O primeiro pregão depois do primeiro turno das eleições fez do setor financeiro o epicentro da alta da Bolsa. Às 10h55 desta segunda-feira (5), a B3 (B3SA3) marcava R$ 23,37, com valorização de 23,00%; o BDR da XP (XPBR31) — recibo negociado na B3 que representa ação de companhia estrangeira — era cotado a R$ 138,11, alta de 23,09%; e o BTG (BPAC11) aparecia a R$ 81,53, com alta de 23%. O Ibovespa subia perto de 8% no mesmo intervalo, ultrapassava a marca dos 208 mil pontos e anotava novo recorde histórico.

Entre os grandes bancos, os ganhos também vieram em dois dígitos: às 10h56, o Itaú (ITUB4) registrava 11,98% de alta, o Bradesco (BBDC4) acumulava 12,74% e o Banco do Brasil (BBAS3) somava 13,58%.

A distinção que interessa a quem tem posição em bolsa é esta: a alta se sustenta em expectativa, não em medida já implementada. O que o mercado passou a precificar foi a perspectiva de mais controle sobre a dívida pública e de alterações na política fiscal — uma aposta sobre o que pode vir, não sobre o que já está em vigor.

O ajuste na curva de juros futuros

Os juros negociados no mercado futuro — os DIs, referência para o custo do dinheiro em diferentes prazos — recuaram com força depois da apuração. Bruno Perri, economista-chefe e sócio-fundador da Forum Investimentos, atribui o movimento a uma releitura das contas públicas, que forçou um reposicionamento expressivo ao longo da curva de juros.

O efeito prático aparece em duas frentes. Encolhe o retorno ao qual o investidor renuncia quando escolhe ações em vez de títulos públicos, e cai a taxa que o mercado aplica para trazer ao valor de hoje os lucros que as companhias devem gerar adiante.

Flávio Bolsonaro (PL) somou 47,03% dos votos válidos no primeiro turno, enquanto Luiz Inácio Lula da Silva (PT) ficou com 45,16%. A nova composição do Congresso e dos governos estaduais também entrou nessa conta.

Bancos: o canal do crédito

Nos bancos, além do efeito geral da queda dos juros, existe um canal específico de crédito. Com taxas futuras menores, o financiamento tende a ficar mais barato para famílias e empresas, e a inadimplência perde força — cenário que Perri lê como sinal de uma desalavancagem, a redução do endividamento, menos intensa. Esse conjunto ajuda a explicar por que as instituições financeiras superaram o próprio índice.

AtivoVariaçãoCotação/PatamarHorário
B3 (B3SA3)+23,00%R$ 23,3710h55
XP (XPBR31)+23,09%R$ 138,1110h55
BTG (BPAC11)23%R$ 81,5310h55
Itaú (ITUB4)+11,98%—10h56
Bradesco (BBDC4)+12,74%—10h56
Banco do Brasil (BBAS3)+13,58%—10h56
Ibovespa≈8%acima de 208 mil pontos10h55–10h56

B3 e XP: receita colada ao giro do mercado

Nas duas companhias, o negócio está amarrado à atividade do mercado financeiro. Mais fluxo para ações, volumes negociados em alta e uma eventual retomada das captações tendem a se converter em receita nas frentes de negociação, distribuição e investimentos.

O mesmo raciocínio vale para a disputa entre renda fixa e renda variável: com juros menores, a bolsa ganha apelo comparativo, e companhias cuja receita depende da presença do investidor no mercado captam essa mudança de forma mais direta.

Dólar, fluxo estrangeiro e o marco de 25 de outubro

O câmbio também reagiu. Na leitura de Perri, dois canais explicam o dólar mais fraco: o risco-Brasil percebido como menor e a perspectiva de ingresso de capital externo na bolsa, o que ampliaria a oferta de moeda americana por aqui. Antes da abertura, levantamentos com investidores institucionais já sinalizavam aposta em juros menores e em valorização dos ativos brasileiros.

Depois de uma alta dessa magnitude, realizações parciais de lucro tendem a aparecer, e o calendário oferece um marco claro: o segundo turno, em 25 de outubro. Até lá, cada nova sinalização política tem potencial de mexer com os preços, o que mantém o setor financeiro no radar de quem acompanha a bolsa.