A Mills (MILS3) fechou o terceiro trimestre de 2026 com lucro líquido de R$ 130,9 milhões, 94,5% acima do apurado um ano antes. A receita líquida, porém, somou R$ 492,9 milhões, com alta de apenas 2,1%, e o EBITDA ajustado — lucro antes de juros, impostos, depreciação e amortização, indicador que retrata a operação sem o efeito das linhas financeiras — ficou em R$ 256,1 milhões, variação de +0,6%.
O mesmo desencontro, na direção contrária, apareceu na Iochpe-Maxion (MYPK3): a companhia reportou receita operacional líquida de R$ 4,4 bilhões (+15,8%) e EBITDA ajustado de R$ 480,5 milhões (+22,6%), mas fechou o trimestre com prejuízo de R$ 16 milhões, revertendo o lucro de R$ 35,1 milhões de um ano antes. Nos dois casos, a última linha do balanço caminhou em ritmo distinto do restante da operação — e é aí que está a informação mais útil para quem acompanha os papéis.
Mills e Méliuz: lucro sobe em velocidade que a receita não acompanha
Na Mills, o lucro líquido quase dobrou sobre uma base de receita praticamente estável e de EBITDA sem variação relevante. Um resultado final que avança muito acima da geração operacional costuma vir de linhas que não passam pela operação do dia a dia — resultado financeiro, equivalência patrimonial ou ganhos não recorrentes —, e separar esses componentes exige a leitura das notas que acompanham o balanço.
No Méliuz (CASH3), o lucro líquido ajustado alcançou R$ 64,5 milhões, salto de 69,9%. A receita líquida foi de R$ 468,3 milhões (+9,8%) e o EBITDA ajustado, de R$ 99 milhões (+26,7%), com margem de 21,1%. Aqui a operação acompanhou parte do movimento: o indicador operacional cresceu mais que a receita, sinal de ganho de margem antes das linhas financeiras.
Iochpe-Maxion: operação mais rentável, resultado final negativo
A Iochpe-Maxion entregou a maior receita do grupo analisado, R$ 4,4 bilhões, com avanço de 15,8% na comparação anual. O EBITDA ajustado subiu 22,6%, para R$ 480,5 milhões, e a margem do indicador ganhou 0,6 ponto percentual, de 10,3% para 10,9%.
O prejuízo de R$ 16 milhões, portanto, não nasceu da operação: ela ficou mais rentável no trimestre. A explicação está nas linhas abaixo do EBITDA, cuja composição o resumo de resultados não detalha — motivo pelo qual o balanço completo é o documento a consultar antes de qualquer conclusão sobre a qualidade do número.
Lavvi: margem bruta maior, margem líquida 8 pontos menor
A Lavvi (LAVV3) registrou receita líquida de R$ 532 milhões, crescimento de 28% sobre o 3T25 e de 7% sobre o segundo trimestre de 2026. A margem bruta ajustada chegou a 38,2%, com ganho de 0,6 ponto percentual nas duas bases de comparação.
O lucro líquido somou R$ 91 milhões, com margem de 17%. O dado que merece atenção é o recuo de 8 pontos percentuais dessa margem líquida frente ao mesmo período do ano passado, ainda que tenha havido leve avanço de 0,4 ponto sobre o trimestre imediatamente anterior. Ganho na margem bruta que não chega à linha final sugere pressão em despesas operacionais ou em itens financeiros — um ponto a checar no detalhamento da companhia.
Pague Menos e Tegma: margens em direções opostas
A Pague Menos (PGMN3) apresentou receita bruta de R$ 4,43 bilhões, alta de 6,9%. O lucro bruto avançou 7,2%, para R$ 1,33 bilhão, e a margem bruta passou de 29,9% para 30%. O EBITDA ajustado atingiu R$ 278,8 milhões (+7,2%), com margem estável em 6,3%, e o lucro líquido ajustado cresceu 19,5%, para R$ 96,3 milhões.
Já a Tegma (TGMA3) viu o lucro líquido saltar 46,5%, para R$ 117 milhões, com receita de R$ 760,6 milhões (+19,9%) e EBITDA de R$ 129,8 milhões (+11,1%). A margem do indicador recuou 1,4 ponto, para 17,1% — crescimento com leve perda de rentabilidade operacional.
Os três ritmos do trimestre em uma tabela
| Empresa | Lucro (3T26) | Variação anual | Receita | EBITDA ajustado |
|---|---|---|---|---|
| Lavvi (LAVV3) | R$ 91 mi | margem líquida −8 p.p. | R$ 532 mi (+28%) | não divulgado |
| Méliuz (CASH3) | R$ 64,5 mi (ajustado) | +69,9% | R$ 468,3 mi (+9,8%) | R$ 99 mi (+26,7%) |
| Pague Menos (PGMN3) | R$ 96,3 mi (ajustado) | +19,5% | R$ 4,43 bi bruta (+6,9%) | R$ 278,8 mi (+7,2%) |
| Mills (MILS3) | R$ 130,9 mi | +94,5% | R$ 492,9 mi (+2,1%) | R$ 256,1 mi (+0,6%) |
| Tegma (TGMA3) | R$ 117 mi | +46,5% | R$ 760,6 mi (+19,9%) | R$ 129,8 mi (+11,1%) |
| Iochpe-Maxion (MYPK3) | −R$ 16 mi | reverte lucro de R$ 35,1 mi | R$ 4,4 bi (+15,8%) | R$ 480,5 mi (+22,6%) |
O ponto comum do trimestre é a distância entre o lucro contábil e a geração operacional, em ambas as direções: há empresas em que a última linha corre muito à frente do EBITDA e uma em que ela ficou para trás mesmo com a operação mais rentável.
O que separa operação de resultado final
Para quem investe, a temporada do 3T26 reforça que a variação do lucro ano contra ano funciona como filtro inicial, não como veredito. Duas companhias com o mesmo crescimento de receita podem apresentar lucros completamente diferentes conforme a estrutura de capital e os itens que ficam fora do EBITDA.
Historicamente, trimestres em que o lucro cresce muito acima da receita e do EBITDA tendem a concentrar efeitos não recorrentes, que não se repetem automaticamente no trimestre seguinte. O caminho contrário — EBITDA em alta e prejuízo na última linha, como na Iochpe-Maxion — costuma deslocar a discussão para despesas financeiras e outras linhas não operacionais. Nos dois cenários, o que muda para o investidor é o grau de confiança que se pode depositar no número principal do release antes de olhar o balanço inteiro.
