As ações da Marcopolo (POMO3; POMO4) registram queda acentuada nesta terça-feira, 4, após a divulgação do balanço do segundo trimestre de 2026 evidenciar contração nas margens e no lucro. Por volta das 12h44, os papéis preferenciais recuavam 10,24%, cotados a R$ 4,82, enquanto as ordinárias despencavam 11,02%, negociadas a R$ 4,44, refletindo a reação do mercado à deterioração da lucratividade operacional.
Desempenho Operacional e Pressão nas Margens
O Ebitda (lucro antes de juros, impostos, depreciação e amortização) ajustado da companhia atingiu R$ 349 milhões, representando retração de 12% na comparação com o mesmo período de 2025. O indicador ficou entre 8% e 11% aquém das projeções do JPMorgan, incorporando aproximadamente R$ 10 milhões em despesas de reestruturação na Metalsur, subsidiária localizada na Argentina. A rentabilidade bruta encerrou o trimestre em 21,9%, patamar significativamente inferior à expectativa de 24,1% e o mais fraco em três anos. A composição de vendas deteriorou-se com a participação de micro-ônibus na receita saltando de 8% no ano passado para 18% neste exercício, arrastando a média de rentabilidade por veículo. Adicionalmente, a inflação de insumos em contratos públicos de preços travados e a valorização cambial de 11% do real frente ao ano anterior impactaram negativamente as exportações. O lucro líquido somou R$ 271 milhões, queda de 16% na base anual e cerca de 3% abaixo do consenso de mercado.
Avaliação das Casas de Análise
As instituições financeiras destacaram a frustração operacional. O JPMorgan aponta a margem bruta decepcionante como vetor principal. O Itaú BBA classifica os números como negativos devido à estrutura de vendas menos favorável, custos atrelados ao petróleo e apreciação cambial, embora o lucro líquido tenha superado projeções isoladas. O Bradesco BBI reforça o tom negativo, alertando que a gestão adotou postura conservadora para o segundo semestre de 2026. A XP Investimentos observa que o resultado final ficou 6% abaixo do previsto, ampliando a incerteza sobre tendências de rentabilidade e abrindo espaço para cortes nas estimativas. Já o Citi nota receitas 5% acima do esperado, mas ressalta que o Ebitda ficou 17% abaixo do projetado, impulsionado pela base de comparação desafiadora: a produção de ônibus rodoviários de alta margem caiu de 1.348 unidades (34% do total) no segundo trimestre de 2025 para apenas 900 unidades (22%) no período atual.
Comparativo de Valuation e Recomendações
| Instituição | Recomendação | Preço-Alvo (R$) |
|---|---|---|
| JPMorgan | Compra | 9,00 |
| Itaú BBA | Compra | 10,00 |
Nos múltiplos de avaliação, os papéis negociam próximo de 4,2 vezes o EV/Ebitda (valor da empresa, incluindo dívidas e caixa, dividido pelo lucro operacional) estimado para 2027. A métrica situa-se acima de concorrentes do setor, como a Tupy (TUPY3), cotada a 3,5 vezes, e a Randoncorp (RAPT4), que transaciona a 4,1 vezes.
O que isso significa para o investidor
A trajetória recente da Marcopolo exige atenção redobrada de investidores pessoa física, dado o descolamento entre volume de receita e geração de caixa. A substituição de produtos de maior ticket médio por veículos menores e a rigidez contratual em programas governamentais criam um ambiente de compressão de margens que pode se prolongar. Em um cenário macroeconômico onde o câmbio e a inflação de custos industriais permanecem voláteis, a capacidade de repassar aumentos aos preços finais torna-se crucial para a preservação do retorno do acionista. A manutenção de recomendações de compra pelas principais casas de análise reflete a expectativa de recuperação cíclica, mas a valoração atual já incorpora prêmio em relação a pares industriais, limitando margem de segurança no curto prazo.
Riscos Identificados
- Demora na homologação e entrega de contratos públicos, pressionando o volume de produção no terceiro trimestre.
- Continuidade da pressão inflacionária sobre insumos com contratos de preço fixo travados.
- Apreciação da moeda local reduzindo a competitividade e a rentabilidade das vendas externas.
- Mix de vendas desfavorável com predominância de veículos de menor margem unitária.
- Potencial revisão para baixo das projeções de rentabilidade caso os obstáculos estruturais persistam.
O mercado acompanhará de perto a homologação da fase 13 do programa Caminho da Escola, onde a fabricante está habilitada para entregar até 7,2 mil ônibus. A falta de novas demandas do Ministério da Saúde e os atrasos regulatórios devem limitar o ritmo fabril no terceiro trimestre de 2026, com sinalização da própria administração de que a retomada consistente do volume e da rentabilidade deve ocorrer apenas no quarto trimestre.
