O pregão desta segunda-feira (5) abriu com as taxas do Tesouro Direto em queda ampla, no primeiro dia de negociação depois do primeiro turno das eleições presidenciais. Na ponta longa dos prefixados, o papel com juros semestrais e vencimento em 2037 passou a pagar 13,00% ao ano, contra 14,28% no fechamento da sexta-feira (2) — 1,28 ponto percentual, ou 128 pontos-base, a maior variação entre os títulos prefixados. O horário de abertura, 11h28 de Brasília, ficou mais tarde que o padrão.

O que 1,28 ponto a menos faz com quem já tem o papel

Na renda fixa pública, taxa e preço caminham em direções contrárias. É a marcação a mercado: o valor de revenda de um título já emitido sobe quando as taxas de mercado caem, porque o papel antigo passa a render mais que as novas emissões. Para quem comprou prefixados longos com a curva mais alta, a sessão desta segunda tende a aparecer como ganho no extrato — contábil, já que o retorno só se confirma na venda ou no vencimento.

O outro lado da moeda é o dinheiro que entra agora. O rendimento travado para o mesmo prazo encolhe na mesma medida da queda: 1,28 ponto a menos na taxa de 2037 vale para toda a vida do papel. Esse duplo efeito — alívio na carteira antiga, retorno menor na nova — é o que faz uma manhã como esta pesar mais para o investidor pessoa física do que para o humor do mercado.

Prefixados longos: 2037 sai de 14,28% para 13,00%

TítuloSexta (2)Segunda (5), 11h28Variação
Prefixado com Juros Semestrais 203714,28%13,00%−1,28 p.p.
Prefixado 203214,21%12,95%−1,26 p.p.
Prefixado 202913,84%12,74%−1,10 p.p.
IPCA+ 2050IPCA + 7,08%IPCA + 6,32%−0,76 p.p.
IPCA+ 2032IPCA + 7,66%IPCA + 6,91%−0,75 p.p.
IPCA+ 2040IPCA + 7,25%IPCA + 6,50%−0,75 p.p.

Os prefixados ficaram com as maiores quedas da abertura. O Prefixado 2032 cedeu 126 pontos-base, recuando para 12,95% e deixando para trás os 14,21% do fechamento anterior. Já o Prefixado 2029 recuou 110 pontos-base, para 12,74%, ante 13,84% na sexta-feira.

IPCA+ 2050 puxa a queda do juro real

Entre os papéis indexados ao IPCA, os recuos variaram de 65 a 76 pontos-base. O maior deles ficou com o IPCA+ 2050, cuja taxa passou de 7,08% para 6,32% acima da inflação. IPCA+ 2032 e IPCA+ 2040 perderam 75 pontos-base cada, para 6,91% e 6,50% de juro real. Entre os papéis com cupom semestral — vencimentos de 2037, 2045 e 2060 —, as quedas ficaram em 70, 65 e 72 pontos-base.

A taxa acima do IPCA mede o ganho real do título: o piso de poder de compra que o investidor assegura ao levar o papel até o vencimento. Com o juro real mais baixo, a proteção contra a inflação fica menos remunerada para quem monta posição depois do movimento.

Arcabouço fiscal e troca de poder: o que a curva já embute

Com 99,99% das urnas apuradas, o TSE apontou 47,03% dos votos válidos para Flávio Bolsonaro (PL) e 45,16% para Lula (PT). A definição do próximo presidente sai em 25 de outubro, e o PL conquistou a maior bancada da Câmara dos Deputados.

O economista-chefe e sócio-fundador da Forum Investimentos, Bruno Perri, relacionou o recuo dos juros futuros à expectativa de uma nova âncora para as contas públicas.

Para Marcelo Bassani, economista e fundador da Boa Brasil Capital, a chance de mudança no comando do Executivo é lida como positiva pelo mercado e também empurra as taxas futuras para baixo. Felipe Balassiano, da gestora ASA, trabalhava com a mesma direção para os juros nominais e reais.

25 de outubro, volatilidade e o freio do endividamento global

Marcelo Boragini, especialista em renda variável da Davos Investimentos, avaliou em comentário divulgado no domingo (4) que a curva tenderia a fechar no primeiro pregão da semana, com ênfase nos vencimentos mais longos, e chamou atenção para a chance de realização de lucros depois de um início de sessão mais forte. “Acho que volatilidade, de fato, vai ser o nome do jogo ainda”, afirmou ele.

Alexandre Pletes, head de renda variável da Faz Capital, também trabalhava com fechamento da curva, mas via um freio no exterior: há uma onda global de juros em alta, atrelada ao endividamento dos governos, que limita o fechamento das taxas brasileiras.

Na prática, o recuo de até 1,28 ponto desta segunda convive com duas forças opostas — a política doméstica, que empurra as taxas para baixo, e o cenário externo, que trava o movimento. Com a decisão eleitoral marcada para 25 de outubro, a curva de juros tende a seguir sensível a cada nova pesquisa e a cada sinal sobre o desenho fiscal do próximo governo.