As taxas dos contratos futuros de juros recuaram nesta terça-feira impulsionadas pela divulgação de um cenário de enfraquecimento na geração de postos formais no país. O contrato de Depósitos Interfinanceiros (DIs), instrumento que precifica os juros do mercado de renda fixa, com vencimento em janeiro de 2028 fechou em 14,005%, registrando baixa de 10 pontos-base em relação ao ajuste anterior de 14,107% e consolidando a sétima sessão consecutiva de quedas.

Dinâmica do Mercado de Trabalho e Sinalização do Copom

O Ministério do Trabalho e Emprego reportou, via Cadastro Geral de Empregados e Desempregados (Caged), a criação de 72.960 vagas formais em maio. O volume ficou aquém das 115.000 posições projetadas por economistas, repetindo o padrão de desaceleração verificado em abril. Vitor Kayo, economista sênior da Nomad, destacou que a divergência recorrente em relação às projeções indica perda de dinamismo no mercado formal. O analista ponderou que, embora não configure uma tendência de desaquecimento consolidada, o Banco Central monitorará o dado com rigor, especialmente diante do impulso de gastos em ano eleitoral e da desancoragem das expectativas de inflação. Esse panorama reforçou no mercado a precificação de um corte de 25 pontos-base na taxa básica de juros (Selic), atualmente em 14,25% ao ano, durante a reunião de agosto do Comitê de Política Monetária (Copom). A curva de juros reagiu com volatilidade intradia: o DI para janeiro de 2028 atingiu máxima de 14,185% (+8 pontos-base) às 10h16 e recuou para mínima de 13,975% (-13 pontos-base) às 16h12. Na ponta longa, janeiro de 2035 registrou 14,2%, queda de 8 pontos-base ante 14,276%.

Cenário para Agosto (Copom)Probabilidade (Sexta)Probabilidade (19/06)
Corte de 25 bps57,4%26,0%
Manutenção da Selic38,9%68,5%

Resultados Fiscais e a Trajetória da Dívida

Pela manhã, o Banco Central informou que o setor público consolidado apurou déficit primário de R$ 56,131 bilhões em maio, valor superior aos R$ 53,5 bilhões estimados pelo consenso e acima dos R$ 33,740 bilhões registrados no mesmo mês do ano anterior. No acumulado dos cinco primeiros meses de 2025, o rombo somou R$ 24,883 bilhões, invertendo o superávit de R$ 69,121 bilhões observado no mesmo período de 2024. O resultado pressionou a dívida bruta do governo para 81,1% do Produto Interno Bruto (PIB), patamar acima dos 80,7% projetados e dos dados preliminares do Tesouro Nacional, que já indicavam deterioração nas contas centrais. Alberto Ramos, diretor de pesquisa econômica da América Latina no Goldman Sachs, avaliou que a falta de controle nas despesas públicas prejudicou a credibilidade das metas fiscais e alimentou um cenário de economia superaquecida e excessivamente alavancada. Segundo o analista, uma âncora fiscal debilitada amplia os prêmios de risco e sustenta a desancoragem das expectativas inflacionárias de curto e médio prazos. Em linha com ajustes estruturais, o ministro da Fazenda, Dario Durigan, confirmou que, a partir de quarta-feira, será encerrada a subvenção de R$ 0,35 por litro ao diesel, mecanismo criado para amortecer choques de preços durante tensões geopolíticas no Oriente Médio.

Indicadores Norte-Americanos e Tensão Geopolítica

No cenário internacional, os rendimentos dos títulos soberanos dos Estados Unidos (Treasuries) avançaram, descolando-se da tendência local. O yield de dez anos subiu 6 pontos-base para 4,432% às 16h32, pressionado por negociações diplomáticas instáveis entre Washington e Teerã e pela ausência de reuniões agendadas em Doha. Paralelamente, o Departamento do Trabalho dos EUA divulgou o relatório Jolts (Job Openings and Labor Turnover Survey), revelando que as vagas em aberto cresceram 9.000, totalizando 7,594 milhões no encerramento de maio, sinalizando que a demanda por mão de obra do lado americano permanece resiliente.

O que isso significa para o investidor

O cruzamento de dados desenha um ambiente macroeconômico de forças opostas. A perda de ímpeto na geração de empregos reduz a pressão inflacionária pela via salarial e oferece base técnica para o início do ciclo de afrouxamento monetário. Contudo, os resultados fiscais negativos e a expansão da dívida bruta impõem um prêmio de risco adicional sobre os ativos domésticos, mantendo a curva de juros em níveis restritivos mesmo com arrefecimento da atividade. Para a gestão de carteiras, essa dualidade demanda atenção à duration (prazo médio de vencimento dos títulos) dos ativos: papéis prefixados e indexados ao IPCA podem oscilar enquanto a trajetória fiscal não convergir para as metas oficiais. O diferencial entre a Selic e os juros norte-americanos continuará ditando o fluxo de capitais e a formação da curva cambial. A precificação atual já embute maior probabilidade de redução na taxa básica, porém sinais de aceleração de preços ou piora nos indicadores de arrecadação podem recompor rapidamente as expectativas de alta.

Riscos Monitorados

  • Desancoragem persistente das expectativas de inflação de curto e médio prazo, elevando o custo real do crédito e limitando a amplitude dos cortes pela autoridade monetária.
  • Ciclo de despesas públicas em ano eleitoral, que compromete a consolidação das contas e acelera a trajetória ascendente da dívida bruta.
  • Persistência de juros elevados nos Estados Unidos, restringindo o espaço de manobra do Brasil para aliviar a política monetária sem impactar negativamente o câmbio.
  • Incertezas geopolíticas no Oriente Médio, com potencial de renovar pressões sobre commodities, custos logísticos e cadeias globais de suprimentos.

Os participantes do mercado financeiro acompanharão as próximas divulgações de índices de preços e de confiança da atividade econômica para validar a tese de desaceleração cíclica. A ata do próximo encontro do Copom e os balanços fiscais mensais subsequentes atuarão como catalisadores determinantes para a reavaliação da curva de juros e para o ajuste de posições em renda variável na B3.

As informações deste editorial foram produzidas pela redação do Ativo Virtual com base em reportagem publicada pelo(a) InfoMoney. Este conteúdo tem caráter exclusivamente informativo e não constitui recomendação de investimento. Decisões financeiras devem ser tomadas com o auxílio de um profissional certificado.