibilidade de os desdobramentos atingirem a campanha do senador, apontado como adversário principal de Lula e percebido pelo mercado como defensor de política fiscal mais expansionista (com gastos públicos maiores).
O recuo de 0,81% por volta das 11h26 levou o marcador à mínima de 186.741,76 pontos. Antes disso, o índice registrou máxima com avanço de 0,17%, aos 188.586,47 pontos, após abertura praticamente estável aos 188.267,71 pontos.
Commodities viram o vento após rali da véspera
A queda do petróleo (matéria-prima energética que orienta ações de petroleiras e a balança comercial) e do minério de ferro (insumo do aço com peso relevante em mineradoras listadas) respondeu por parte central da perda, somada aos ruídos políticos anteriores ao fim de semana, na análise atribuída a Sung pela fonte.
O minério encerrou em baixa de 1,78% em Dalian e de 2,52% em Singapura. O petróleo devolvia mais de 2%, após disparar quase 6% no dia anterior em meio a receios sobre a oferta ligados aos atritos entre Estados Unidos e Irã.
A pesquisa Futura/100% Cidades atribui 39,2% a Luiz Inácio Lula da Silva e 33,6% a Flávio Bolsonaro (PL). O descolamento entre São Paulo e Nova York contrasta com o pregão anterior, quando o Ibovespa subiu 1,42%, aos 188.268,59 pontos, com ganho de 1,69% na semana, apoiado na repercussão de sondagens eleitorais que sugeriam possibilidade de triunfo da oposição na disputa presidencial e nos eventos ligados à crise no STF.
Para quem acompanha a bolsa, a sessão ilustra como dado positivo de inflação corrente pode dividir espaço com custo de capital global, cotação de exportadoras e calendário eleitoral. A agenda da próxima quarta-feira, com decisões simultâneas sobre Selic e juros norte-americanos, tende a dar preço mais claro a essa disputa entre juro local menor e dólar mais restritivo.
