Bradesco puxa rali dos bancos no primeiro pregão pós-urnas

No primeiro pregão depois do primeiro turno das eleições, o Bradesco (BBDC4) figurou entre os destaques de alta da Bolsa brasileira. Perto das 13h20, o papel aparecia a R$ 21,98, com 14,30% de valorização, depois de tocar R$ 22,10 no melhor momento do dia. O Ibovespa, por sua vez, ganhava 8,88% e marcava 209.175 pontos, após cravar 209.605 pontos na máxima — um recorde intradiário. O desempenho do papel ficou bem acima do avanço do próprio índice, e a força não ficou restrita a ele.

A valorização se espalhou por todo o setor financeiro na mesma janela. O Banco do Brasil (BBAS3) valorizava 12,23%, o Itaú (ITUB4) ganhava 11,64% e a Itaúsa (ITSA4) marcava 11,25%. Entre as companhias ligadas ao mercado de capitais, o movimento era ainda mais forte: a XPBR31 subia 27,75%, o BPAC11 avançava 26,99% e a B3SA3 ganhava 26,89%.

AtivoVariação por volta das 13h20
BBDC4+14,30%
BBAS3+12,23%
ITUB4+11,64%
ITSA4+11,25%
XPBR31+27,75%
BPAC11+26,99%
B3SA3+26,89%
Ibovespa+8,88%

Juros futuros em queda explicam a dianteira dos bancos

O gatilho do movimento está no recuo dos juros futuros. Depois da votação, o mercado passou a rever expectativas para a trajetória fiscal e, por consequência, para as taxas de longo prazo. Esse recuo tem efeito direto sobre o valor atribuído às ações, porque a taxa de desconto — o rendimento usado para trazer lucros futuros a valor presente — diminui.

Para os bancos, existe um segundo canal. Condições financeiras menos apertadas tendem a aliviar a pressão sobre empresas e famílias, o que ajuda a tornar as carteiras de crédito mais saudáveis e a diminuir a inadimplência. O duplo efeito — uma taxa de desconto menor sobre lucros futuros e um crédito com menos calote — ajuda a explicar por que as instituições financeiras superaram o Ibovespa.

Bruno Perri, economista-chefe e sócio-fundador da Forum Investimentos, aponta justamente para essa combinação. Segundo ele, os bancos se beneficiam da queda dos juros futuros e de um cenário em que a inadimplência de empresas e pessoas físicas pode perder força. Perri chama atenção ainda para o efeito da curva sobre os valuations: quando a taxa usada para trazer os fluxos de caixa futuros ao presente cai, o valor desses fluxos tende a subir, mantidas as demais condições.

BBI projeta Selic a 11% no fim de 2027

Um relatório recente do Bradesco BBI reforça o peso dos juros para a próxima etapa da Bolsa brasileira. O banco avalia que a economia perde ritmo mais rápido do que a curva indicava, e sua projeção para a Selic no encerramento de 2027 é de 11%, cerca de 2,5 pontos percentuais mais baixa do que a curva vigente na data do relatório.

Na leitura do BBI, juros menores ajudam as ações por dois caminhos. Um deles é o custo de capital menor, que reduz a taxa com que os resultados futuros são trazidos a valor presente. O outro é a chance de o investidor sair de aplicações atreladas ao CDI e ampliar a fatia em ativos de risco.

O BBI acrescenta uma condição: esse quadro só se sustenta com credibilidade fiscal. Sem uma trajetória que estabilize a dívida, o prêmio cobrado nos juros longos tende a subir de novo.

Liquidez e fluxo estrangeiro favorecem os grandes bancos

Outro fator que ajuda a entender o desempenho de BBDC4 é a elevada liquidez das ações dos grandes bancos. Na avaliação de Lucas Xavier, head da mesa de renda variável e sócio da AW Capital, escala, liquidez e um histórico de superação de diferentes ciclos econômicos são atributos das maiores instituições financeiras do país. Para o executivo, esse conjunto de atributos faz das instituições financeiras uma das portas de entrada preferidas de quem vem de fora e precisa montar posição no Brasil em pouco tempo.

É esse tipo de característica que ajuda a explicar a dianteira de Bradesco, Itaú e Banco do Brasil em relação ao índice na sessão. XP, BTG Pactual e B3 registraram movimento ainda mais forte porque dependem, de forma mais direta, do giro do mercado de capitais. Se o dinheiro hoje aplicado em renda fixa migrar para a bolsa, tendem a crescer o volume negociado, a distribuição de produtos de investimento e outras receitas ligadas a esse mercado.

Reprecificação de expectativas, não política implementada

Marcelo Bassani, economista e fundador da Boa Brasil Capital, faz uma leitura parecida: para ele, o que move os preços nesta segunda-feira é a revisão das expectativas fiscais. Na leitura do economista, ações, câmbio e juros se movem juntos porque os investidores estão revendo o que esperam da condução da política econômica.

As urnas provocaram uma reprecificação ampla dos ativos brasileiros: o Ibovespa subiu mais de 8% e o real ganhou força. Parte dos investidores interpreta que o novo quadro político pode trazer mais disciplina fiscal, mas o que for efetivamente adotado só se saberá após o segundo turno e com as escolhas do próximo governo. A incerteza eleitoral, portanto, segue elevada: o movimento reflete expectativas embutidas nos preços, e não mudanças de política já implementadas.

O que observar até 25 de outubro

A velocidade da alta exige atenção às oscilações ao longo do pregão. Na avaliação de Bassani, os investidores ainda processam o que as urnas entregaram, e o vaivém dos preços pode continuar intenso. A dimensão do ajuste aparece nos próprios preços: a Bolsa marcou máxima histórica e o real se valorizou com força no dia.

O segundo turno acontece em 25 de outubro. Até a votação, pesquisas, falas dos candidatos e sinais sobre a política econômica devem seguir mexendo com juros, câmbio e ações.