Dois anos acima de 500% e o giro de 2021

A trajetória de dez anos da MGLU3 começa pelo dado mais extremo: a ação do Magazine Luiza rendeu 501,53% em 2016 e 510,49% em 2017, dois exercícios consecutivos com retorno superior a 500%, conforme levantamento que reúne os anos completos de 2016 a 2025 a partir de uma série de retorno ajustado. Entre 2018 e 2020 o sinal seguiu positivo, com avanços acima de 100% em cada um desses anos.

A virada de direção ocorreu em 2021, quando o papel cedeu 71,04%, e as perdas se mantiveram até 2024. Em 2025 o retorno voltou ao campo positivo, com 48,76%. Já a série parcial de 2026, medida até 15 de outubro, apontava ganho de 21,43% — período que, por não ser um ano fechado, não se compara aos anteriores.

PeríodoRetorno ajustado
2016501,53%
2017510,49%
2018 a 2020acima de 100% em cada ano
2021-71,04%
2022 a 2024quedas consecutivas
202548,76%
2026 (até 15/out)21,43%

Somá-los não produz o resultado acumulado, porque cada variação incide sobre o saldo deixado pelo período anterior: uma perda de 50% exige uma alta de 100% só para retornar ao ponto de partida. A aritmética dos retornos compostos explica por que uma década com dois anos excepcionais pode terminar longe do pico.

Vendas de R$ 64,7 bi e lucro contábil de R$ 204,6 mi

O contraste entre o tamanho da operação e o lucro que ela entrega é o que a oscilação de centenas por cento no preço não revela. No relatório de 2016, o Magazine Luiza reportava receita bruta de R$ 11,4 bilhões e lucro líquido de R$ 86,6 milhões. No relatório anual de 2025, as vendas totais — somando lojas físicas, comércio eletrônico com estoque próprio e marketplace — alcançaram R$ 64,7 bilhões, com lucro líquido contábil de R$ 204,6 milhões e lucro ajustado de R$ 158,9 milhões.

Essa distância entre faturamento e resultado é o dado que ancora a leitura da década. Varejo de bens duráveis opera historicamente com margens apertadas, e margens estreitas tendem a amplificar o efeito de qualquer variação de custo, juros ou demanda sobre o lucro final — o que ajuda a entender a amplitude das oscilações vistas na ação.

Desdobramentos e grupamento: o preço isolado engana

Ao longo do período, a companhia alterou a quantidade de papéis em circulação. Em 2017, e outra vez em 2019, cada ação foi desdobrada em oito; em 2020, cada uma passou a valer quatro. Em 2024 veio o movimento inverso, com o grupamento de dez papéis em um único.

Eventos assim mudam o número de ações e reajustam o preço na mesma proporção, sem criar ganho ou perda patrimonial por si sós. Num grupamento de dez para um, dez papéis de R$ 1 equivalem a um de R$ 10. Comparar uma cotação antiga sem esse ajuste com o preço atual distorce a leitura do desempenho — é justamente esse ajuste que sustenta a comparação usada no levantamento.

O ecossistema descrito nos relatórios e o que observar

No documento de 2016, a administração descrevia a transição de uma varejista tradicional com área digital para uma companhia digital com pontos físicos. Já no relatório de 2025, a empresa apresentou o intervalo de 2021 a 2025 como o ciclo de construção do seu ecossistema, que reúne KaBuM!, Netshoes, Época Cosméticos, logística, serviços financeiros e computação em nuvem. A diversificação, segundo a companhia, buscou reduzir a dependência do varejo de bens duráveis — segmento que a própria administração classifica como mais afetado pela alta da Selic.

Para quem acompanha o papel, dois vetores tendem a concentrar a atenção daqui em diante: o custo do dinheiro, dado o vínculo que a empresa estabelece entre bens duráveis e juros, e a capacidade de transformar faturamento em lucro, já que a operação movimenta dezenas de bilhões de reais e reporta lucro contábil na casa das centenas de milhões. Vale lembrar que o número de 2026 cobre apenas até 15 de outubro e, portanto, não equivale a um exercício completo.