O primeiro turno das eleições de 2026 destravou um movimento de alívio na curva de juros futuros já na abertura desta segunda-feira (5 de outubro). Perto das 9h40, horário de Brasília, o Depósito Interfinanceiro (DI) — taxa que baliza boa parte do crédito e da renda fixa no país — com vencimento em janeiro de 2027 aparecia a 13,386%, depois de recuar 124 pontos-base frente aos 13,510% do fechamento anterior. Cada ponto-base corresponde a 0,01 ponto percentual.
O recuo alcançou todos os vencimentos, mas não com a mesma intensidade. No câmbio, o dólar caiu 4% na abertura, na mesma direção do alívio nos juros. E o contraste que dá o tom da sessão vem de fora: enquanto a curva brasileira cede, os títulos do Tesouro norte-americano, os Treasuries, seguem nas máximas de décadas, com o petróleo negociado acima de US$ 100 o barril.
Curto prazo cede 124 pontos-base; ponta de 2036 recua bem menos
O vencimento de médio prazo, o DI de janeiro de 2029, marcava 12,830% — na mínima do dia — com queda de 86 pontos-base frente ao fechamento anterior. Já o contrato de janeiro de 2036, o mais longo citado, recuava 9 pontos-base, também na mínima intradia, para 13,185%, contra 14,085% registrados na sexta-feira (2).
| Vencimento | Queda no dia | Taxa | Comparação |
|---|---|---|---|
| DI janeiro de 2027 | 124 pontos-base | 13,386% | 13,510% (fechamento anterior) |
| DI janeiro de 2029 | 86 pontos-base | 12,830% (mínima intradia) | fechamento anterior |
| DI janeiro de 2036 | 9 pontos-base | 13,185% (mínima intradia) | 14,085% (2 de outubro) |
A diferença de intensidade entre os trechos carrega informação. A curva de juros embute duas coisas: a expectativa para a taxa básica e o prêmio de risco — o retorno extra que o investidor exige para emprestar dinheiro ao governo por prazos longos. Quando o alívio se concentra nos vencimentos mais curtos e médios, o que está sendo reavaliado é sobretudo o risco doméstico, não a trajetória global dos juros.
Alianças até 25 de outubro e a expectativa de ajuste fiscal
A apuração confirmou um segundo turno entre o senador Flávio Bolsonaro (PL), que somou 47,03% dos votos válidos, e o presidente Luiz Inácio Lula da Silva (PT), com 45,16%. A definição está marcada para 25 de outubro.
Uma vitória do senador consolidaria um campo conservador no comando do Executivo, cenário que o mercado costuma associar a políticas vistas como favoráveis aos ativos locais — entre elas o ajuste fiscal há tempos esperado e uma possível nova reforma da previdência. Nada disso está contratado: a costura de alianças para o segundo turno segue no radar e é justamente essa incerteza que a curva terá de precificar nas próximas semanas.
Fora do Brasil, o vento sopra ao contrário
O movimento local destoa do que ocorre com a dívida pública americana. O retorno (yield) do Treasury de dois anos, o mais sensível à política monetária, operava estável a 4,825% por volta das 9h50 de Brasília. O papel de dez anos — referência para empréstimo imobiliário, financiamento de veículo e dívida de cartão de crédito nos EUA — subia para 5,303%, ante 5,277% da sexta-feira, num ambiente de petróleo acima de US$ 100.
Para a curva brasileira, isso funciona como um limite. Juros longos domésticos competem com a taxa oferecida pelo papel americano: quanto maior o retorno do Treasury, menor o espaço para a queda das taxas locais de prazo dilatado. É um dos fatores que ajudam a explicar por que a ponta de 2036 recuou menos que o vencimento de 2027.
O que muda para quem carrega renda fixa e ações
Taxas futuras menores tendem a chegar aos prêmios de novas emissões de renda fixa. Prefixados e títulos atrelados à inflação passam a oferecer retorno contratado inferior ao que estava disponível antes do primeiro turno, e o investidor que busca travar taxa encontra um cenário diferente do de semanas atrás.
Do lado das empresas, o recuo sinaliza expectativa de juros básicos menores à frente, combinação que historicamente costuma aliviar o custo de rolagem de dívidas e favorecer ativos de risco. O alívio, porém, tem prazo de validade: pesquisas, alianças e o tom dos discursos até 25 de outubro podem mexer na curva com a mesma força, em qualquer direção. E, com os juros longos americanos nas máximas de décadas e o petróleo acima de US$ 100, a ponta mais longa da curva brasileira tem menos espaço para ceder.
