Companhias do setor financeiro e de serviços públicos — energia elétrica e saneamento entre elas — ficaram acima do CDI em horizontes de 5, 10 e 15 anos, somando ganho de capital e proventos distribuídos. O recorte é de um levantamento da XP apresentado por Raphael Figueredo, o Rafi, estrategista de Renda Variável da corretora, no painel sobre renda passiva do Conexão Investidor 2026, evento da Faz Capital que começou na terça-feira (20) e termina na sexta-feira (23).
O fio que costurou a apresentação: carteira de dividendos não se decide pelo yield do passado, e sim pela capacidade de a companhia continuar gerando caixa. É a diferença entre uma renda que atravessa ciclos e uma promessa que seca quando o juro muda de direção.
O retorno que bateu o CDI em três janelas
Figueredo dividiu o painel com Alexandre Pletes, head de Renda Variável da Faz Capital. A cesta setorial superou o CDI em 5, 10 e 15 anos, já incluídos os dividendos recebidos no cálculo. O CDI é a taxa que remunera o investidor na renda fixa de curto prazo e serve de baliza para decidir se vale assumir risco em bolsa.
| Janela analisada | Desempenho da cesta (valorização + dividendos) |
|---|---|
| 5 anos | acima do CDI |
| 10 anos | acima do CDI |
| 15 anos | acima do CDI |
| 2013 a 2015 (período de crise) | próximo ao CDI |
Entre 2013 e 2015, período de aperto na economia, a performance do grupo ficou próxima do CDI, sem a folga registrada nos horizontes mais longos. O prêmio da renda variável, nesse desenho, aparece no acúmulo de anos e não em cada exercício isolado.
Por que comprar e esquecer virou ponto de atenção
O alerta central mirou quem trata o buy and hold — a compra de ações para carregar por anos — como regra automática, sem checar a evolução dos negócios. Segundo Figueredo, a oscilação da taxa de juros e as mudanças no ambiente econômico do país podem corroer a capacidade de empresas antes sólidas de seguir distribuindo proventos.
A tese que fazia sentido em um ciclo pode deixar de fazer em outro: quem acompanha apenas o nome no extrato, e não o resultado trimestral, tende a descobrir a deterioração quando o dividendo já encolheu.
Yield de 12 meses como único filtro
Pletes apontou outro erro recorrente: selecionar papéis pelo dividend yield acumulado em 12 meses, indicador que relaciona os proventos pagos ao preço da ação. O número, isolado, não revela se existe caixa para repetir a distribuição nem qual fatia do lucro — o payout — foi destinada ao acionista.
Um yield alto pode nascer de preço em queda, de um evento extraordinário ou de uma distribuição acima do sustentável. A verificação que o painel sugere passa por dois testes: o caixa gerado pela operação e a parcela do resultado comprometida com proventos.
Reaplicar proventos e o que monitorar
Outro ponto levantado por Figueredo foi a reaplicação dos proventos enquanto o patrimônio ainda está em formação. O efeito composto depende de o dinheiro voltar para a carteira, e não de virar despesa corrente.
Para quem persegue renda recorrente, ficam três variáveis de acompanhamento: a consistência do caixa nas empresas escolhidas, o resultado divulgado a cada safra de balanços e o patamar dos juros, que redefine o custo de oportunidade e o atrativo relativo dos dividendos.
O que ainda dá para acompanhar
O Conexão Investidor 2026 reúne 20 painéis — quatro deles por dia, com início às 17h — em programação online e gratuita, promovida pela Faz Capital. Além da renda passiva, o segundo dia do encontro colocou na pauta a crise no crédito privado do país, a atuação dos empresários na transformação social e os efeitos da inteligência artificial na economia e nos investimentos.
