A prévia do IPCA de outubro de 2026 subiu 0,32%, informou o IBGE nesta sexta-feira (23), abaixo dos 0,43% projetados por instituições consultadas pela Reuters. O número mensal mais fraco, porém, não se converteu em alívio na janela mais longa: o acumulado em 12 meses subiu para 4,62%, contra 4,47% na leitura imediatamente anterior, e a variação do ano chegou a 4,15%.

A composição do índice explica a distância entre as duas leituras. A alimentação respondeu sozinha por 0,19 p.p. do avanço do mês, enquanto a energia elétrica residencial recuou e puxou o grupo Habitação para baixo. Quem observa apenas o número cheio perde justamente esse contraste — e é nele que estão as informações mais úteis para quem acompanha juros, câmbio e Bolsa.

Oito das nove categorias avançam, e a comida puxa o índice

O IBGE divide a cesta em nove grupos. Oito registraram alta em outubro, com as variações indo do recuo de 0,10% em Habitação ao avanço de 0,55% em Despesas pessoais. Alimentação e Bebidas (+0,88%) ficou no topo tanto em variação quanto em impacto.

GrupoOutubroDestaque interno
Alimentação e Bebidas+0,88%Impacto de 0,19 p.p.
Despesas pessoais+0,55%Cinema, teatro e concertos a +4,30%
Transportes+0,05%Combustíveis a +1,20%
Habitação-0,10%Energia elétrica a -0,89%

Comida em casa salta para 1,01% e hortifrútis concentram as altas

A alimentação comprada para consumo no domicílio saiu de 0,38% em setembro para 1,01% em outubro. Tomate (+24,54%), cebola (+13,63%), batata-inglesa (+10,96%) e arroz (+5,80%) lideraram os aumentos. Do outro lado, cenoura (-10,67%), frutas (-1,37%) e café moído (-1,16%) seguraram a cesta.

ItemOutubro
Tomate+24,54%
Cebola+13,63%
Batata-inglesa+10,96%
Arroz+5,80%
Cenoura-10,67%
Frutas-1,37%
Café moído-1,16%

A comida fora de casa seguiu o mesmo caminho: passou de 0,44% para 0,56%, com refeição indo de 0,38% para 0,61% e lanche de 0,44% para 0,66%. É o pedaço do índice que costuma reagir menos a safras e mais a custos de mão de obra e aluguel — por isso, tende a ser o mais resistente a recuos rápidos.

Bandeira verde derruba a energia e inverte Habitação

Habitação saiu de +2,07% em setembro para -0,10% em outubro. A virada veio da conta de luz: a energia elétrica residencial passou de 7,42% para -0,89% com a troca da bandeira amarela, que cobrava R$ 1,885 a cada 100 kWh, pela verde, sem acréscimo na fatura.

O movimento não foi uniforme entre as cidades. Em Fortaleza, onde o índice regional recuou 4,00%, as tarifas caíram 6,65% desde 26 de agosto, movimento ligado à incorporação de recursos da repactuação do Uso de Bem Público (UBP) chancelada pela Aneel. Em Belém, o reajuste de 6,63% aplicado a partir de 18 de setembro levou a energia local a subir 3,71%.

Ainda no grupo, o gás de botijão avançou 1,28% e o aluguel residencial, 0,28%. A taxa de água e esgoto caiu 0,89%, influenciada pelo desconto de 25% na tarifa mínima de Curitiba, onde o item recuou 8,05% a partir de 1º de outubro.

Combustíveis voltam a subir e seguram Transportes em 0,05%

O grupo Transportes ficou praticamente estável, mas com briga interna intensa. Os combustíveis passaram de 0,22% para 1,20%, com óleo diesel (+3,70%), etanol (+2,73%) e gasolina (+0,92%) em alta, enquanto o gás veicular recuou 0,18%.

Do lado oposto, as passagens aéreas caíram 9,24% e produziram o principal impacto negativo do mês, de -0,08 p.p.. Sem esse item, o resultado agregado seria sensivelmente diferente — o que reforça a leitura de que o alívio de outubro depende de componentes com alta volatilidade.

Serviços e turismo aparecem na pressão de Despesas pessoais

O grupo Despesas pessoais avançou 0,55%, com destaque para cinema, teatro e concertos (+4,30%), pacote turístico (+2,18%) e empregado doméstico (+0,62%). São itens de consumo discricionário, cuja leitura ajuda a separar o que é choque de oferta do que é demanda aquecida.

Belém lidera entre as regiões; Curitiba é a única queda

Dez das onze áreas pesquisadas registraram alta em outubro. A maior variação apareceu em Belém (0,76%), sustentada pelo tomate a +17,55% e pela energia elétrica residencial a +3,71%. O menor resultado veio de Curitiba (-0,27%), com passagens aéreas a -11,58% e taxa de água e esgoto a -8,05%.

Por que a série de 12 meses tende a pesar mais que o número do mês

A inflação acumulada em 12 meses costuma ser o termômetro que orienta a leitura de política monetária, e ela subiu de 4,47% para 4,62% mesmo com o mês vindo abaixo do esperado. Parte do avanço mensal veio de itens tipicamente voláteis — tomate, cebola e batata costumam devolver parte da alta nas safras seguintes —, enquanto o alívio da conta de luz está atrelado ao sistema de bandeiras, que muda conforme o nível dos reservatórios.

A pressão mais duradoura tende a vir de três frentes: alimentação fora do domicílio, que acelerou em refeição e lanche; serviços pessoais, com destaque para empregado doméstico e aluguel; e combustíveis, cujo repasse ao longo da cadeia costuma aparecer com defasagem nos meses seguintes. É essa mistura que sustenta a diferença entre um dado mensal comportado e uma média anual em aceleração.

Para quem investe, o dado de outubro não fecha a discussão sobre o custo do dinheiro no Brasil, mas desloca o foco do número cheio para a composição. O que importa observar daqui para frente é se a alta de alimentos em casa se espalha para itens processados, se os combustíveis mantêm o ritmo e se a energia segue sem compensar a pressão de serviços.