Principais pontos

  • As taxas do Tesouro Direto inverteram a rota de alívio nesta quinta-feira (20), com os títulos prefixados liderando a alta após o mercado global digerir a intervenção do Tesouro americano.
  • O objetivo era atuar como um circuit breaker (disjuntor de mercado para conter liquidações em pânico) frente à venda massiva de vencimentos longos.
  • Estrategistas avaliam que a injeção de caixa resolve um gargalo de liquidez, mas ignora as causas raízes.
  • A dívida nacional, que se aproxima de US$ 40 trilhões, custou cerca de US$ 1,2 trilhão em juros apenas neste ano.
  • Os prefixados lideram o ajuste de preços no Brasil.

As taxas do Tesouro Direto inverteram a rota de alívio nesta quinta-feira (20), com os títulos prefixados liderando a alta após o mercado global digerir a intervenção do Tesouro americano. A movimentação sinaliza que o aporte de liquidez nos Estados Unidos não foi suficiente para estancar as pressões estruturais sobre a curva de juros longa, exigindo novos prêmios de risco dos investidores.

O efeito paliativo nos juros globais

O pano de fundo envolve a medida anunciada na véspera pelo Departamento do Tesouro dos Estados Unidos, sob o comando de Scott Bessent. A pasta determinou a duplicação do limite de suas operações de recompra (repos), elevando o teto de US$ 2 bilhões para pelo menos US$ 4 bilhões por operação nos trechos de 10 a 20 anos e de 20 a 30 anos da curva de juros (a estrutura a termo que define os rendimentos para diferentes prazos). O objetivo era atuar como um circuit breaker (disjuntor de mercado para conter liquidações em pânico) frente à venda massiva de vencimentos longos.

O efeito, contudo, mostrou-se temporário. Na terça-feira, o título americano de 30 anos havia atingido 5,33%, o maior nível desde junho de 2007. Após o anúncio, a taxa recuou 9 pontos-base (centésimos de porcentagem) para 5,196% na quarta-feira, enquanto o papel de 10 anos caiu 5,7 pontos-base para 4,647%. Na quinta, porém, o juro de 30 anos voltou a subir cerca de 4 pontos-base, rondando os 5,23%.

Estrategistas avaliam que a injeção de caixa resolve um gargalo de liquidez, mas ignora as causas raízes. Andrew Lilley, da Barrenjoey Markets, pondera que a manobra não basta para deter a alta dos rendimentos de forma perene. A gestora Franklin Templeton mantém posição underweight (alocação com peso abaixo do índice de referência) em títulos longos. Andrew Canobi, diretor de renda fixa, aponta uma sincronia de forças globais, marcadas por pressões fiscais e inflação persistente nas principais economias.

O risco fiscal estrutural e o impacto local

O cenário macroeconômico americano corrobora a resistência dos mercados. O déficit dos EUA saltou para US$ 432,3 bilhões em julho, o maior valor mensal desde março de 2021, levando o acumulado do ano para perto de US$ 1,8 trilhão. A dívida nacional, que se aproxima de US$ 40 trilhões, custou cerca de US$ 1,2 trilhão em juros apenas neste ano.

Para o investidor brasileiro, a dificuldade de ancoragem dos juros longos nos EUA reduz o espaço para quedas mais acentuadas na ponta longa da curva local. Os prefixados lideram o ajuste de preços no Brasil. O Tesouro Prefixado 2032 saltou de 14,68% para 14,73% (alta de 5 pontos-base). O Prefixado 2029 foi de 14,25% para 14,29%, e o Prefixado com Juros Semestrais (título que paga cupons de rendimentos a cada seis meses) 2037 avançou de 14,72% para 14,76%.

TítuloTaxa Quarta-FeiraTaxa Quinta-FeiraVariação
Prefixado 203214,68%14,73%5 pontos-base
Prefixado 202914,25%14,29%4 pontos-base
Prefixado Juros Semestrais 203714,72%14,76%4 pontos-base
IPCA+ 20507,31%7,34%3 pontos-base
IPCA+ 20328,08%8,09%1 ponto-base
IPCA+ 20407,55%7,56%1 ponto-base
IPCA+ Juros Semestrais 20457,54%7,55%1 ponto-base

Na ala atrelada à inflação, a variação foi mais contida, mas também em alta. O IPCA+ 2050 foi de 7,31% para 7,34%. O IPCA+ 2032 avançou de 8,08% para 8,09%, o IPCA+ 2040 foi de 7,55% para 7,56%, e o IPCA+ com Juros Semestrais 2045 subiu de 7,54% para 7,55%. A leitura é de que o prêmio de risco fiscal global segue exigindo remuneração maior para prazos mais longos, limitando o alívio sustentado para quem busca travar taxas de longo prazo no mercado doméstico.