A Suzano (SUZB3) mapeou 388.356 hectares de sua base florestal com algum grau de sensibilidade ambiental. O dado aparece no primeiro relatório TNFD da empresa, cujo levantamento cobriu 2,9 milhões de hectares. A fatia sensível equivale a 13,4% desse universo.

A companhia também constatou que nenhuma unidade industrial ou portuária do estudo escapou de ao menos um cruzamento com os critérios ambientais e sociais. Segundo a empresa, o indicador não aponta degradação nem perda imediata de valor: ele sinaliza onde a operação se apoia mais na natureza, tende a causar impacto relevante ou fica mais exposta a pressões como escassez de água, biodiversidade, comunidades e fragilidade de ecossistemas.

O que o TNFD mede — e o que ele não é

TNFD é a abreviatura de Taskforce on Nature-related Financial Disclosures — a Força-tarefa para Divulgações Financeiras Relacionadas à Natureza. O conjunto de recomendações orienta companhias a revelar como dependem de recursos naturais, que impactos provocam e quais riscos e oportunidades derivam dessa relação. A entrega se divide em quatro pilares: governança; estratégia; a gestão de riscos e impactos; e as métricas e metas.

Não se trata de certificado ambiental, selo de sustentabilidade ou nota atribuída à empresa. O TNFD funciona como um roteiro que reúne informações normalmente dispersas entre diferentes áreas da companhia.

Numa fabricante de celulose, fatores como acesso à madeira, qualidade do solo, controle biológico, disponibilidade de água e regulação do clima estão atados à capacidade de produzir. Quando esses recursos ficam escassos ou instáveis, historicamente tendem a aparecer custos extras, produtividade menor e a exigência de novos aportes.

Como os 388.356 hectares foram identificados

A Suzano adotou a metodologia LEAP, recomendada pelo próprio TNFD. A sigla corresponde a quatro passos: identificar onde a companhia toca a natureza, medir dependências e impactos, examinar riscos e oportunidades e, por fim, definir respostas.

Entraram no levantamento desde fazendas próprias até áreas arrendadas, fundos e parcerias, somadas às operações industriais e portuárias do perímetro. Além disso, a análise cobriu um raio de três quilômetros em torno de cada área florestal. Quatro critérios definiram o resultado:

  • integridade dos ecossistemas;
  • risco de escassez hídrica;
  • relevância para a biodiversidade;
  • presença de comunidades tradicionais e de outras áreas de peso social.

Segundo a empresa, esse mapeamento já ajuda a priorizar iniciativas de conservação, restauração e conexão de vegetação nativa.

O que muda para quem tem o papel na carteira

O principal ganho é de visibilidade. O relatório expõe riscos que não aparecem de imediato no balanço financeiro, o que amplia o conjunto de informações disponíveis para avaliar a companhia.

Nas operações florestais, a Suzano apontou dependências ligadas ao fornecimento de água, à retenção do solo, ao controle biológico, à regulação dos fluxos hídricos e à estabilidade do clima. No lado industrial, entram ainda água, biomassa e a purificação de recursos hídricos, sem contar a barreira natural que amortece tempestades e cheias.

A lista de riscos inclui desde mudanças na legislação ambiental e a regulamentação do mercado de carbono brasileiro até exigências internacionais mais duras, passando por conflitos com comunidades, paralisações causadas por protestos, variações nos fluxos de água, enchentes e obstáculos para obter a madeira que alimenta a biomassa. Esses fatores podem pesar sobre produção, custos, necessidade de investimentos, licenças, reputação e acesso a mercados.

MétricaValor
Base florestal avaliada2,9 milhões de hectares
Área com sensibilidade388.356 hectares
Fatia da base avaliada13,4%
Raio de influência analisado3 quilômetros

O documento, porém, não estima em reais quanto cada risco poderia custar aos resultados da companhia.

Oportunidades e as lacunas que permanecem

A mesma estrutura também organiza oportunidades. A companhia conecta a pauta de natureza ao avanço de bioprodutos, à criação de créditos de carbono, a um uso mais eficiente dos recursos e ao acesso a instrumentos como títulos verdes, Sustainability-Linked Bonds e linhas atreladas a metas de sustentabilidade.

Nada disso assegura que o papel vai subir. O que se ganha é a chance de checar, com mais elementos, se a companhia é capaz de resguardar seus ativos, antecipar mudanças regulatórias e captar recursos em condições competitivas.

Na primeira edição, o TNFD da Suzano abrange só as operações diretas no Brasil. Três frentes ficaram de fora: a operação conjunta com a Veracel, a Suzano Packaging e a Arbex, esta última uma joint venture montada com a Kimberly-Clark. O diagnóstico sobre dependências e impactos ficou no plano geral, sem abrir por unidade.

A própria Suzano admite que a avaliação da cadeia de valor precisa crescer e que as análises de riscos, impactos e oportunidades ainda carecem de tratamento mais quantitativo. O ponto pesa para quem acompanha o papel: o relatório amplia a transparência, mas não permite medir de forma direta o efeito de cada risco sobre receita, custos, investimentos ou caixa. A empresa diz que vai ampliar o escopo de forma gradual e trazer novos dados a cada ciclo.