A tese do ITUB4 não mudou de direção com o último balanço — mudou de qualidade de evidência. O lucro recorrente gerencial somou R$ 12,4 bilhões no segundo trimestre, com alta de 7,8% sobre o mesmo período do ano anterior, e veio acompanhado de ROE de 24,3% no consolidado e 25,7% no Brasil, o que reforça o argumento de que a ação é sustentada por rentabilidade acima da média do setor, e não por múltiplo descontado.

A decisão de quem acompanha o papel hoje tende a ser menos sobre “o Itaú é um bom banco” e mais sobre quanto do prêmio já está embutido na máxima de R$ 50,85 registrada na semana de 5 de outubro. Do lado positivo, o P/L de 12,4 segue abaixo do teto de 15 vezes usado como referência para boas empresas; do lado do risco, o papel negocia 167% acima do valor patrimonial e a leitura técnica admite reversão de tendência caso o preço perca R$ 44,64.

O segundo trimestre em números

O lucro recorrente gerencial somou R$ 12,4 bilhões, com avanço de 7,8% na comparação anual e de 1% sobre o trimestre anterior. Trata-se de um lucro ajustado pela administração para refletir a operação normal do banco, sem efeitos que distorçam a comparação — e o ROE, que mede o retorno gerado sobre o capital do acionista, ficou em 24,3% no consolidado e 25,7% no Brasil, patamar que o próprio material classifica como invejável para o setor.

Indicador (2T)ValorVariação
Lucro recorrente gerencialR$ 12,4 bi+7,8% a/a e +1% t/t
ROE24,3%25,7% no Brasil
Carteira de créditoR$ 1,52 tri+9,6% a/a e +2,7% t/t
Margem financeira com clientesR$ 2,6 bi+5,1% a/a e +3,3% t/t
Despesas—+3,1% a/a e +3,3% t/t

A carteira de crédito chegou a R$ 1,52 trilhão, alta de 9,6% em doze meses e de 2,7% em apenas três meses, mantendo o Itaú como o maior portfólio de crédito do país. A margem financeira com clientes foi de R$ 2,6 bilhões, com alta de 5,1% ano contra ano e 3,3% no trimestre. O ponto de atenção ficou com as despesas, que cresceram 3,1% na comparação anual e 3,3% sobre o trimestre anterior.

A leitura que organiza o balanço é essa: lucro, carteira e rentabilidade seguem fortes, mas o crescimento das despesas é o item que pode corroer a assimetria se vier acompanhado de piora na qualidade do crédito. É esse par — custo e inadimplência — que define se o ROE de dois dígitos altos se sustenta.

Onde a carteira cresce — e onde o banco recua

A expansão não é uniforme, e a composição importa mais do que o número agregado. O crédito imobiliário a pessoas físicas avançou 3,3% em um ano, linha com garantia real que tende a reduzir perdas em caso de inadimplência. O consignado cresceu 11,7%, produto de risco menor porque o pagamento é descontado direto na folha ou no benefício. Já o financiamento de veículos recuou 3,3%, sinal de seletividade.

O destaque lateral é a força do crédito imobiliário, com R$ 36 bilhões de originação em doze meses e 55% de participação entre os bancos privados — liderança que não se estende ao total do mercado porque o governo atua com subsídio. A mensagem para a tese é que o banco cresce priorizando linhas em que precifica melhor o risco, e não em qualquer carteira.

A máquina que transformou R$ 10 mil em R$ 67,6 mil

A simulação histórica que dá base ao caso de investimento considera R$ 10 mil aportados há dez anos, com reinvestimento de todos os dividendos: o montante chegaria a R$ 67,6 mil, rentabilidade de 576% no período, ou cerca de 21% ao ano em termos compostos, antes de impostos e custos operacionais. O desempenho atravessou recessão, pandemia, juros elevados e a chegada de concorrentes digitais.

A sustentação operacional aparece na comparação de lucros: R$ 23,3 bilhões em 2016 contra R$ 44,9 bilhões em 2025, avanço nominal próximo de 93% em nove anos. No mesmo intervalo, a rede física caiu de 4.554 agências e postos de atendimento no Brasil, em 2016, para cerca de metade em 2025, enquanto o banco abriu mais de 4,6 milhões de contas por canais digitais no ano passado, responsáveis por cerca de 68% das novas aberturas. Rodou mais enxuto, reduziu custo operacional e ampliou a carteira com provisão baixa para devedores duvidosos.

ITUB3 e ITUB4: o descompasso que mexe com o dividend yield

As duas classes têm a mesma base acionária, e a análise vale para ambas. Na gravação, ITUB3 era negociada a R$ 52,86, com valorização de 73,39% em doze meses; ITUB4 subiu 39,58% no mesmo período, o que abriu um descompasso histórico entre os papéis. Como o dividend yield é a soma dos proventos dos últimos doze meses dividida pela cotação atual, a classe que valorizou menos exibe percentual maior — quase 6% — sem que isso signifique, por si só, papel mais barato.

O múltiplo de referência da análise é o P/L de 12,4, contra um teto de 15 vezes para boas empresas e uma faixa de 10 a 12 vezes buscada pelos investidores mais conservadores no Brasil. O P/VP mostra a ação 167% acima do valor patrimonial. A leitura é direta: o papel não é barato por múltiplo, é caro por qualidade — e a decisão passa por julgar se essa qualidade se mantém.

Os níveis que importam para a decisão

No gráfico semanal, a tendência de alta de médio prazo segue estabelecida, com máxima de R$ 50,85 na semana de 5 de outubro e o preço retornando a uma região de suporte relevante. O cenário mais provável, na avaliação da casa, é de reação no suporte e retomada da alta, mas o material é explícito ao dizer que não há garantia. Na visão da análise, a reversão de tendência se configuraria abaixo de R$ 44,64; pelo critério clássico, a confirmação exigiria perda de R$ 41,63. O calendário eleitoral entra como variável de curto prazo capaz de influenciar a bolsa.

Vale registrar a mecânica citada como exemplo de estratégia: uma operação de compra premiada armada em 18 de setembro, com referência em R$ 37,46, não foi exercida e resultou em prêmio de 55 centavos por ação ITUB4 — receita que aparece justamente quando a compra não acontece. É uma operação de risco máximo, imprópria para quem não domina o instrumento, e o exemplo ilustra apenas como prêmios podem ser capturados, não uma orientação de entrada.

O que muda para investidores

  • A tese segue de pé pelo fundamento, mas o preço de entrada mudou de patamar: com P/L de 12,4 e P/VP 167% acima do patrimônio, o retorno esperado tende a depender mais de crescimento de lucro e dividendos do que de reavaliação de múltiplo.
  • O risco virou operacional, não estrutural. Despesas crescendo 3,1% ao ano e a necessidade de manter provisão baixa são os itens que podem enfraquecer o caso.
  • A assimetria é assimétrica por desenho: acima da máxima histórica, o espaço de alta é aberto; abaixo de R$ 44,64, a leitura técnica admite correção adicional, com referência clássica em R$ 41,63.
  • Para quem compara classes, o dividend yield maior de ITUB4 reflete o retrovisor da valorização relativa, não necessariamente um desconto estrutural.

O que precisa continuar verdadeiro

A tese depende de três premissas: crescimento da carteira de crédito com qualidade — imobiliário e consignado puxando, veículos contidos —, controle de custos após a digitalização da rede e manutenção do ROE acima de 20%. O catalisador mais próximo é a divulgação do balanço do terceiro trimestre, quando se saberá se o lucro recorrente e o retorno sobre patrimônio seguem no ritmo atual e se as despesas continuam sob controle. Até lá, o mercado tende a operar entre o suporte e a máxima histórica, com a decisão de manter, elevar ou reduzir exposição passando por esse intervalo.