Inflação alta nos EUA: o recado de Kashkari e o que muda no Brasil
O presidente do Federal Reserve de Minneapolis, Neel Kashkari, afirmou no domingo (20) que a inflação dos Estados Unidos segue alta em todos os setores da economia, e não apenas por causa da disparada do petróleo. O dirigente endossou a decisão unânime da semana passada de elevar a taxa básica de juros americana em 0,25 ponto percentual, para a faixa de 3,75% a 4,00%. As declarações foram feitas em entrevista ao programa Sunday Morning Futures, da Fox News.
O detalhe que a manchete deixa de lado é o número mencionado pelo presidente do Fed, Kevin Warsh, logo após a reunião de quarta-feira: a inflação medida pelo indicador que baliza a meta do banco central teria ficado em torno de 3,6% em agosto. O dado oficial só sai no fim deste mês, mas o intervalo em relação ao alvo de 2% sustenta um tom duro entre os dirigentes — e sugere que os juros americanos tendem a permanecer em nível restritivo, com efeitos que historicamente transbordam para o câmbio e a curva de juros de economias emergentes como a brasileira.
O número que separa o discurso da meta
A distância entre a meta e a leitura corrente é o que organiza a comunicação do Fed neste momento. Warsh estimou o indicador de referência em cerca de 3,6% para agosto, acima do alvo de 2% perseguido pela autoridade monetária. O dado definitivo só será publicado no encerramento do mês, e até lá o mercado trabalha com projeções — não com confirmação.
| Indicador | Valor |
|---|---|
| Faixa da taxa básica dos EUA | 3,75% a 4,00% |
| Ajuste aprovado na última reunião | 0,25 p.p. |
| Meta de inflação do Fed | 2% |
| Estimativa de inflação (agosto) | cerca de 3,6% |
| Membros que votaram contra na reunião anterior | 3 |
Petróleo explica parte, serviços explicam o resto
O argumento central de Kashkari é que o petróleo não dá conta do quadro inteiro. Os preços do barril saltaram após o acirramento das hostilidades no Oriente Médio, com EUA e Irã atacando e afundando petroleiros no Estreito de Ormuz, e a Arábia Saudita fechando seu gasoduto Leste-Oeste por causa de ataques aéreos. É um choque de oferta sobre o qual o banco central americano não tem controle — reabrir o Estreito de Ormuz ou reduzir o preço do barril está fora do alcance da política monetária.
O dirigente sustenta que a pressão de preços se espalha por outros flancos, com presença ampla no setor de serviços. Essa leitura é o que justifica manter as ferramentas de política monetária em uso, ainda que o Fed dependa de fatores fora do seu comando para ver a inflação ceder de forma consistente.
A dissidência que ficou para trás
Na reunião anterior, Kashkari foi um dos três membros que votaram contra a maioria: o trio defendia um aumento de juros enquanto o restante do comitê optou por manter as taxas inalteradas. Agora, a decisão de subir 0,25 ponto veio de forma unânime. A mudança de placar sinaliza que a discussão interna deixou de ser sobre se haveria aperto e passou a ser sobre por quanto tempo a política segue nesse patamar.
O que observar
O número oficial de inflação referente a agosto chega no fim deste mês e tende a ser o principal teste para a narrativa dos dirigentes. Também merece atenção a evolução do conflito no Oriente Médio e o efeito sobre o petróleo, já que o choque de oferta pressiona exatamente o indicador que o Fed tenta trazer de volta a 2% — meta que o próprio Kashkari descreve como a função primordial do banco central e cujo cumprimento depende de fatores que fogem às suas ferramentas.
