A Meta escolheu o mercado de ações para bancar a conta da inteligência artificial sem ceder poder de voto. Na quarta-feira (21), a dona de Facebook, Instagram e WhatsApp comunicou a criação de uma nova classe de ações ordinárias — a Classe C, sem direito a voto —, com emissão prevista para janeiro de 2027, operação que equivale, na prática, a um desdobramento de duas por uma. O anúncio veio junto com o balanço do terceiro trimestre e com a elevação do piso de gastos de capital (capex, o investimento em ativos físicos como servidores e centros de dados): a projeção para este ano passou a US$ 135 bilhões a US$ 145 bilhões, contra US$ 130 bilhões a US$ 145 bilhões antes.

No pregão estendido, os papéis avançavam mais de 4%. Para quem acompanha a ação por aqui, a leitura se organiza em duas frentes que caminham juntas: quanto custa a aposta em IA e quem manda na empresa que faz essa aposta.

O piso do capex subiu — e o fluxo de caixa livre paga a conta

A alteração mais relevante do balanço está no assoalho da faixa, não no teto. A Meta elevou para US$ 135 bilhões o mínimo que pretende desembolsar neste ano, mantendo o máximo em US$ 145 bilhões. A justificativa é a corrida por capacidade computacional: a companhia encomenda chips avançados e ergue centros de dados para não perder terreno para OpenAI e Anthropic, e esse esforço é exatamente o que pressiona o fluxo de caixa livre — o dinheiro que sobra depois de honrar investimentos e que costuma sustentar recompra de ações e proventos.

Quanto mais alto o piso, menor a folga no curto prazo. A compensação prometida tem data: a diretora financeira Susan Li indicou que as frentes de IA devem começar a produzir receita incremental em 2027 e ganhar peso como fonte de diversificação com o tempo. O retorno esperado, portanto, está à frente do gasto — não junto dele. Historicamente, esse descasamento costuma aparecer primeiro nos múltiplos e só depois no resultado.

Classe C: mais papéis em circulação, mesmo comando

A mecânica é simples de descrever e decisiva de entender. A empresa passa a ter duas classes de ações ordinárias: as com voto, que já existiam, e as novas, sem voto. Como cada acionista recebe dois papéis por cada um que possui, o efeito econômico é o de um desdobramento (split, em inglês) — o valor unitário se ajusta na proporção e a fatia de cada investidor no capital permanece a mesma.

O que muda é a política. Os papéis sem voto funcionam como moeda de troca em aquisições e como ferramenta para atrair e reter executivos e engenheiros disputados, sem diluir o poder de decisão de Mark Zuckerberg, que segue no comando. Para o minoritário, o ganho é de liquidez potencial, com mais ações em circulação; o custo é a confirmação de que a influência em assembleia continuará concentrada nas mãos do presidente-executivo.

Muse: 10 milhões de contas e um custo acima do padrão

O agente de IA para consumidores Muse, apresentado como centro da nova estratégia, acumulou mais de 10 milhões de contas nos Estados Unidos e no Canadá em cerca de um mês e meio, com ritmo ainda forte na avaliação da companhia. O número é a prova de tração que a empresa precisava exibir; o custo é o contraponto.

Zuckerberg admitiu que manter o Muse no ar consome mais recursos do que a maioria dos produtos lançados pela Meta nos últimos anos e sinalizou que a monetização do agente deve começar um pouco antes do que o plano original previa. Na prática, o teste do modelo de negócio deixa de ser hipótese e ganha cronograma.

Os números do trimestre

MétricaValor divulgadoReferência
Receita do 3º trimestreUS$ 64,60 biacima dos US$ 63,37 bi esperados (LSEG)
Receita projetada para o 4º trimestreUS$ 73 bi a US$ 76 biacima dos US$ 73,73 bi esperados
Capex neste anoUS$ 135 bi a US$ 145 biantes: US$ 130 bi a US$ 145 bi
Contas do Muse (EUA e Canadá)10 milhõesem cerca de um mês e meio
Emissão da Classe Cjaneiro de 2027equivale a desdobramento de duas por uma

Reality Labs e os três marcos a verificar

A unidade Reality Labs — que acumula prejuízos e liderou o projeto de metaverso, o ambiente digital imersivo que motivou a mudança de nome do Facebook em 2021 — passa a ter a IA como foco declarado. É uma realocação de prioridade dentro de uma estrutura que já consome capital e que, agora, disputa recursos com o próprio núcleo do negócio.

Três marcos concentram a atenção de quem acompanha o papel: a emissão efetiva das ações Classe C, marcada para janeiro de 2027; o início da receita incremental das frentes de IA, previsto para o mesmo ano; e o comportamento do capex dentro da faixa revisada. Todos são verificáveis nos próximos balanços — e é neles que a promessa de diversificação começa a ser cobrada.