A Valora praticamente dobrou o patrimônio sob gestão em dois anos, de R$ 16 bilhões no fim de 2023 para a faixa de R$ 35 bilhões a R$ 36 bilhões, após registrar R$ 18 bilhões em 2024 e R$ 26 bilhões em 2025. O número aparece em uma entrevista na qual Alexandre Vedrossi, sócio-diretor responsável pela área imobiliária da Valora, e Guilherme Grahl, gestor do VGIA11, detalharam onde veem risco e retorno nos fundos imobiliários de papel e nos Fiagros, veículos voltados às cadeias do agronegócio.

O que interessa a quem investe nesses veículos não está no tamanho da gestora, e sim no desenho de risco que separa duas famílias de fundos de papel. Os atrelados ao CDI tendem a pagar proventos mais estáveis e a oscilar menos; os vinculados ao IPCA concentram o potencial de retorno maior em troca de volatilidade mais acentuada, um trade-off que ganha peso em um ano de juros ainda elevados.

A escala que dobrou em dois anos

A expansão se distribuiu por diferentes frentes. O crédito privado segue como uma das principais especialidades da casa, que também mantém estratégias de crédito, FIDCs — fundos que compram direitos de recebíveis —, imobiliário, agro e infraestrutura. Para Vedrossi, esse avanço precisa vir acompanhado da manutenção da qualidade dos produtos e da relação entre risco e retorno entregue aos cotistas.

Fundos de papel: CDI e IPCA em velocidades distintas

Os fundos imobiliários de papel indexados ao CDI combinam hoje características pouco usuais, ao juntar oscilação baixa das cotas e retornos elevados. Na avaliação de Vedrossi, esse é o ponto de maior segurança do momento, ancorado no CDI ainda em nível alto. Juros elevados somados à menor volatilidade desses fundos tendem a resultar em uma relação entre risco e retorno considerada atrativa.

O executivo acrescenta que, mesmo com um ambiente de crédito mais hostil, gestoras com histórico conseguem estruturar carteiras com garantias robustas e retornos coerentes com o risco assumido.

A dinâmica muda entre os fundos de papel atrelados ao IPCA. Nesses veículos, Vedrossi vê espaço para oportunidade, amparado por spreads elevados dos títulos — a diferença entre a taxa do papel e a referência de mercado — e por descontos que alguns fundos exibem em relação ao valor patrimonial. O preço dessa oportunidade é uma volatilidade maior das cotas, o oposto do que ocorre nos fundos vinculados ao CDI.

VGIR11 e VGIP11: as duas pontas da carteira de crédito

A diferença aparece de forma concreta nos fundos da casa. O VGIR11 (Valora CRI CDI) mira carteira diversificada e retorno próximo de CDI + 2%, com oscilação baixa das cotas. Já o VGIP11 (Valora CRI Índice de Preço) reúne títulos que, marcados a mercado, entregam rendimento elevado, enquanto o próprio fundo é negociado com desconto sobre o valor patrimonial. Vedrossi classifica esse desconto como uma oportunidade relevante e lembra que o dividendo do VGIP11 tende a acompanhar a inflação.

O comportamento esperado dos dois é distinto: o fundo ligado ao CDI tende a pagar proventos mais estáveis e a oscilar menos, enquanto o indexado ao IPCA fica mais exposto às variações da inflação.

VGHF11: menos SPEs, mais crédito

No VGHF11 (Valora Hedge Fund), a gestora trabalha para remodelar a carteira. A exposição ainda relevante a SPEs — sociedades de propósito específico, criadas para tocar um único projeto — e a fundos imobiliários tem pressionado tanto os dividendos correntes quanto o patrimônio do fundo. O caminho escolhido passa por reduzir a fatia de SPEs e ampliar a participação em crédito.

Vedrossi admite insatisfação com o nível atual de proventos do VGHF11 e descreve o esforço para recompor o mix do fundo, com foco em melhorar os dividendos correntes, sobretudo no médio prazo.

Crédito imobiliário: juros altos e a régua das garantias

No segmento de crédito imobiliário, juros elevados pressionam tanto os balanços das empresas quanto a rentabilidade dos projetos. Nesse ambiente, a experiência das gestoras na análise de diferentes segmentos do mercado imobiliário aparece como diferencial na originação e na seleção das operações.

No mercado de incorporação, o comportamento varia conforme o segmento. O Minha Casa, Minha Vida continua sustentado por demanda elevada e apoio do governo, ainda que o endividamento das famílias e o custo de construção sejam pontos de atenção. Já o altíssimo padrão funciona como um mercado de nicho, com produtos de alto valor agregado e demanda concentrada em regiões específicas.

Agro: tempestade dissipando, juros no radar

Guilherme Grahl, gestor do VGIA11 (Valora CRA Fiagro), afirma que o momento de dificuldade do agronegócio não começou agora e representa, em sua avaliação, o fim de um ciclo de pressão sobre as empresas do setor. Juros elevados combinados à queda das commodities pesaram nos últimos anos; agora ele identifica sinais de melhora nos preços de milho e soja.

Na safra em curso, Grahl aponta dois fatores de novidade, entre eles o efeito da guerra, que encareceu o custo de produção, ao mesmo tempo em que a recuperação das commodities começa a ganhar tração. A seleção dos devedores permanece essencial para a gestora, que prioriza empresas menos alavancadas e com histórico de atravessar ciclos anteriores.

A estratégia do VGIA11 nos últimos anos passou por rotação de carteira, amortização de operações e busca por maior pulverização. Entre as variáveis monitoradas pela gestora estão clima, commodities, câmbio, crédito, juros e China, tratada como um dos principais componentes da demanda global por produtos agrícolas.

A melhora das commodities é lida como fator positivo, enquanto os juros seguem como a principal preocupação. Grahl acrescenta que a dinâmica da taxa no próximo ano também estará ligada ao cenário eleitoral. Para ele, o ciclo do agro é naturalmente marcado por períodos de alta e de baixa, e a expectativa é de que a safra 2027/28 encontre um ambiente mais tranquilo, caso a recuperação das commodities continue e as condições financeiras melhorem.

Premiação e reconhecimento

Em 2026, a Valora foi reconhecida em duas categorias da Premiação Outliers InfoMoney: melhor Fiagro e segunda colocada na categoria de fundo imobiliário de papel. Conhecido como Oscar das Assets, o prêmio chega à sua terceira edição em 2027.