A Klabin (KLBN11) fechou o terceiro trimestre de 2026 com lucro líquido de R$ 393 milhões, cerca de 19% acima dos R$ 329,5 milhões projetados pelo consenso IBES — a média das estimativas das casas que acompanham a ação. Na quarta-feira (28), porém, os papéis recuaram 6%, a R$ 17,56. O descompasso entre resultado e reação tem um endereço: a conversão do lucro em caixa.
Lucro acima do consenso, caixa livre abaixo de zero
O número que o mercado colocou no centro da discussão não foi a linha final do balanço, e sim o caixa. Pelas contas do JPMorgan, o fluxo de caixa livre (FCF, o que resta da operação após investimentos e despesas financeiras) ficou negativo em R$ 1 milhão no trimestre, afetado por aportes em ativos, gastos com juros e consumo de capital de giro.
No EBITDA ajustado — lucro antes de juros, impostos, depreciação e amortização —, a companhia somou aproximadamente R$ 1,86 bilhão, em linha com a estimativa do Itaú BBA e 2% abaixo do segundo trimestre. O banco retirou da base de comparação R$ 64 milhões obtidos com venda de terrenos entre abril e junho; não houve operação semelhante no terceiro trimestre.
Custo caixa de R$ 3,5 mil por tonelada sobe 8%
A XP classificou os resultados como ligeiramente abaixo do esperado e elegeu o custo caixa consolidado — o desembolso efetivo para produzir cada tonelada, sem itens contábeis como depreciação — como o ponto mais frágil do trimestre. Ele avançou 8% sobre o trimestre anterior, chegando a R$ 3,5 mil a tonelada, com parte da alta explicada pelos preparativos para o El Niño.
No acumulado dos nove primeiros meses de 2026, esse indicador ficou um pouco acima do teto da projeção da própria companhia. Lucas Laghi, Guilherme Nippes e Fernanda Urbano, analistas da XP, veem atenção crescente sobre a evolução dos gastos e o efeito dela na geração de fluxo de caixa livre.
A Klabin atribuiu a pressão no segmento de papel e embalagens a três vetores: fibras e logística mais caras por conta das medidas de mitigação do El Niño; elevação dos custos fixos por causa da parada de manutenção programada em Otacílio Costa; e inflação de insumos industriais, sobretudo químicos e combustíveis, em meio às pressões de preço ligadas a conflitos geopolíticos.
Celulose fluff segura o resultado; papel fica atrás
O contrapeso veio da celulose. O JPMorgan calculou EBITDA da divisão 8,2% acima da própria estimativa, sustentado por volumes e preços realizados melhores que o previsto — desempenho que compensou em parte o tropeço de papel e embalagens.
Para o Goldman Sachs, a realização de preços foi o grande ponto positivo do trimestre. A celulose fluff — fibra destinada principalmente a absorventes e fraldas — saiu US$ 30 por tonelada acima do que o banco projetava, com prêmio de US$ 380 por tonelada sobre a fibra curta (hardwood) vendida pela Klabin.
No papel, o kraftliner — material resistente usado em embalagens de transporte — manteve bom desempenho, com preços 7% maiores que no trimestre anterior, e houve ainda leve melhora no papel-cartão revestido.
Endividamento e custo no radar dos próximos trimestres
Na avaliação da XP, o foco dos investidores deve continuar na trajetória de redução do endividamento e no comportamento dos custos, especialmente se a demanda doméstica perder tração. A casa acrescenta que uma eventual desvalorização do real, diante das mudanças recentes no cenário macroeconômico brasileiro, poderia oferecer algum suporte ao resultado.
| Casa | Visão sobre KLBN11 | Preço-alvo |
|---|---|---|
| Itaú BBA | neutra | R$ 21 |
| JPMorgan | neutra | R$ 19 |
| Goldman Sachs | neutra | R$ 18,50 |
Para quem acompanha a companhia, o trimestre desloca a pergunta do tamanho do lucro para a consistência dele: enquanto o custo por tonelada estiver acima do teto projetado pela própria empresa, a geração de caixa tende a seguir como variável decisiva na leitura dos próximos balanços.
