Principais pontos

  • O Tesouro Nacional colocou no mercado, nesta terça-feira (18), todos os 1,2 milhão de NTN-Bs (Notas do Tesouro Nacional - Série B, os papéis atrelados à inflação que o investidor pessoa física conhece como Tesouro IPCA+) ofertados.
  • Dos R$ 5,20 bilhões vendidos em papéis de inflação, R$ 3,34 bilhões, ou 64% do total, foram alocados apenas no vencimento 2031.
  • O rendimento dos títulos do Tesouro americano de 30 anos atingiu, na segunda-feira, o maior patamar desde 2007, provocando liquidação em mercados de renda fixa globais, do Japão aos Estados Unidos.

A seletividade do mercado após o vencimento bilionário

O Tesouro Nacional colocou no mercado, nesta terça-feira (18), todos os 1,2 milhão de NTN-Bs (Notas do Tesouro Nacional - Série B, os papéis atrelados à inflação que o investidor pessoa física conhece como Tesouro IPCA+) ofertados. A operação marca o maior leilão dessa classe desde abril e foi viabilizada por um vencimento histórico de R$ 260 bilhões na segunda-feira (17), que devolveu liquidez ao sistema e abriu espaço para novas emissões.

A leitura analítica desse movimento revela um comportamento seletivo dos investidores. Desde meados de junho, o Tesouro vinha reduzindo os lotes semanais diante de um ambiente marcado por dúvidas sobre a política fiscal, juros nominais elevados e riscos no cenário externo. O resultado do pregão demonstra que a preferência permanece concentrada na ponta curta da curva. Dos R$ 5,20 bilhões vendidos em papéis de inflação, R$ 3,34 bilhões, ou 64% do total, foram alocados apenas no vencimento 2031.

O economista Alexandre Cabral aponta que o papel de 2031 foi colocado com taxa inferior à negociada no mercado na véspera, enquanto os vencimentos de 2037 e 2060 ficaram próximos do fechamento anterior. Para Cabral, o volume precisa ser dimensionado pelo tamanho do vencimento prévio, ficando abaixo do esperado para a quantia que retornou ao mercado. A demanda mais fraca por prazos longos é atribuída à concorrência de títulos privados, a uma inflação implícita elevada — que reduz a taxa do cupom (juros pagos periodicamente) — e ao impacto do IOF em carteiras de previdência.

O impacto do cenário externo na curva longa

O cenário doméstico dialoga com uma pressão internacional sobre os juros longos. O rendimento dos títulos do Tesouro americano de 30 anos atingiu, na segunda-feira, o maior patamar desde 2007, provocando liquidação em mercados de renda fixa globais, do Japão aos Estados Unidos. A preocupação com contas públicas e inflação no exterior tende a elevar a exigência de retorno dos investidores também no Brasil, encarecendo o custo de captação do Tesouro para prazos mais distantes.

Essa aversão à ponta longa doméstica não é um fenômeno isolado. Quando os juros de longo prazo nos Estados Unidos avançam, o diferencial de risco para países emergentes tende a ser reprecificado, obrigando o Tesouro brasileiro a oferecer taxas mais atrativas para convencer o investidor a alongar o prazo. Esse ambiente ajuda a explicar por que a demanda por vencimentos distantes segue fraca. Em julho, as NTN-B tiveram a menor fatia do ano nas emissões, com apenas R$ 2,6 bilhões colocados, ou 1,6% do total do mês. No acumulado de 2026, a participação desses papéis caiu para 7%, ante 18% no fechamento de 2025, segundo dados da consultoria Eytse Estratégia. A taxa média das colocações naquele mês ficou em 7,98% ao ano.

Para o investidor pessoa física que acompanha a curva de juros, a dinâmica do leilão sinaliza um ambiente de maior seletividade. A concentração na ponta curta indica que o mercado exige prêmios de risco mais altos para travar capital em prazos longos, especialmente em um momento de transição fiscal e pressões globais. A relação entre o volume que vence e o sucesso das novas emissões de longo prazo segue sendo um termômetro crucial para avaliar o apetite por risco e a confiança na trajetória da dívida pública nos próximos anos.

Ajuste técnico e reações no mercado secundário

O leilão ocorreu logo após um ajuste técnico envolvendo fundos que seguem a família IMA-B (Índice de Mercado Anbima de Títulos Públicos Indexados à Inflação). Esses fundos precisaram recompor suas carteiras no fechamento de segunda-feira devido ao vencimento da NTN-B 2026. Projeções da Eytse estimavam demanda de R$ 35,3 bilhões para essa recomposição, mas focada nos vencimentos de 2028 e 2030 — prazos distintos dos ofertados na terça-feira. Do total que venceu, cerca de R$ 12,88 bilhões estavam com pessoas físicas via Tesouro Direto até junho, segundo a XP.

O impacto desse vencimento bilionário também se faz sentir na mecânica dos fundos de índice. A recomposição obrigatória das carteiras que replicam a família IMA-B gera um fluxo de demanda técnica, mas que nem sempre encontra correspondência nos papéis ofertados pelo Tesouro no dia seguinte. Essa discrepância de prazos entre a demanda dos fundos e a oferta do Tesouro Nacional é um dos fatores que ajudam a explicar a fragilidade da demanda por vencimentos distantes no leilão de terça-feira. O investidor que possui exposição a fundos DI ou de renda fixa com marcação a mercado precisa monitorar como essas oscilações na curva longa afetam o valor da cota no curto prazo.

No mercado secundário do Tesouro Direto, as taxas dos títulos de inflação recuavam às 15h34 desta terça-feira. Os papéis longos registraram queda de 5 pontos-base.

TítuloTaxa Segunda-FeiraTaxa Terça-FeiraVariação
IPCA+ 20507,35%7,30%-5 pontos-base
IPCA+ 20407,63%7,58%-5 pontos-base

A movimentação nos papéis com juros semestrais também apresentou queda. Na curva prefixada, o comportamento foi misto: o Prefixado 2029 recuou, enquanto o Prefixado 2032 subiu.