A reeleição de Luiz Inácio Lula da Silva deixou marca imediata na curva: o prefixado com vencimento em 2037 saltou de 12,9% para 15,2%, avanço de cerca de 230 pontos-base em uma única sessão, segundo o relatório do UBS BB. A casa transportou o movimento para as projeções do setor e estima que, com juros longos entre 15% e 15,3%, o lucro dos bancos de varejo recue um dígito médio em 2027 e um dígito alto em 2028.

A dispersão é o que muda a leitura do setor. A XP (XPBR31) concentra a maior sensibilidade e o BTG Pactual (BPAC11) a menor: o UBS BB projeta 17% menos lucro para a XP em 2027 e 14% menos em 2028, contra 5% e 6% no BTG, na comparação com o cenário-base.

InstituiçãoTickerLucro 2027Lucro 2028
XPXPBR31-17%-14%
BTG PactualBPAC11-5%-6%

Projeções do UBS BB em cenário alternativo, com juros de longo prazo entre 15% e 15,3%.

A engrenagem entre juro longo e lucro bancário

A dimensão de um eventual ajuste fiscal segue em aberto, e essa dúvida é o que sustenta o patamar atual das taxas. Com a curva nesse nível, o crédito perde tração — sobretudo nas linhas corporativas —, a capacidade de pagamento das empresas encurta e tanto a qualidade dos ativos quanto algumas fontes de receita das instituições financeiras sentem o efeito. O juro alto, portanto, não chega de forma igual a todos os bancos: atinge primeiro quem depende de captação de recursos, de produtos de maior risco e de receita de intermediação.

A conta da XP: captação, mix de produtos e take rate

A XP carrega exposição relevante a investimentos de maior risco, o que amplifica o efeito do juro elevado em três frentes: entrada líquida de recursos, composição das receitas e eficiência operacional. Um fluxo menor de recursos novos e um mix deslocado para produtos menos remuneradores tendem a corroer o take rate — a parcela de receita que a plataforma retém sobre o dinheiro que passa por ela. Ao mesmo tempo, com menos alavancagem operacional (a capacidade de diluir despesas fixas conforme a receita cresce), a relação entre custos e receitas sobe. Daí a contração de dois dígitos projetada pelo UBS BB.

No BTG, 17% da receita joga a favor

No BTG Pactual, o desgaste se concentra em banco de investimento e em gestão de ativos e patrimônio. Do outro lado do balanço, a linha de receitas financeiras e outras receitas — que respondeu por 17% da receita total no primeiro semestre de 2026 — tende a ganhar com o juro alto. Esse contrapeso ajuda a explicar por que o UBS BB projeta quedas bem menores no lucro do banco: 5% em 2027 e 6% em 2028.

Nu e Inter: o preço já embute parte do risco

Na avaliação do UBS BB, a Nu (ROXO34) tem dois vetores de curto prazo em direções opostas. Programas de renegociação de dívidas, na linha do Desenrola, ajudariam a qualidade dos ativos; uma desvalorização do real frente ao dólar, por sua vez, prejudicaria o resultado quando convertido para a moeda americana. O papel negocia a 13,8 vezes o lucro projetado para 2027, bem abaixo de pares internacionais como Wise, Capitec, PayPal e SBI Card. Parte desse desconto, segundo o relatório, reflete a taxa de desconto mais alta aplicada às operações brasileiras.

O Inter virou o caso oposto: hoje o papel tem prêmio sobre o Bradesco, negociando a 9,6 vezes o lucro estimado para 2026 e a 1,4 vez o valor patrimonial projetado — contra 7,7 vezes e 1,2 vez do Bradesco. Para o UBS BB, a combinação de avaliação mais rica, sensibilidade acentuada a mudanças no custo de capital próprio (o retorno mínimo que o acionista exige para manter a ação) e o impacto de juros mais altos sobre os resultados abre espaço para correção relevante no curto prazo.

BancoP/L 2026Preço/valor patrimonial 2026
Inter9,6x1,4x
Bradesco7,7x1,2x
Itaú10,4x2,4x

Múltiplos citados pelo UBS BB; no caso da Nu, a referência é 13,8 vezes o lucro projetado para 2027.

Bancos tradicionais: crédito trava, margem resiste, imposto alivia

Nos grandes bancos, o UBS BB projeta carteiras de crédito crescendo menos, com o freio mais forte no corporativo: juro mais alto encurta a capacidade de pagamento das empresas, enquanto o endividamento das famílias segue pressionando o custo do risco de crédito. As margens financeiras devem sofrer menos. O custo de captação pode subir mais rápido do que as taxas cobradas nos empréstimos, mas parte desse aperto é compensada por spreads (a diferença entre o que o banco paga para captar e o que cobra para emprestar) maiores, para refletir o risco de crédito adicional.

As tarifas continuam sob pressão, com banco de investimento, gestão de ativos e cartões na linha de frente; nas despesas operacionais, a casa não vê mudanças relevantes. Há ainda um alívio tributário: o benefício fiscal ligado aos juros sobre capital próprio (JCP, a remuneração paga ao acionista com tratamento fiscal favorecido) cresce junto com a taxa básica. O UBS BB calcula que cada 100 pontos-base de alta nos juros longos derruba a alíquota efetiva da instituição em 1,5 a 2 pontos percentuais.

Itaú e Bradesco entram com o múltiplo como amortecedor

Bradesco, Itaú e Itaúsa subiram apenas um pouco acima do Ibovespa na onda de otimismo com corte de juros e possível troca de poder antes do resultado eleitoral. Esse desempenho contido, na avaliação do UBS BB, reduz o espaço para uma correção mais violenta desses papéis na comparação com instituições que já vinham mais valorizadas.

O Bradesco (BBDC4) soma a isso um desconto que limita uma reprecificação negativa: o papel negocia a 7,7 vezes o lucro projetado para 2026 e a 1,2 vez o valor patrimonial estimado para o mesmo ano. O Itaú (ITUB4) seria menos afetado por um cenário de juros mais baixos, de modo que a reversão das expectativas de queda teria impacto relativamente pequeno nos seus resultados — mas a avaliação é mais alta, a 10,4 vezes o lucro de 2026 e 2,4 vezes o valor patrimonial, com prêmio ou em linha com Banorte e Credicorp. Com esses múltiplos, o UBS BB vê correção provável nas ações do Itaú.

O que observar daqui para frente

O setor deixou de ser uma aposta única: o que separa os papéis agora é o grau de dependência de captação, de produtos de risco e de múltiplo. Três variáveis concentram a atenção — o patamar do prefixado longo, cujo 15,2% para 2037 é o termômetro mais direto, o tamanho do ajuste fiscal que vier a ser anunciado e a velocidade da expansão do crédito corporativo. Na margem, o benefício fiscal do JCP funciona como colchão parcial, enquanto o desconto de múltiplos de Bradesco e Nu cria amortecedores assimétricos em relação a Inter e Itaú.