Na manhã desta segunda-feira (5), por volta das 11h13, as ações da Suzano (SUZB3) recuavam 4,78% e figuravam entre as maiores baixas do Ibovespa, enquanto o índice avançava 8,14% no mesmo intervalo. A explicação para a divergência está fora do balanço da companhia: o dólar futuro cedia 4,75%, a R$ 5,0005.

O recuo dos papéis espelha quase exatamente a queda do câmbio — 4,78% contra 4,75%, percentuais praticamente idênticos que resumem o pregão. Para uma exportadora, o dólar é parte da equação de receita. A venda ao exterior é faturada em moeda estrangeira e, na consolidação do balanço, convertida para reais. Com a moeda americana mais barata, cada dólar embarcado rende menos em moeda nacional, o que tende a comprimir a receita reportada e, por consequência, a percepção de valor dos papéis.

Exportadoras caem juntas, mas com perdas de tamanhos diferentes

O movimento não ficou restrito à Suzano. Outras três companhias com exposição ao mercado externo também operavam em baixa no mesmo horário, ainda que com perdas menores.

EmpresaTickerVariação por volta das 11h13
SuzanoSUZB34,78% de queda
EmbraerEMBJ33,19% de queda
WEGWEGE31,26% de queda
KlabinKLBN110,48% de queda

A dispersão serve como termômetro da exposição cambial que o mercado atribui a cada companhia, e não como veredito sobre os fundamentos do negócio. O gatilho do dia, portanto, não está na operação de nenhuma delas, e sim no preço da moeda americana — enquanto o Ibovespa subia 8,14%, puxado por outra força.

O primeiro turno que reordenou as apostas do mercado

A alta expressiva do índice não vem das exportadoras: vem da política. A apuração do primeiro turno terminou com Flávio Bolsonaro (PL-RJ) em 47,03% dos votos válidos, contra 45,16% do presidente Luiz Inácio Lula da Silva (PT) — resultado diferente do que as pesquisas de intenção de voto sinalizavam antes da votação.

O desempenho do senador nas urnas passou a sustentar, na leitura de investidores, a chance de uma agenda com ajuste fiscal e reformas — entre elas, uma nova rodada da reforma da Previdência. O segundo turno está marcado para 25 de outubro, e as negociações de alianças que o antecedem concentram agora as atenções do mercado.

Para o chefe global de mercados do ING, Chris Turner, “Com Bolsonaro concorrendo com uma plataforma de austeridade fiscal e desregulamentação, espere uma alta tanto da moeda quanto do mercado de títulos”

O que o pregão muda para quem tem exportadora em carteira

Para o investidor com exposição a companhias exportadoras, o dia diz mais sobre câmbio do que sobre a operação dessas empresas. Real mais valorizado tende a reduzir a receita em reais de quem vende para fora, e esse efeito costuma aparecer no preço antes de qualquer alteração chegar ao balanço.

Do outro lado, o humor do mercado segue pendurado no calendário político. O desenho das alianças para o segundo turno deve continuar influenciando as apostas até 25 de outubro. Para quem acompanha o setor, sobram duas variáveis para monitorar em paralelo: a cotação do dólar futuro e o noticiário eleitoral.