A dívida bruta do Brasil já chega a 83% do PIB e avança perto de 3 pontos percentuais por ano. Esse é o dado que, na avaliação da XP Investimentos, tende a pesar mais sobre a bolsa do que o preço dos papéis: no Raio-XP de outubro, a corretora manteve postura construtiva para o Ibovespa, mas amarrou o cenário à trajetória fiscal e ao comportamento dos juros longos.

Dívida bruta a 83% do PIB ancora a leitura para 2026

A projeção da XP para o fim de 2026 segue em 200 mil pontos — cerca de 7% acima do nível atual do índice. O número vem acompanhado de dois extremos: no cenário otimista, o Ibovespa chegaria a 248 mil pontos; no pessimista, recuaria a 165 mil pontos. A largura dessa faixa revela o peso que a eleição presidencial e a sinalização fiscal do próximo governo carregam na conta.

A dívida bruta em 83% do PIB, avançando 3 pontos percentuais ao ano, é o eixo que organiza toda a tese.

Os estrategistas Fernando Ferreira, Raphael Figueiredo, Caio Souza e Antonio Mello destacam que o mercado vive uma encruzilhada às vésperas do pleito. Na prática, isso significa que os investidores devem monitorar os sinais de política fiscal do governo e do Congresso a partir de 2027, ano em que o novo mandato começa a dar forma ao orçamento.

Desconto de 49% frente às bolsas globais: o Ibovespa em três múltiplos

O argumento de barganha se sustenta no múltiplo. A bolsa brasileira negocia a cerca de 8,5 vezes o preço sobre o lucro projetado — o P/L, indicador que relaciona o valor de mercado de uma companhia ao lucro estimado para os próximos períodos. Nessa base, o desconto alcança 15% na comparação com os mercados emergentes e 49% frente às bolsas globais.

ReferênciaValor
Múltiplo P/L do Ibovespa8,5x
Desconto vs. emergentes15%
Desconto vs. bolsas globais49%
Alvo para o fim de 2026200 mil pontos
Cenário otimista248 mil pontos
Cenário pessimista165 mil pontos

Mesmo com o desconto, a XP não trata o valuation como gatilho suficiente. A dinâmica dos juros longos e as dúvidas sobre o equilíbrio das contas públicas continuam a ditar o apetite por risco — o que explica por que um mercado barato pode seguir barato por mais tempo.

R$ 9,6 bilhões: o estrangeiro voltou, mas segue em compasso de espera

O fluxo externo trocou de sinal em setembro. Após retiradas de R$ 18 bilhões do mercado à vista em agosto, os estrangeiros aportaram R$ 9,6 bilhões no mês seguinte. Para a corretora, parte desse dinheiro sinaliza posicionamento antecipado para a eleição, mas a maior fatia do capital externo permanece à espera de mais clareza sobre o quadro macroeconômico e político antes de elevar a exposição ao Brasil.

Para quem acompanha o mercado, o fluxo estrangeiro funciona como termômetro: enquanto ele não se firma, a bolsa tende a depender de fatores domésticos, como a curva de juros e o noticiário fiscal, para definir direção.

Cestas por cenário: da política alternativa à proteção cambial

A corretora organizou carteiras temáticas para quatro leituras distintas de cenário, cada uma com um grupo de empresas que tende a reagir de forma diferente às mudanças de humor.

CenárioCaracterísticaAtivos citados
Política AlternativaAmbiente mais amigável ao mercadoPetrobras (PETR4), Banco do Brasil (BBAS3), Sabesp (SBSP3), B3 (B3SA3), Localiza (RENT3)
Deterioração fiscalDefensivas e expostas ao dólarAura (AURA33), Petrobras (PETR4), Gerdau (GGBR4), WEG (WEGE3), Suzano (SUZB3)
Real valorizadoBaixa exposição ao dólar e foco domésticoRede D'Or (RDOR3), Lojas Renner (LREN3), C&A (CEAB3), Cyrela (CYRE3), Allos (ALOS3) e empresas de utilidade pública e infraestrutura
Real desvalorizadoExportadoras e receita dolarizadaPrio (PRIO3), Vale (VALE3), Suzano (SUZB3), Klabin (KLBN11), JBS (JBSS32), MBRF (MBRF3)

A lógica por trás das duas últimas cestas é a exposição cambial. Companhias com receita doméstica costumam capturar a melhora da percepção de risco e a queda dos juros que acompanham o real mais forte. Já exportadoras ou empresas com faturamento atrelado à moeda americana tendem a operar como proteção em fases de enfraquecimento do real.

Carteira de outubro: BTG, Iguatemi e Sabesp ganham peso

Na carteira recomendada para outubro, a XP elevou de forma modesta o nível de risco. O BTG Pactual (BPAC11) subiu de 5% para 10%, com a justificativa de exposição ao mercado de capitais e qualidade da franquia. A Iguatemi (IGTI11) também foi a 10%, com base na qualidade dos ativos e no potencial de ganho com a queda dos juros longos.

A Sabesp (SBSP3) reforçou participação de 7,5% para 10%: segundo a casa, a companhia está entre as preferidas dos estrangeiros e deve se beneficiar de uma retomada dos fluxos para o Brasil. Na outra ponta, a Rede D'Or (RDOR3) caiu de 10% para 5% após a valorização recente dos papéis, e a Gerdau (GGBR4) recuou de 10% para 5%, abrindo espaço para ativos mais ligados ao ciclo doméstico.

O que observar daqui para frente

O cenário montado pela XP depende de variáveis que ainda não têm resposta. A primeira é a política fiscal: sem sinalização crível de controle da dívida, o prêmio exigido pelos investidores tende a permanecer elevado. A segunda é o fluxo externo, que voltou em setembro, mas ainda não se converteu em movimento consistente.

Para o investidor pessoa física, o ponto central é que a bolsa brasileira combina um desconto relevante frente ao exterior com um risco fiscal que cresce a cada ano. Essa mistura tende a produzir um mercado mais sensível ao noticiário doméstico do que ao desempenho das empresas no curto prazo. O Ibovespa barato, portanto, não elimina a necessidade de olhar para o que acontece fora dele — eleições, contas públicas e juros longos seguem no comando.