Uma bolsa de R$ 2,7 bilhões que ainda não opera

A A5X marcou o segundo trimestre de 2027 para iniciar as operações de sua plataforma de derivativos, projeto que chega ao mercado com avaliação de R$ 2,7 bilhões. O número saiu da rodada mais recente, que aportou R$ 360 milhões sob liderança de Morgan Stanley, Goldman Sachs e Kaszek e elevou para mais de R$ 730 milhões o capital captado desde a fundação da empresa.

A discussão que interessa a quem investe no Brasil não é a estreia em si, mas o terreno escolhido. A companhia não vai começar pelo mercado à vista de ações — segmento em que a B3 (B3SA3) negocia papéis como Petrobras (PETR4) e Vale (VALE3). A ofensiva mira os derivativos, mercado hoje concentrado na bolsa brasileira, e é aí que uma segunda infraestrutura tem poder de mexer com tarifas, variedade de contratos e investimento em tecnologia.

IndicadorValor
Avaliação na rodada mais recenteR$ 2,7 bilhões
Capital levantado na rodadaR$ 360 milhões
Total captado desde a fundaçãomais de R$ 730 milhões
Início previsto das negociações2º trimestre de 2027
Equipe atualmais de 200 funcionários
Previsão inicial, depois revista2026

Quem constrói a A5X

A lista de fundadores reúne nomes vindos do próprio mercado financeiro: Carlos Ferreira Filho e Karel Luketic, que foram sócios da XP, Nilson Monteiro, criador da corretora Ideal, e o advogado Julian Chediak.

O quadro de acionistas mistura bancos internacionais, gestoras e casas ligadas ao mercado local. Estão na relação Morgan Stanley, Goldman Sachs, XP, Ideal, ABN Amro Clearing, Jump Trading, Optiver, XTX Markets, IMC e Kaszek. Parte desse grupo, segundo a própria companhia, também participa do desenvolvimento da plataforma e da criação dos produtos — arranjo que interessa de perto a quem depende de volume para operar.

A empresa já reúne mais de 200 funcionários. Entre os acionistas estão ainda casas especializadas em formação de mercado — Jump Trading, Optiver e XTX —, cuja função é dar contraparte às ordens desde o início das negociações.

Derivativos primeiro: onde a competição de fato ocorre

O foco inicial são contratos derivados, instrumentos que derivam seu preço de um ativo ou indicador de referência — uma ação, o dólar, uma taxa de juros, um criptoativo. Em vez de comprar o papel, o investidor negocia um contrato atrelado à variação dele, recurso que serve tanto à busca de retorno quanto à proteção de uma carteira contra oscilações.

Família de contratoInstrumentos previstos
Índices acionários do Brasil e do exteriorFuturos e opções
AçõesFuturos e opções
CâmbioContratos futuros
Taxas de jurosFuturos e opções
CriptoativosFuturos

Dois detalhes técnicos definem o desenho. O exercício das opções ficará restrito à data de vencimento — o padrão que o mercado chama de opção europeia —, e a liquidação é financeira, com acerto em dinheiro e sem transferência do ativo que serve de referência. Com isso, a B3 segue sem concorrência direta no pregão de ações, ao menos na fase inicial.

Tecnologia do LSEG e uma câmara de compensação própria

Metade da estrutura vem de casa: a A5X desenvolve parte dos sistemas internamente. Já a camada internacional é licenciada de um parceiro de peso — o LSEG, braço de tecnologia do grupo britânico que controla a Bolsa de Londres.

O pacote cobre desde controles de risco anteriores ao envio da ordem até um motor de casamento de ofertas de latência muito baixa. Esse matching engine localiza compradores e vendedores compatíveis e opera em frações de segundo, requisito básico para instituições que disparam milhares de ordens em instantes. A distribuição de dados de mercado, o monitoramento em tempo real e as etapas de compensação, liquidação e gestão de risco completam o conjunto, cobrindo o trajeto inteiro de um negócio, do disparo da ordem à quitação final.

A companhia também pretende atuar como contraparte central (CCP, na sigla em inglês). Nesse formato, a câmara se coloca entre as pontas e assume o lado oposto de cada participante, o que blinda o mercado: se um membro não honra a obrigação, as garantias e os mecanismos de proteção impedem que o problema se espalhe. Ter uma CCP própria dá à A5X controle sobre todo o ciclo dos contratos e explica por que a operação exige tanto reservas de capital para atender às regras quanto acompanhamento próximo dos supervisores.

Liquidez: o obstáculo que dinheiro não compra

Tecnologia se contrata; volume, não. Liquidez é a facilidade de entrar e sair de uma posição sem distorcer a cotação, e é justamente esse o gargalo de qualquer bolsa que nasce.

Replicar os contratos que já rodam na B3 não é um caminho disponível. A A5X terá de criar seus próprios contratos, com regras, preços e datas de vencimento desenhados do zero, e, vencimento a vencimento, atrair giro. Ter bancos, corretoras e mesas formadoras de preço no quadro acionista é o que sustenta a aposta: são esses participantes que conseguem dar o pontapé inicial de volume.

Há ainda uma dependência relevante. Para criar derivativos referenciados em ações brasileiras, a nova bolsa precisa de dados do mercado à vista. Em 2025, as duas casas assinaram um contrato que regula o repasse e a licença de uso dessas informações, que vão ancorar derivativos de papéis como Petrobras (PETR4) e Vale (VALE3), além de outras companhias negociadas na bolsa hoje.

O calendário escorregou uma vez — e pode escorregar de novo

O prazo anunciado é uma expectativa da companhia, não um compromisso firmado. O calendário segue amarrado a testes, à integração com os participantes e ao aval dos reguladores. A estreia, aliás, já foi adiada: a previsão original apontava 2026, e o projeto foi empurrado para 2027 diante do tamanho do desafio técnico e das exigências regulatórias.

O dinheiro captado na rodada mais recente foi desenhado para cobrir três frentes: a estreia da plataforma, o capital exigido pelos reguladores e os primeiros anos de operação.

O que a A5X muda para quem investe

Um ambiente adicional de negociação tende a estimular revisão de tarifas, lançamento de produtos e corrida tecnológica. Historicamente, mais de um operador em infraestrutura de mercado pressiona custos para baixo e amplia a oferta — ainda que o efeito dependa de quanto volume cada plataforma consegue concentrar.

Do lado de quem investe, a mudança não passa por abrir outra conta. O caminho mais provável é que as corretoras conectadas à nova infraestrutura levem os contratos para dentro de seus próprios terminais, repetindo o que já fazem com os produtos listados na B3.

Duas casas de análise já se debruçaram sobre o tema. Em relatório, a XP sustenta que a proposta da A5X não se resume a drenar negócios da bolsa atual: trata-se de montar um ecossistema distinto, com foco em derivativos, o que dá contornos mais nítidos à ideia de competição na infraestrutura do mercado local. A Genial Investimentos também posiciona a A5X entre as futuras concorrentes da B3 — a Base Exchange aparece na lista para o segmento de ações, e a CSD BR, para serviços de balcão. A casa ressalva, porém, que a bolsa em operação leva vantagem pelo parque tecnológico montado, pelo volume já formado e pela oferta integrada de serviços.

Para quem acompanha B3SA3, entra no radar a chance de a companhia encurtar o ciclo de novos produtos, mexer na tabela de preços e reforçar o orçamento de tecnologia sob pressão competitiva. A dimensão real desse efeito depende de três variáveis que só se resolvem a partir de 2027: o aval regulatório, a adesão dos participantes e, principalmente, o volume que a nova plataforma conseguir atrair.