Principais pontos

  • O iene avançou 2% nesta quinta-feira (3) e chegou a 155,52 ienes por dólar em Nova York, no melhor desempenho diário desde a ação coordenada de Tóquio e Washington há pouco mais de um mês.
  • A leitura é que o alívio só se transforma em virada se a reunião do Banco do Japão (BOJ) em 18 de setembro entregar alta de juros e sinalização de aperto contínuo.
  • O país gastou o valor recorde de US$ 96,4 bilhões no último mês para sustentar a moeda, com apoio dos Estados Unidos.

O iene avançou 2% nesta quinta-feira (3) e chegou a 155,52 ienes por dólar em Nova York, no melhor desempenho diário desde a ação coordenada de Tóquio e Washington há pouco mais de um mês. O salto interrompeu uma sequência de desvalorização gradual ao longo do último mês e recolocou a divisa japonesa no centro das atenções globais, segundo relato publicado pelo InfoMoney com base em material da Bloomberg.

A leitura é que o alívio só se transforma em virada se a reunião do Banco do Japão (BOJ) em 18 de setembro entregar alta de juros e sinalização de aperto contínuo. Para o investidor brasileiro que acompanha dólar global, juros americanos e fluxos para emergentes, o episódio importa porque mexe no diferencial de juros (distância entre as taxas básicas de dois países) entre Japão e Estados Unidos, fator que influencia o apetite por risco, a cotação do dólar e o custo de proteção cambial (hedge, operação para reduzir o impacto da variação do câmbio).

18 de setembro concentra todas as apostas

A recuperação após a queda até 160 ienes por dólar no início desta semana aumentou a tensão em torno da decisão de política monetária do BOJ marcada para 18 de setembro, quando a expectativa dominante aponta para elevação dos juros. O estrategista Paresh Upadhyaya, da Pioneer Investments, avalia que a autoridade japonesa tende a autorizar o aumento em setembro e, ao mesmo tempo, deixar aberta a porta para acelerar o aperto monetário (ciclo de elevação de juros para conter pressões econômicas).

O membro do conselho do BOJ Hajime Takata alimentou essa interpretação na quarta-feira ao afirmar que um ajuste de 25 pontos-base (unidade equivalente a 0,01 ponto percentual) não seria obrigatoriamente o limite e que elevações consecutivas seguem sobre a mesa. O mercado de swaps (contratos derivativos que trocam fluxos de taxas e revelam as apostas para os juros futuros) já contempla quase por completo uma alta de 25 pontos-base neste mês e embute cerca de 80% de probabilidade de um novo aumento em dezembro, ritmo mais veloz do que se projetava antes.

Existe ainda um componente político incomum. O secretário do Tesouro dos Estados Unidos, Scott Bessent, elevou publicamente a pressão por juros mais altos no Japão. Qualquer deliberação que desconsidere essas sinalizações reiteradas, além de surpreender operadores, poderia provocar nova depreciação acentuada do iene, o que amplia a volatilidade ao redor do encontro.

Compromisso no radarData ou janelaO que o mercado monitora
Reunião do BOJ18 de setembroConfirmação de alta de 25 pontos-base e sinal sobre ritmo
Reunião do Federal ReserveMesma semana da decisão do BOJTom sobre inflação após falas de Christopher Waller
Nova alta potencial no JapãoDezembro, com cerca de 80% de probabilidade nos swapsPossibilidade de altas consecutivas citadas por Hajime Takata
Silver WeekFeriado de três dias logo após a reunião do BOJRisco de operação oficial surpresa como a de abril
Leitura de fluxo oficialDados do BOJ referentes à quarta-feiraIndícios de compra direta de ienes pelas autoridades

Por que a aposta em juro maior ganhou força em Tóquio

Três vetores se combinaram para virar o humor após semanas de dúvidas sobre a durabilidade da intervenção anterior. O primeiro foi a especulação de que o maior fundo de pensão do Japão estuda ampliar a meta de aplicação em papéis domésticos, o que tenderia a gerar fluxo comprador para ativos locais e sustentação para a moeda.

O segundo vetor veio dos Estados Unidos. Declarações do diretor do Federal Reserve (banco central americano) Christopher Waller a respeito do progresso da inflação diminuíram as projeções de juros mais altos nos EUA. Com isso, a diferença de remuneração entre os dois países passou a favorecer relativamente o iene, movimento que historicamente costuma dar suporte a moedas de juros mais baixos quando o concorrente perde prêmio.

"A compra de ienes pode ter surgido, especialmente entre investidores estrangeiros, diante das especulações sobre uma alta de juros mais agressiva", afirmou Hideaki Minami, diretor da equipe de negociação cambial à vista do Mizuho Bank.

Minami ponderou, porém, que seria precipitado declarar, apenas com o pregão atual, o fim da trajetória de fragilidade da divisa japonesa. A ressalva encontra eco em outras mesas, que veem o rali como reação a expectativas ainda por confirmar.

Intervenção recorde muda o cálculo de quem opera vendido

O país gastou o valor recorde de US$ 96,4 bilhões no último mês para sustentar a moeda, com apoio dos Estados Unidos. A intervenção cambial (compra e venda oficial de moeda para influenciar a cotação) contou com participação americana, recado adicional para desestimular apostas contrárias ao iene. A moeda, ainda assim, seguiu pressionada pelos preços altos do petróleo e pelo amplo diferencial de juros entre Japão e Estados Unidos.

Chidu Narayanan, estrategista-chefe para a Ásia-Pacífico do Wells Fargo em Singapura, atribuiu parte do salto desta quinta-feira ao desmonte de posições vendidas (apostas na desvalorização de um ativo) em iene, somado à busca por proteção cambial por investidores japoneses. Na avaliação dele, esses fluxos isolados dificilmente bancariam uma valorização muito mais extensa. Um avanço consistente além do patamar atual dependeria da combinação de um BOJ inesperadamente firme, disciplina fiscal em Tóquio e um dólar mais suave no mundo.

O principal responsável pela política cambial japonesa, Atsushi Mimura, declarou a jornalistas estar descontente com a cotação vigente e prometeu prosseguir na batalha pelo câmbio, endurecendo o discurso do Ministério das Finanças. Para Yusuke Miyairi, estrategista de câmbio da Nomura International, o vocabulário adotado agora foi bem mais duro que o recente, detalhe relevante quando operadores já temem atuação oficial. Na projeção dele, cai um pouco a chance de o dólar voltar a testar os 160 ienes e o par dólar-iene tende a orbitar a parte mais baixa do intervalo entre 155 e 160.

Enquanto o alerta permanece elevado, os números mais recentes do Banco do Japão não indicaram entrada expressiva das autoridades no mercado na quarta-feira. O mercado, de todo modo, segue em vigilância máxima para sinais típicos que antecedem operações oficiais, como ordens de compra de ienes ou consultas formais sobre cotações.

Silver Week entra no radar como janela para surpresa

Em abril, as autoridades aguardaram um feriado prolongado no Japão para atuar no câmbio pela primeira vez desde 2024. Agora, especula-se que estratégia parecida possa se repetir na chamada Silver Week, feriado de três dias que tem início pouco depois do encontro do BOJ. Períodos de liquidez reduzida historicamente costumam potencializar o efeito de intervenções, pois há menos contrapartes no mercado.

"Depois de qualquer movimento brusco, em qualquer mesa de operações, a primeira pergunta é: foi intervenção?", disse Bart Wakabayashi, diretor da filial de Tóquio do State Street Bank & Trust. Segundo ele, como observado na noite anterior, o mercado deve seguir extremamente sensível e tenso a cada oscilação forte.

Dólar mais fraco nos EUA abriu espaço para o respiro

O tom mais suave de Waller também deu impulso adicional ao movimento, nas palavras de Upadhyaya. O índice Bloomberg Dollar Spot (indicador que acompanha o dólar contra uma cesta de moedas) recuou 0,5% após as declarações, confirmando um ambiente de dólar menos firme que favoreceu a correção do iene.

A visão dos estrategistas da Bloomberg ouvidos pelo Markets Live é cautelosa quanto à continuidade. Manter a valorização para além de uma semana que reúne decisões do Federal Reserve e do Banco do Japão será bem mais desafiador. Para Mark Cranfield, estrategista do Markets Live, provavelmente seria preciso um Fed inesperadamente brando combinado a um BOJ que sinalize com clareza novas altas seguidas. Nenhuma das duas hipóteses, para ele, parece suficiente para persuadir operadores de iene, repetidamente decepcionados com a condução do presidente da instituição japonesa, Kazuo Ueda.

Para quem acompanha do Brasil, o encadeamento a observar é direto: confirmação de alta em setembro com comunicação firme, dólar global comportado após o Fed e ausência de frustração com Ueda. Sem esse tripé, a leitura predominante nas mesas é que o salto a 155,52 representa pausa técnica dentro de uma tendência ainda pressionada por petróleo caro e juros relativos, não o início garantido de um novo ciclo para a moeda japonesa.