A sessão de sexta-feira, 24 de julho, marcou um alívio relevante na precificação de juros futuros no Brasil, com os contratos de DI (Depósito Interfinanceiro, derivativo que reflete a expectativa para a taxa básica de juros) registrando recuos superiores a 20 pontos-base (cada ponto-base equivale a 0,01%) em diversos prazos. O movimento ocorreu em sincronia com a desvalorização de rendimentos dos Treasuries (títulos da dívida pública norte-americana) e com a correção de preços do petróleo, refletindo um reequilíbrio temporário entre expectativas inflacionárias e sinais de moderação na curva.

Ajuste na Curva de Juros e Sincronia Internacional

Durante o pregão, os investidores realizaram ganhos acumulados na véspera, pressionando as taxas para baixo. A tabela abaixo sintetiza a movimentação dos principais vértices negociados na B3:

VencimentoTaxa AtualVariação no DiaTaxa AnteriorVariação na Semana
Janeiro/202814,145%-24 pontos-base14,383%+4 pontos-base
Janeiro/203514,670%-17 pontos-base14,841%+8 pontos-base

Na mínima da tarde, às 15h07, o DI para 2028 tocou 14,120%, acumulando baixa de 26 pontos-base em relação ao fechamento anterior. Apesar do alívio intraday, a dinâmica semanal manteve viés de alta. No mercado externo, o rendimento do Treasury de dez anos, benchmark global para precificação de risco, despencou 3 pontos-base às 16h38, fixando-se em 4,677%.

Geopolítica no Oriente Médio e Tarifas Comerciais

A volatilidade recente das commodities e dos ativos de renda fixa global permanece atrelada às tensões no Oriente Médio. O Irã deslocou comandantes da Guarda Revolucionária Islâmica e conselheiros militares para o Iêmen no corrente mês, fortalecendo a logística dos rebeldes houthis para ameaçar rotas no Mar Vermelho. Em resposta, os Estados Unidos executaram ataques com mísseis contra o território iraniano, após a promessa de retaliação militar severa pelo presidente Donald Trump. Paralelamente, o cenário diplomático apresentou abertura: o Paquistão explora canais para retomar negociações entre EUA e Irã, iniciativa que conta com apoio da China. A perspectiva de diálogo contribuiu para a realização de lucros no barril de petróleo, aliviando pressões sobre a cadeia de insumos.

No plano comercial, o governo norte-americano anunciou a aplicação de tarifas entre 10% e 12,5% sobre produtos de 60 parceiros, alegando fiscalização insuficiente contra trabalho forçado. O Brasil foi alvo da alíquota máxima de 12,5%, sobreposta a uma tarifa de 25% já vigente desde 22 de julho para um lote de produtos, sob a justificativa de práticas comerciais desleais.

Sinalização do Banco Central e Impacto nas Contas Públicas

Durante o Expert XP 2026, em São Paulo, o presidente do Banco Central, Gabriel Galípolo, reforçou que a política monetária deve permanecer em patamar restritivo (nível de juros acima da inflação, para conter a expansão do crédito e do consumo) por mais tempo. O gestor evitou estimativas pontuais sobre o repasse da recente alta do barril para a inflação doméstica, destacando apenas que a autarquia monitora os desdobramentos diários e que a condição de exportador líquido de energia coloca o Brasil em posição relativa mais favorável que a de outras economias. A dificuldade de decomposição do choque de preços foi explicitada na análise macro: separar os efeitos do choque de oferta petrolífero da maior resiliência da atividade econômica nacional permanece complexo.

No âmbito fiscal, o ministro do Planejamento e Orçamento, Bruno Moretti, projetou um custo mensal aproximado de R$ 1,3 bilhão com a subvenção à gasolina e R$ 5,5 bilhões para o diesel, mecanismos para suavizar os preços aos consumidores. Em contrapartida, a secretária de Política Econômica do Ministério da Fazenda, Débora Freire, observou que a cotação elevada do crude deve elevar a arrecadação governamental, embora o panorama siga marcado por incerteza e volatilidade.

O que isso significa para o investidor

A queda acentuada dos juros futuros e o recuo dos Treasuries indicam um realinhamento das expectativas para o ciclo de política monetária. Para carteiras de renda fixa, a correção na curva sugere oportunidades de marcação a mercado (ganho de capital com a valorização dos títulos) em papéis pré-fixados e IPCA+, desde que o investidor compreenda a sensibilidade dos preços às variações das taxas de referência. A perspectiva de cortes na Selic (taxa básica de juros, atualmente em 14,25%, definida pelo Copom – Comitê de Política Monetária do BC) ganha tração, mas esbarra na rigidez das expectativas de inflação e na incerteza cambial decorrente das tarifas externas. Investidores devem calibrar a duração (prazo médio ponderado) dos ativos de renda fixa, equilibrando a captura de juros reais com a proteção contra eventuais reviravoltas no fluxo de capitais externos ou novos choques no preço dos combustíveis.

Fatores de Atenção e Riscos

A trajetória dos ativos nacionais permanece vulnerável a vetores exógenos e domésticos interligados:

  • Persistência de expectativas de inflação desancoradas, obrigando o BC a manter a taxa de juros em nível contracionista.
  • Escalada do conflito no Oriente Médio e interrupção de fluxos no Estreito de Ormuz, capaz de elevar rapidamente os preços das commodities energéticas.
  • Implementação efetiva e retaliações às novas tarifas norte-americanas, impactando a balança comercial e pressionando o câmbio.
  • Volatilidade na arrecadação fiscal, com o custo das subvenções de combustíveis confrontando os ganhos com royalties e impostos sobre a produção de petróleo.

Perspectiva e Próximos Passos

O calendário macroeconômico dos próximos dias será determinante para o direcionamento da curva. A próxima reunião do Federal Reserve definirá a taxa de juros nos Estados Unidos, atualmente ancorada na faixa de 3,50% a 3,75%. Imediatamente após, o Copom anunciará a decisão sobre a Selic brasileira. A precificação das opções na B3, atualizada na última quarta-feira, atribui 77,5% de probabilidade a um corte de 25 pontos-base na taxa brasileira em agosto, contra 23,5% de chance de manutenção. O acompanhamento dos dados de emprego, do balanço de pagamentos e da reação cambial às tarifas será crucial para validar ou reprecificar essa expectativa.