Musk redobra ofensiva contra Ambani e pressiona Nova Délhi pela Starlink
Elon Musk voltou a atacar Mukesh Ambani e transformou o atraso da Starlink na Índia em uma disputa pública de alto teor político. Em publicação na rede X, o controlador da SpaceX insinuou que o presidente da Reliance Industries exerce influência desproporcional sobre Nova Délhi e acusou o conglomerado de travar a chegada da internet via satélite para proteger negócios próprios. O prêmio em jogo é expressivo: a Índia reúne mais de 1 bilhão de usuários de internet e é o mercado mais cobiçado da região.
A escalada ocorreu ao longo da semana. Musk atribuiu a oligarcas não identificados a responsabilidade pela demora na liberação do serviço e, na quinta-feira, passou a questionar diretamente o peso político de Ambani, sugerindo que ele seria uma espécie de chefe de governo paralelo do país. Procurada, a Reliance Jio, divisão de telecomunicações da Reliance Industries, não se manifestou de imediato.
Governo indiano nega favorecimento
O Ministério das Comunicações da Índia rejeitou as alegações e classificou o marco regulatório do setor de satélites como justo e não discriminatório. Na quinta-feira, a pasta informou que a Starlink e outras duas operadoras licenciadas passam por avaliações de segurança obrigatórias antes de receberem o espectro de satélite, e que as três se encontram em estágio regulatório semelhante — negando que a empresa de Musk esteja sendo isolada.
Na sexta-feira, o ministro de Telecomunicações, Jyotiraditya Scindia, rebateu as críticas e afirmou que o país não admite monopólio em nenhum setor.
| Indicador | Dado |
|---|---|
| Usuários de internet na Índia | mais de 1 bilhão |
| Veículos Tesla registrados no país em 12 meses | 699 |
| Operadoras de satélite em avaliação de segurança | 3 |
| Preço de lançamento do Model Y na Índia | quase o dobro do valor nos EUA |
Disputa pelo espectro antecede as críticas
O atrito não começou agora. Antes das declarações, Starlink e Reliance Jio divergiam sobre a forma de distribuir o espectro de satélite: a empresa de Musk defendia a alocação por processo administrativo, enquanto a Jio pressionava por um leilão. Nova Délhi optou pela via administrativa e manteve os planos com a Starlink. No ano anterior, a SpaceX havia fechado acordos de distribuição com a Reliance Jio e com a Bharti Airtel, segunda maior operadora de telecomunicações indiana, prevendo a oferta do serviço assim que as autorizações saíssem.
Até o momento, a Starlink não recebeu sinal verde para operar comercialmente, apesar de ter conquistado licenças regulatórias relevantes. Jio e Airtel também preparam seus próprios serviços de internet via satélite: a Jio mantém uma joint venture com a luxemburguesa SES, e a Airtel é acionista relevante da Eutelsat OneWeb, que busca oferecer conectividade por satélite no território indiano.
Tesla patina e reforça o risco do mercado
A pressão sobre Ambani ocorre em paralelo a outra frente difícil para Musk no país. A Tesla iniciou as entregas na Índia no ano passado, mas registrou apenas 699 veículos nos primeiros 12 meses, segundo dados de emplacamento citados na apuração. Tarifas de importação elevadas empurraram o preço de lançamento do Model Y para quase o dobro do praticado nos Estados Unidos. A montadora reduziu valores neste ano, mas os carros seguem bem mais caros no mercado indiano.
O que isso sinaliza para o investidor
Para quem acompanha telecomunicações e conectividade, o episódio extrapola a Índia. A expansão de redes de satélite em mercados emergentes depende menos de capital e tecnologia do que de negociação regulatória e equilíbrio político. A Reliance, dona da maior operadora do país, mantém trânsito direto com o governo de Narendra Modi em grandes projetos — o que ajuda a explicar por que a disputa com a Starlink ganhou contornos tão pessoais.
A indefinição sobre a entrada da Starlink deixa aberta a corrida pelo mercado indiano de banda larga por satélite. Com Jio e Airtel já posicionadas, o desfecho regulatório define quem captura a demanda de regiões ainda sem cobertura. Para o investidor, o caso serve de lembrete de que ativos ligados a conectividade em mercados emergentes carregam risco político e regulatório que não aparece nos múltiplos.
