A mediana das expectativas de inflação dos consumidores americanos para os próximos 12 meses subiu a 3,9% em setembro, de 3,6% em agosto, segundo a pesquisa mensal de expectativas do Federal Reserve Bank de Nova York divulgada nesta quarta-feira. É o maior patamar desde maio de 2023 e o dado que abre um levantamento de sinais trocados: os preços esperados aceleraram, mas a percepção sobre o mercado de trabalho melhorou.

A combinação interessa a quem investe a partir do Brasil por um canal indireto. Expectativas de inflação mais altas na maior economia do mundo tendem a manter a política monetária americana apertada por mais tempo, e esse arranjo historicamente costuma vir acompanhado de dólar mais firme e de apetite global menor por risco — pano de fundo que costuma pesar sobre moedas e ativos de mercados emergentes, o Brasil incluído. Não se trata de relação mecânica, e a própria pesquisa traz um contraponto: o consumidor americano segue disposto a gastar.

Mediana de 12 meses a 3,9% e os horizontes mais longos

Os três anos também subiram, de 3,2% em agosto para 3,3% em setembro. A projeção para cinco anos ficou parada em 3%.

HorizonteAgostoSetembro
12 meses3,6%3,9%
3 anos3,2%3,3%
5 anos3%3%

Horizontes mais longos servem de referência para separar ruído de tendência na avaliação do banco central americano. Com o curto prazo em alta e o cinco anos estável, o sinal é de pressão concentrada no bolso imediato, não de desancoragem generalizada.

Menos medo de demissão e mais confiança em recolocação

A parcela que apostava em aumento do desemprego ao longo dos 12 meses seguintes recuou para cerca de 44%. A chance percebida de achar outro trabalho nos três meses posteriores a uma demissão hipotética subiu para 46%.

A expectativa de perder o posto também diminuiu. O alívio foi maior na faixa de 40 a 60 anos e entre lares que ganham mais de US$ 100 mil por ano. Já a intenção de pedir demissão por vontade própria cresceu, com destaque para os profissionais sem curso superior e para os que passaram dos 40 anos.

Dirigentes do Fed descrevem o mercado de trabalho americano como um arranjo de poucas admissões e poucas demissões. Em setembro, o desemprego ficou em 4,2%, e quem estava sem trabalho levou, em média, seis meses para encontrar uma nova vaga.

Finanças pioram, mas a intenção de gasto atinge máxima recente

A avaliação das famílias sobre a própria situação financeira piorou pelo segundo mês consecutivo. Cerca de 42% classificaram a situação atual como pior que a de um ano antes, e perto de 18% enxergaram melhora. Também aumentou a parcela que projeta deterioração das finanças nos 12 meses seguintes e a que relata dificuldade maior para conseguir crédito em relação ao ano passado.

Na direção oposta, o avanço previsto para as despesas ao longo dos próximos 12 meses marcou o ponto mais alto desde maio de 2023, com ganho espalhado por diferentes faixas de idade e níveis de escolaridade. O consumidor segue projetando gastos crescendo mais rápido que a renda. Já a chance atribuída a atrasos no pagamento de dívidas nos três meses seguintes caiu um pouco, para 12%.

A reunião de 27 e 28 de outubro e a eleição de novembro

Em setembro, o Fed promoveu um aumento de 0,25 ponto percentual na taxa básica de juros dos Estados Unidos. Parte dos dirigentes avalia que a decisão abre espaço para observar melhor o comportamento da economia. O comitê de política monetária volta a se reunir nos dias 27 e 28 de outubro, em Washington.

O levantamento sai menos de um mês antes das eleições legislativas americanas, marcadas para novembro. Nas semanas anteriores ao relatório, o índice de confiança do consumidor dos EUA recuou ao patamar mais baixo em quatro meses, em setembro, e o desemprego subiu um pouco, em nível ainda baixo para padrões históricos.

O repasse para os ativos brasileiros

Expectativas de inflação nos Estados Unidos são insumo direto para a política monetária da maior economia do mundo e, por consequência, para a liquidez global. Quando elas sobem, o cenário que se desenha tende a ser de juros americanos mais altos por mais tempo, o que historicamente fortalece o dólar e reduz a procura por ativos de risco em mercados emergentes.

Do lado brasileiro, isso aparece em dois canais conhecidos: o câmbio, que influencia a inflação doméstica e a trajetória da Selic, e o fluxo de capital para a B3. Os números de emprego e de intenção de gasto da mesma pesquisa, no entanto, apontam para um consumidor americano que continua sustentando a atividade, fator que costuma dar suporte à demanda global por commodities. O equilíbrio entre preço e atividade é o que define o tom do debate no Fed nas próximas semanas.