O primeiro turno terminou e a reação começou fora do Brasil

Flávio Bolsonaro liderou a disputa presidencial com 47,03% dos votos válidos, contra 45,16% de Luiz Inácio Lula da Silva, e o segundo turno está marcado para 25 de outubro. A resposta dos investidores veio antes de a B3 abrir: o EWZ, maior ETF de ações brasileiras negociado nos Estados Unidos, saltou 12,88% na pré-abertura americana, enquanto os ADRs de companhias brasileiras — recibos negociados em Nova York que representam papéis de empresas daqui — avançavam com força.

Essa movimentação externa funciona como termômetro, não como espelho. EWZ e ADRs negociam a mesma notícia com antecedência e liquidez menor, e um salto na pré-abertura raramente se traduz na mesma proporção na abertura da B3. O que o mercado brasileiro herda é a direção do fluxo, não o percentual.

O Ibovespa chega a esse teste vindo de uma sexta-feira forte: alta de 2,63%, fechamento aos 192.114 pontos, praticamente na máxima do dia, após oscilar entre 186.144 e 192.118 pontos. Foi a quarta valorização consecutiva.

O que separa o índice da máxima histórica

No gráfico diário, o Ibovespa permanece acima das médias móveis de 9 e 21 períodos, arranjo que sustenta a tendência de curto prazo. O primeiro obstáculo está em 192.890 pontos. Superar essa faixa de forma consistente abre caminho para a máxima histórica, em 199.354 pontos, e logo acima dela aparece a marca psicológica dos 200 mil pontos.

O detalhe que costuma enganar é o formato da abertura. Um gap de alta — quando o índice começa o dia já acima do fechamento anterior, sem negociar os preços intermediários — não confirma rompimento por si só. O teste real vem depois: se o fluxo comprador se mantiver ao longo do pregão, o avanço ganha corpo; se desaparecer, o movimento perde força para formar uma nova perna de alta.

Para quem opera o índice, o nível de 192.890 pontos concentra as duas leituras opostas da sessão: confirmação de uma nova etapa de alta ou esgotamento do impulso comprador.

IFR em 75,77: a alta ganhou velocidade

A estrutura técnica é favorável, mas existe um sinal de estiramento. O Índice de Força Relativa (IFR) de 14 períodos está em 75,77, acima do patamar de 70 que costuma sinalizar sobrecompra — leitura que indica um preço subindo mais rápido do que a média recente sustentaria.

Não se trata de gatilho automático de reversão: em tendências fortes, o indicador pode ficar nessa região por semanas. O recado é outro. A velocidade da alta aumentou, e depois de quatro pregões consecutivos de ganho a chance de realizações cresce, sobretudo em uma sessão que começa com perspectivas tão favoráveis.

Se a pressão vendedora aparecer depois do movimento inicial, a primeira região a monitorar é 189.487 pontos. Perder essa faixa pode levar o índice aos 182.990 pontos, suporte mais relevante na sequência. Em uma correção mais ampla, os próximos níveis ficam em 178.000 e, depois, em 164.835 pontos.

No dólar futuro, o IFR está em 60,49 e o piso é 5.192

No câmbio, a estrutura se parece, mas o indicador conta outra história. O contrato futuro WDOX26 terminou a sexta-feira a 5.257 pontos, com baixa de 0,08%, após se recuperar ao longo do pregão. A formação de um candle de indecisão — padrão em que abertura e fechamento ficam próximos, sem definir direção — antes das urnas aumenta o peso da reação desta segunda-feira.

O contrato segue acima das médias de 9 e 21 períodos. Para retomar um movimento de alta mais consistente, a primeira região a acompanhar fica em 5.274,5 pontos; acima dela, superar 5.309 fortaleceria o fluxo comprador e abriria espaço para 5.339 e 5.374 pontos. O IFR de 14 períodos está em 60,49, ainda fora da zona de sobrecompra e sem leitura extrema.

Essa diferença entre os dois indicadores é o ponto mais revelador da sessão. A bolsa chega esticada, com IFR em 75,77; o dólar futuro chega mais acomodado, com 60,49. Na prática, o índice de ações já embutiu boa parte do otimismo na semana anterior, enquanto o contrato de câmbio preserva espaço antes de atingir uma condição de estiramento.

Do outro lado, um real mais forte pressiona o dólar já na abertura, e a região de 5.192 pontos surge como suporte importante para a estrutura atual. Perder esse patamar pode ampliar o fluxo vendedor rumo a 5.124 e 5.083 pontos, com os próximos suportes na faixa de 5.012 a 4.976 pontos.

A proteção que o mercado comprou antes das urnas

A incerteza eleitoral já estava sendo precificada antes da votação. A volatilidade esperada do Ibovespa acelerou na reta final da campanha, e o mercado de derivativos registrava procura maior por proteção. Nas opções, BOVA11, Petrobras e Banco do Brasil chegaram à votação com volatilidade implícita elevada — o prêmio que o mercado cobra de quem quer atravessar um período de incerteza sem ficar exposto a oscilações bruscas. O BOVA11, ETF que replica o Ibovespa na B3, aparece nessa lista como termômetro do custo de proteção do índice.

Esse dado ajuda a dimensionar o que estava embutido nos preços. Boa parte do hedge foi contratada caro, e, resolvida uma incerteza relevante, prêmios de volatilidade costumam recuar. Isso não elimina o risco de oscilações, mas altera o custo de carregar posições.

O que observar até 25 de outubro

O resultado das urnas encerra uma dúvida e abre outra etapa de precificação, com prazo definido: 25 de outubro. Para quem tem exposição ao mercado brasileiro, o pregão desta segunda concentra dois riscos ao mesmo tempo — o de uma abertura forte não se sustentar ao longo do dia e o de a maior parte da reação já ter sido capturada no exterior antes de o investidor pessoa física conseguir operar na B3.

O mapa técnico organiza essa leitura, e os dois ativos apontam para lados distintos.

ReferênciaIbovespa (pontos)Dólar futuro WDOX26 (pontos)
Resistência imediata192.8905.274,5
Máxima histórica / reforço199.3545.309
Marco psicológico / objetivo200.0005.339
Primeiro suporte189.4875.192
Suporte seguinte182.9905.124
Correção ampla178.0005.012–4.976
IFR (14 períodos)75,7760,49

Acima de 192.890 pontos, entram no radar a máxima histórica de 199.354 e os 200 mil. Na direção oposta, 189.487 e 182.990 são as primeiras referências. A forma como o índice reage a essas faixas mostrará se o movimento pós-eleição é apenas um ajuste inicial de preços ou se há força suficiente para uma nova tentativa de romper as máximas.

Até 25 de outubro, a agenda eleitoral deve continuar pesando sobre bolsa, câmbio e juros. O comportamento dos preços nas regiões técnicas indicará se o rali pós-urnas tem combustível para seguir nas próximas semanas ou se o impulso se esgota nos primeiros pregões.