Duas trajetórias opostas no comércio eletrônico brasileiro aparecem nas projeções do Banco Safra para o terceiro trimestre de 2026. O Mercado Livre (MELI34) deve fechar o período com receita líquida de US$ 11 bilhões, avanço de 49% sobre um ano antes, enquanto o Magazine Luiza (MGLU3) tende a somar R$ 9 bilhões em vendas — 1% menos — e a retornar ao vermelho. O relatório do banco foi divulgado em 21 de outubro.
O contraste mais informativo, porém, não está no tamanho do faturamento, e sim na conversão desse crescimento em lucro. O Ebit do Mercado Livre deve ficar praticamente estável em US$ 729 milhões, mesmo com quase metade a mais de receita. Ebit é o lucro operacional antes de juros e impostos: mede o resultado do negócio em si, sem o efeito da estrutura de capital e da tributação.
Safra vê e-commerce 45% maior e serviços financeiros 55% maiores
Dentro do Mercado Livre, o banco separa os dois motores: o comércio eletrônico cresceria 45% na comparação anual e a divisão de serviços financeiros, 55%. A rentabilidade caminha no sentido oposto. A projeção é de margem operacional 3,18 pontos percentuais menor, corroída por três frentes — despesas de marketing, reservas para perdas na carteira de crédito e o piso mais baixo para o frete gratuito.
O lucro líquido estimado é de US$ 444 milhões, 6% acima do 3T25, mas o avanço tem origem fora da operação: vem de uma alíquota efetiva de tributos menor. Conciliar ganho de participação de mercado com recuperação de margem é o teste que o Safra aponta como central para a companhia no trimestre.
Magazine Luiza: lojas físicas sobem 9%, online próprio cai 8%
No Magalu, o Safra projeta vendas em lojas físicas 9% maiores. Parte desse avanço, segundo o relatório, vem do espaço aberto pela Casas Bahia depois do encerramento de cerca de 300 unidades. O ambiente digital segue na direção contrária: 8% de queda nas vendas online próprias — o chamado 1P, modelo em que o varejista compra o estoque e assume o risco da revenda — e 11% de recuo no marketplace, o 3P, formato em que lojistas parceiros vendem dentro da plataforma.
O banco estima margem bruta preservada e despesas operacionais mais eficientes. O Ebitda — lucro antes de juros, impostos, depreciação e amortização — chega a R$ 708 milhões, com margem próxima de 7,9%. Ainda assim, o resultado líquido projetado é negativo em R$ 21 milhões, o inverso do lucro de R$ 21 milhões registrado no 3T25. Despesas financeiras menores não foram suficientes, na conta do Safra, para virar a linha final.
As duas varejistas em números
| Métrica | Mercado Livre (MELI34) | Magazine Luiza (MGLU3) |
|---|---|---|
| Receita líquida | US$ 11 bi (+49%) | R$ 9 bi (-1%) |
| E-commerce / online próprio | +45% | -8% (1P) |
| Serviços financeiros / marketplace | +55% | -11% (3P) |
| Lojas físicas | não se aplica | +9% |
| Resultado operacional | Ebit US$ 729 mi | Ebitda R$ 708 mi (margem ~7,9%) |
| Lucro líquido | US$ 444 mi (+6%) | -R$ 21 mi |
Onde a margem do setor está sendo consumida
Os dois casos, lidos juntos, descrevem o mesmo ambiente competitivo: logística pesada, crédito ao consumidor em expansão e frete gratuito como ferramenta de conquista de clientes. Esse tripé sustenta volume de vendas, mas costuma aparecer antes na linha de despesas do que na de lucro. Um trimestre de receita forte com Ebit parado tende a indicar que o caixa gerado está sendo reinvestido quase integralmente na disputa por participação.
Para quem acompanha o setor, a leitura que importa é a da conversão: crescimento de GMV ou de receita, isoladamente, informa pouco sobre a saúde do negócio quando a margem operacional encolhe. No caso do Magalu, o dado relevante é outro — a receita praticamente estável convive com resultado líquido negativo, o que desloca a atenção para a recomposição das vendas digitais, ainda o elo mais fraco da operação.
Duas ressalvas organizam a análise. A primeira é que se trata de projeções de uma casa, e não de números divulgados pelas companhias; estimativas de margem e de lucro costumam variar bastante entre instituições. A segunda é temporal: o comportamento de margem em um único trimestre não define tendência, mas, quando a expansão de receita vem acompanhada de compressão de rentabilidade, historicamente o mercado passa a cobrar eficiência nos períodos seguintes.
