Em cinco das seis eleições presidenciais desde 2002, o Ibovespa encerrou o intervalo entre o primeiro e o segundo turno com saldo positivo. O retrato mais recente, de 2022, mostrou o índice em alta de 4,09%, as small caps (ações de companhias com menor valor de mercado) ganhando 3,63% e o dólar PTAX recuando 1,13%, conforme levantamento da Elos Ayta sobre o comportamento dos ativos brasileiros em anos de disputa presidencial.
Small caps: cinco ganhos em seis pleitos
As empresas menores foram mais regulares que o índice principal e subiram em cinco das seis eleições mapeadas. O padrão sugere que, quando a disputa caminha para a definição, o apetite por ativos ligados ao ciclo doméstico tende a aumentar — mas o próprio histórico mostra que a regra não é blindada.
A exceção tem data: 2014. Sob polarização acentuada e dúvidas sobre a economia, o Ibovespa perdeu 4,77% e as small caps, 5,75% no intervalo entre turnos, enquanto o dólar recuou 0,51% e o euro subiu 0,7%. O intervalo mais forte da série foi o de 2018: small caps saltaram 7,64%, Ibovespa avançou 4,13% e o real se valorizou, com dólar em -5,03% e euro em -5,96%.
| Eleição | Ibovespa | Small caps | Dólar PTAX | Euro |
|---|---|---|---|---|
| 2002 | +8,15% | não informado | +3,89% | +3,48% |
| 2006 | +7,90% | +5,47% | -1,67% | -1,22% |
| 2010 | +0,63% | +4,78% | +1,20% | +2,15% |
| 2014 | -4,77% | -5,75% | -0,51% | +0,70% |
| 2018 | +4,13% | +7,64% | -5,03% | -5,96% |
| 2022 | +4,09% | +3,63% | -1,13% | +0,39% |
Os extremos ajudam a ler o restante da tabela. Em 2002, ano da primeira vitória de Luiz Inácio Lula da Silva, o Ibovespa subiu 8,15% no trecho, com dólar em +3,89% e euro em +3,48%, num ambiente de volatilidade elevada e apreensão com a transição de governo. Quatro anos depois, o dólar cedeu 1,67% e o euro, 1,22%, enquanto o Ibovespa acumulou 7,9% e as small caps, 5,47%. Em 2010, o índice principal ficou quase estável (+0,63%), com dólar em +1,2%, euro em +2,15% e small caps em +4,78%.
Depois do segundo turno, o comando troca de mão
O segundo recorte do levantamento — da eleição até o encerramento do ano — não repete o padrão do intervalo entre turnos. Os resultados se dispersam e passam a responder mais ao ambiente econômico que ao calendário eleitoral.
Em 2002, o Ibovespa subiu 12,52% nessa janela, com o dólar recuando 7,06%. Em 2006, as small caps dispararam 20,32% e o Ibovespa avançou 13,08%. Já 2010 e 2014 fecharam no vermelho: o Ibovespa cedeu 1,94% e 3,72%, respectivamente, com as small caps em -2,51% e -5,75%.
Em 2018, os ativos brasileiros voltaram a se recuperar — small caps em +10,58%, Ibovespa em +4,88% —, mas o real devolveu parte do ganho, com dólar em +6,54% e euro em +7,16%. Em 2022, o sinal inverteu em relação ao intervalo entre turnos: Ibovespa em -4,19% e small caps em -10,84%, com dólar em -2,39% e euro em +4,86%.
O que muda para quem carrega risco Brasil na carteira
A leitura que organiza os dois períodos é simples: o trecho entre turnos costuma ser curto, líquido e movido por expectativa; o trecho que vai da eleição ao fim do ano é mais longo e captura decisões de política econômica, humor global e revisão de crescimento. Em metade dos pleitos analisados, o Ibovespa caiu entre o segundo turno e o fim do ano, o que impede tratar o viés positivo do intervalo anterior como herança automática.
O caso de 2018 ilustra bem a diferença: ações em alta nas duas janelas, mas o real subiu antes do pleito e caiu depois. Em 2022, o contraste foi ainda mais explícito — Ibovespa e small caps positivos entre turnos e negativos até dezembro, com a Bolsa devolvendo mais do que havia ganhado no caso das empresas menores.
Para o investidor pessoa física com exposição a Bolsa, a série indica que a definição eleitoral tende a concentrar volatilidade em poucas semanas e a premiar, historicamente, a parcela doméstica da carteira. A amostra, porém, tem apenas seis eleições, e 2014 prova que cenários de alta polarização podem romper o padrão. A implicação prática é que o risco relevante não desaparece com a apuração: ele muda de natureza, do calendário político para a agenda macro.
