Mark Zuckerberg, quinto nome mais rico do mundo pelo Índice de Bilionários da Bloomberg, com fortuna estimada em US$ 247 bilhões, vinculou sua permanência na Califórnia a um pacote societário — e a Meta topou o desenho. Em documento divulgado na quarta-feira, a companhia informou que concederá ao fundador e CEO uma nova classe de ações sem direito a voto: 20% delas ficam vendáveis de imediato, fatia equivalente a cerca de 10% da participação econômica dele, e 80% seguem travadas por oito anos. A contrapartida é contratual: o executivo se compromete a manter residência no Estado — ou onde a empresa fixar sua sede — e a continuar no comando em tempo integral durante esse intervalo.
Dois impasses saíram equacionados da negociação. O executivo ganhou folga de caixa sem abrir mão do comando; a companhia passou a contar com um veículo adicional para bancar a expansão em inteligência artificial, conforme registrado em documento regulatório. Na prática, um risco pessoal de liquidez virou ferramenta de captação corporativa.
Proposição 40: 5% sobre patrimônios acima de US$ 1 bilhão
A origem do imbróglio é a Proposição 40, apresentada por sindicatos da área de saúde como forma de compensar cortes federais de recursos. O texto prevê cobrança extraordinária de 5% sobre patrimônios superiores a US$ 1 bilhão apurados em 1º de janeiro de 2026 e será submetido a votação em novembro. O governador Gavin Newsom se opõe à medida.
Do outro lado, um grupo de bilionários já gastou cerca de US$ 300 milhões na tentativa de derrotar a proposta, movimento liderado por Sergey Brin, cofundador do Google, que atualmente declara residência em Nevada. David Sacks também tomou providências para deixar o Estado. A defesa da medida tem apoio de políticos progressistas, como o deputado Ro Khanna. Já Jensen Huang, CEO da Nvidia, declarou que não veria incômodo em arcar com a taxa extraordinária.
Um comitê especial, uma carta e a casa de Palo Alto à venda
O assunto entrou na pauta do conselho em julho, quando Zuckerberg discutiu a eleição que se aproxima com Robert M. Kimmitt, diretor independente líder da companhia, e alertou que o tributo poderia forçá-lo a se desfazer de ações Classe B, derrubando seu poder de voto para menos de 53%. Poucas semanas depois, advogados do fundador enviaram carta ao comitê especial do conselho avisando que ele avaliava deixar a Califórnia. Na mesma correspondência, propôs a criação de uma classe sem direito a voto e sugeriu revisar seu pacote de remuneração em ações, na linha do que outros fundadores de tecnologia vinham adotando.
No início de setembro, comunicou ao conselho que precisava decidir sobre sua residência fiscal e que planejava colocar a casa de Palo Alto à venda. O comitê que conduziu as tratativas justificou o acerto pela necessidade de manter o CEO fisicamente perto da operação — argumento que ganha peso na corrida pela liderança em inteligência artificial, que o mantém trabalhando próximo da equipe do Meta Superintelligence Labs. O grupo também recordou as dificuldades da pandemia, quando o afastamento físico do fundador em relação à equipe de gestão atrapalhou o dia a dia, e disse querer evitar repetição.
20% liberados, 80% travados: o efeito no capital
Pelo desenho final, o bloqueio sobre os 80% restantes é retirado de forma gradual ao longo dos oito anos, sempre condicionado a que Zuckerberg permaneça liderando a companhia. Na divulgação dos resultados trimestrais, a diretora financeira Susan Li afirmou que as novas ações sem direito a voto funcionarão sobretudo como instrumento de financiamento dos projetos de inteligência artificial da empresa, sem entrar nos pontos específicos do acordo com o fundador.
Para quem já tem exposição à Meta, a mudança atinge a base acionária sem mexer na distribuição de poder. A nova classe amplia o número de papéis em circulação e dilui a fatia econômica dos atuais sócios, mas preserva o bloco de controle — inclusive do próprio fundador, que assim escapa de reduzir seu poder de voto. Em paralelo, o conselho ganha uma ferramenta adicional de captação num momento de gastos pesados com infraestrutura de IA. Estruturas desse tipo, historicamente, tendem a ser lidas pelo mercado como sinal de governança que privilegia a continuidade da gestão, ao custo de menos contrapeso acionário.
O calendário importa. A liberação das ações é gradual e vinculada à permanência do executivo, o que transforma o pacote em uma espécie de retenção de longo prazo. Vale acompanhar como o mercado precifica o aumento do número de papéis em circulação e se a companhia usará mesmo a nova classe como fonte de caixa para os projetos de IA, ou se a estrutura ficará restrita ao acerto com o fundador.
| Item | Número |
|---|---|
| Fortuna de Zuckerberg (Índice Bloomberg) | US$ 247 bilhões |
| Alíquota proposta pela Proposição 40 | 5% |
| Gatilho de patrimônio | acima de US$ 1 bilhão, em 1º/1/2026 |
| Ações Classe C liberadas de imediato | 20% |
| Equivalente na fatia econômica | cerca de 10% |
| Ações inicialmente bloqueadas | 80%, com liberação em 8 anos |
| Piso de poder de voto citado | 53% |
| Gasto contrário à proposta | cerca de US$ 300 milhões |
| Mansão em Miami | US$ 170 milhões |
Pesquisas divididas e uma mansão de US$ 170 milhões em Miami
O pagamento do imposto depende do eleitorado californiano. Levantamentos recentes mostram cenário dividido sobre a Proposição 40, e a decisão de Zuckerberg sobre onde residir está amarrada a esse resultado. Mesmo mantendo a residência principal na Califórnia, o fundador da Meta ampliou de forma significativa o portfólio imobiliário em outros Estados: no início do ano, pagou US$ 170 milhões por uma mansão em Miami, recorde local. Além dos imóveis em Palo Alto e na região do Lago Tahoe, ele soma propriedades em Washington e na ilha havaiana de Kauai.
Três marcos organizam o acompanhamento daqui para a frente: a votação de novembro, o recorte patrimonial de 1º de janeiro de 2026 e a janela de oito anos de liberação das ações. Para o investidor brasileiro, mesmo sem posição direta no papel, o caso funciona como termômetro de uma tensão que tende a ganhar espaço na agenda global: a tributação de grandes patrimônios esbarrando nas estruturas de controle das companhias de tecnologia — e nas respostas que os conselhos desenham para segurar seus fundadores.
