Juros futuros caem com IPCA-15 a 0,70%: por que o alívio resistiu ao dado quente

As taxas dos juros futuros fecharam em queda na sexta-feira (25), mesmo com a prévia da inflação oficial muito acima do previsto. O DI (Depósito Interfinanceiro, taxa que baliza o custo do dinheiro entre bancos e serve de referência para toda a curva de juros) com vencimento em janeiro de 2028 encerrou a 13,645%, baixa de 2 pontos-base sobre o ajuste de 13,667% da sessão anterior. Na ponta longa, o contrato de janeiro de 2035 marcou 13,98%, recuo de 7 pontos-base frente aos 14,054% da véspera.

O dado que destoa desse movimento é o IPCA-15 de setembro: 0,70% de avanço no mês, depois de recuar 0,40% em agosto. Na leitura de 12 meses, o indicador saltou para 4,47%, contra 4,24% no mês anterior. Economistas ouvidos pela Reuters trabalhavam com altas menores, de 0,53% no mês e 4,30% no acumulado anual — o resultado superou as duas projeções. O contraste entre os dois movimentos dá o tom da sessão: a curva futura cedeu na direção oposta à do dado de preços.

Serviços: a aceleração que a média esconde

A abertura do indicador mostra que o avanço dos preços de serviços saiu de 0,07% em agosto para 0,59% em setembro. A taxa de serviços subjacentes, que descarta itens mais voláteis, passou de 0,50% para 0,28% nos cálculos do Bmg. Já a inflação de serviços intensivos em mão de obra ficou praticamente estável, de 0,55% para 0,56%. Pelos cálculos do banco, a média dos núcleos monitorados pelo Banco Central subiu de 0,22% para 0,34%.

IndicadorAgostoSetembro
IPCA-15 (mês)-0,40%0,70%
IPCA-15 (12 meses)4,24%4,47%
Serviços0,07%0,59%
Serviços subjacentes0,50%0,28%
Serviços intensivos em mão de obra0,55%0,56%
Média dos núcleos do BC0,22%0,34%

O que explica a queda do DI em dia de inflação forte

Dois vetores fora do Brasil ajudam a explicar por que a curva local cedeu. O petróleo Brent perdeu força depois de acumular ganhos expressivos nas sessões anteriores, mas ainda se manteve em patamar elevado, na casa dos US$104 o barril no fim da tarde. O movimento embute a expectativa de um possível acordo de paz entre EUA e Irã, embora ataques dos houthis à Arábia Saudita sigam alimentando o risco de oferta da commodity.

Nos Estados Unidos, os rendimentos dos Treasuries de dez e 30 anos voltaram a subir. Às 16h33, o retorno do título de dez anos — referência global para decisões de investimento — avançava 1 ponto-base, a 5,171%, refletindo a preocupação dos agentes com a continuidade do conflito e com a inflação americana.

No plano doméstico, a corrida eleitoral segue no radar. Pesquisa Datafolha divulgada na noite de quinta-feira apontou Luiz Inácio Lula da Silva (PT) com 47% das intenções de voto contra 45% de Flávio Bolsonaro (PL-RJ) num eventual segundo turno. Como a margem de erro é de 2 pontos percentuais, os dois aparecem tecnicamente empatados. Na semana anterior, o placar era de 46% a 44%.

O que os economistas sinalizam para a Selic

Para o economista-chefe do Bmg, Flavio Serrano, o resultado de setembro não altera o cenário atual da Selic, hoje em 13,75%. Um novo corte no início de novembro dependerá, segundo ele, da dinâmica do boletim Focus, que hoje projeta mais uma redução de 25 pontos-base para os juros e uma inflação de 4,92% neste ano — distante da meta de 3%.

Na Genial Investimentos, o economista Gabriel Pestana enxerga no IPCA-15 um obstáculo extra para a aposta em um novo corte da Selic em novembro, diante de serviços aquecidos, núcleos acima do esperado e pressões nos preços de alimentos e combustíveis.

O que muda para quem acompanha a renda fixa

Para o investidor com posição em títulos atrelados à curva de juros, o dia combinou dois sinais que costumam apontar em direções opostas: prêmios menores na ponta longa e uma prévia de inflação acima do esperado. Historicamente, uma inflação de serviços mais resistente tende a reduzir o espaço para quedas rápidas da Selic, o que mexe com a atratividade relativa de prefixados e pós-fixados e com a marcação a mercado das carteiras.

O que observar daqui para frente são os próximos números de serviços e a trajetória do Focus, insumos citados pelos próprios economistas como decisivos para a leitura de novembro.