O Bradesco (BBDC4) abre em 22 de outubro a rodada de resultados do terceiro trimestre de 2026, mas o dado que deve atravessar as quatro divulgações não aparece em nenhum balanço: a inadimplência nas carteiras de recursos livres — as linhas de crédito sem direcionamento obrigatório — subiu a 6,6% em agosto, informou o Banco Central, renovando o pico de uma série que começou em março de 2011.

Com o rali das ações do setor amparado pelo quadro eleitoral já no retrovisor, o foco dos investidores retornou a três pontos: qualidade dos ativos, avanço da inadimplência e tamanho da conta de provisões.

O Goldman Sachs mediu o fenômeno em escala de sistema: a taxa saiu de 3,0% no fim de 2024 e chegou a 4,6% em junho de 2026, com aproximadamente 60% do avanço atribuídos a deterioração concreta da carteira, conforme relatório da instituição.

O calendário que espalha as divulgações por três semanas

BancoTickerData
BradescoBBDC422 de outubro
Santander BrasilSANB1128 de outubro
Itaú UnibancoITUB43 de novembro
Banco do BrasilBBAS311 de novembro

A comparação com o segundo trimestre mostra o Itaú ainda como referência de rentabilidade, o BB pressionado pelo crédito rural e os dois bancos privados de porte menor — Bradesco e Santander — em recuperação lenta, com provisões gordas.

Itaú: ROE de 23,3% e a régua de rentabilidade do setor

O Bradesco BBI projeta lucro líquido de R$ 12,5 bilhões para o Itaú, praticamente igual ao do segundo trimestre e 12% acima do apurado um ano antes. A projeção da casa embute avanço moderado do crédito, tesouraria mais forte e inadimplência sob controle, com as receitas de serviços ainda sob pressão.

Do Goldman Sachs vem a expectativa de lucro praticamente estável e ROE — retorno sobre o patrimônio líquido — de 23,3%, ante 24,3% no trimestre imediatamente anterior. A casa sustenta que o Itaú reúne a melhor qualidade de carteira do grupo, capital gerado com folga e rentabilidade acima da média dos concorrentes.

A consolidação de estimativas da LSEG aponta R$ 12,6 bilhões de lucro e R$ 48,3 bilhões de receita.

Bradesco: margem financeira avança 3%, ROE cede 70 pontos-base

Na projeção do Goldman Sachs, a margem financeira do Bradesco cresce cerca de 3% sobre o trimestre anterior, refletindo leve recuperação do NIM (a margem financeira líquida, diferença entre o custo de captação e o retorno dos empréstimos). O custo do risco, porém, limita o lucro: a casa calcula ROE de 15,5%, 70 pontos-base abaixo do trimestre anterior.

Tarifas seguem fracas e o segmento de seguros enfrenta uma base de comparação mais dura, ainda segundo o Goldman Sachs. A LSEG reúne estimativas de R$ 7,1 bilhões de lucro e R$ 37,7 bilhões de receita.

Santander: R$ 2,7 bilhões para o BBI, R$ 3,2 bilhões para o Goldman

O Bradesco BBI estima lucro de R$ 2,7 bilhões no Santander Brasil, recuo de 13% sobre o segundo trimestre e de 33% na comparação anual. A casa aponta margem financeira com clientes mais apertada e tesouraria mais fraca, parcialmente compensadas por despesas administrativas sob controle e leve melhora nas tarifas.

O Goldman Sachs fica em R$ 3,2 bilhões de lucro recorrente, com ROE de 13% — acima dos 12,3% do segundo trimestre —, mas vê a retomada travada pelo custo do risco e pela deterioração do crédito corporativo. A LSEG projeta R$ 3,2 bilhões de lucro e R$ 21,3 bilhões de receita.

Banco do Brasil: provisões rurais e estimativas entre R$ 1,8 bi e R$ 3,7 bi

O intervalo mais largo da temporada está no Banco do Brasil. O Bradesco BBI projeta R$ 1,8 bilhão de lucro líquido, mais de 50% abaixo do trimestre anterior, com carteira praticamente estável e o problema concentrado nas provisões para perdas de crédito, sobretudo nas operações rurais.

O Goldman Sachs trabalha com queda de 5% no lucro recorrente na base trimestral e identifica nas provisões o principal entrave ao resultado, citando piora adicional nas carteiras rural e de cartões e os desafios da renegociação de dívidas.

A mediana de mercado compilada pela LSEG é bem mais alta: R$ 3,7 bilhões de lucro e R$ 36,8 bilhões de receita.

Custo do risco, NIM e renegociação: o que os números vão expor

O intervalo entre as duas leituras para o BB — R$ 1,8 bilhão do Bradesco BBI e R$ 3,7 bilhões da LSEG — é o mais largo entre os quatro bancos e sinaliza o quanto o resultado do trimestre depende da calibragem das provisões, e não do volume de negócios. Quando a distância entre a casa mais cautelosa e a mediana do mercado fica desse tamanho, o balanço deixa de ser uma confirmação de tendência e passa a funcionar como revelação.

A consequência prática para quem acompanha o setor é que esta temporada mede resistência, não expansão. Bancos com exposição rural mais pesada tendem a apresentar resultado mais sensível ao ciclo, enquanto instituições com carteira mais diversificada costumam absorver a inadimplência com menos ruído no lucro. O NIM aparece como o outro termômetro: a leve melhora projetada para o Bradesco e a margem com clientes pressionada no Santander indicam que o ganho de rentabilidade não deve vir de uma abertura generalizada de spread.

O custo do risco historicamente costuma ceder com atraso em relação à estabilização da inadimplência — o que sugere que despesas com provisões devem continuar presentes nos balanços mesmo em trimestres de receita estável. Como o dado do Banco Central mostra que a alta do sistema veio majoritariamente de piora efetiva dos ativos, e não de mudança de mix, a leitura para o investidor com exposição bancária passa a girar em torno de uma pergunta única, repetida em 22 de outubro, 28 de outubro, 3 de novembro e 11 de novembro: a deterioração do crédito está restrita a nichos ou já se espalhou pela carteira?